Sabe a "poucochinho", é um "pacotinho": medidas anti-inflação do Governo atacadas com diminutivos

7 set, 20:15
Governo defende pacote anti-inflação (Tiago Petinga / Lusa)

Fernando Medina não foi ao Parlamento explicar as medidas e isso caiu mal. Uma ministra e quatro secretários de Estado enfrentaram as críticas

O Governo entrou a uma só voz e com o discurso ensaiado: a solução para as reformas encontrada no pacote anti-inflação – com o pagamento de meia pensão em outubro e um aumento em 2023 mas com perda de rendimentos em 2024 – não prejudica os pensionistas “em um cêntimo”.

Ana Catarina Mendes, ministra Adjunta e dos Assuntos Parlamentares, garantiu mesmo que “os pensionistas receberão em 2023 o maior aumento de pensões dos últimos 20 anos”. Fê-lo a liderar uma equipa com quatro secretários de Estado na bancada e preparada para muitas críticas - da esquerda à direita.

Ao final da primeira ronda, o Governo ouviu os partidos criticarem a perda de rendimentos dos pensionistas a partir de 2024 e respondeu. “Não se trata de qualquer truque, ilusão ou embuste”, afirmou Gabriel Bastos, secretário de Estado da Segurança Social. Para concluir: “A posição tomada não prejudica em um cêntimo os atuais pensionistas”. “Não vale a pena hoje extrapolar para 2024 ou qualquer outro ano. Custa-me aceitar, mas até compreendo que alguns não resistam a falar em corte de pensão. Que isso fique claro: é absolutamente abusivo”, reforçou a ministra.

Prioridade do Governo: lembrar Passos, atacar o PSD

O Governo entrou no plenário com um objetivo claro: vincar as diferenças para com o PSD. Ainda os sociais-democratas não tinham falado e já Ana Catarina Mendes recuperou os fantasmas da governação de Pedro Passos Coelho. Primeiro para classificar o ataque à solução nas pensões como uma nova “vinda do diabo”. Depois para lembrar que o verdadeiro “truque” aconteceu quando “num dia os pensionistas portugueses recebiam 14 meses e na manhã seguinte, sem qualquer aviso prévio, recebiam menos dois meses". "Truque é mesmo tirar sem avisar. Isso já vivemos e não gostámos.”

Mas quando tomou a palavra, o líder parlamentar do PSD, Joaquim Miranda Sarmento, insistiu que está em causa “um corte permanente de pensões”. Já sobre o pacote na sua totalidade, sabe a “poucochinho”.

Mas o PS, nas suas várias vozes, continuava o ataque - da “austeridade versão 2.0”, passando por declarações de 2014 sobre as pensões, quando o atual presidente Luís Montenegro era líder parlamentar de Passos Coelho.

Os sociais-democratas, com Clara Marques Mendes, acusaram o Governo de não querer ouvir o maior partido da oposição, que tinha um programa de emergência “mais focado e socialmente mais justo”. “Há, de facto, um corte das pensões. Não tentem enganar os portugueses”, reforçou.

E, com isto, Ana Catarina Mendes reforçava o ataque, mesmo na fase final do debate: “Quando me dizem que 125 euros [cheque a quem ganhe menos de 2700 euros] é pouco, chamo a atenção de que se estivéssemos hoje sob a tutela do Governo do PSD hoje [havia] era cortes.”

Joaquim Miranda Sarmento foi uma das vozes do PSD na crítica ao Governo (Tiago Petinga / Lusa)

Tabelar preços: uma sugestão à esquerda contra o "pacotinho"

Não houve bancada que poupasse nas críticas. Dos liberais, que falam num governo “viciadíssimo em impostos”, aos comunistas, que encaram a solução das pensões como “uma fraude” e um “corte permanente”; Mariana Mortágua, do Bloco de Esquerda, recorreu mesmo à descida do IVA numa parcela da conta da luz: “Não dá para dois cafés”.

O PCP, com três deputados distintos, insistiu na falta de “coragem” do Executivo para mexer nos lucros extraordinários das grandes empresas à custa da inflação, sugerindo que é altura de tabelar preços. A mesma sugestão veio do Bloco de Esquerda, do PAN e do Livre, com Rui Tavares a adiantar também que irá propor um passe ferroviário nacional, como o de nove euros que se aplicou na Alemanha.

Medidas concretas – como passes gratuitos de crianças e jovens e uma revisão dos escalões do IRS – não houve, disse a porta-voz do PAN, Inês de Sousa Real. “O que tivemos foi um pacotinho com alguns remendos. O dinheiro existe. É preciso saber onde ir buscar.”

Ana Catarina Mendes foi a única ministra no plenário (Tiago Petinga / Lusa)

O ausente Medina

Foi André Ventura o primeiro a notar uma ausência de peso na sala: a do ministro das Finanças, Fernando Medina. “Onde é que está? Medina quer-se esconder e não quer vir ao Parlamento defender o embuste que apresentaram.”

O mesmo viria a vincar Inês de Sousa Real minutos depois: “Hoje seria caso para perguntar ‘Onde está o Wally?’. O mesmo se aplica quer ao ministro das Finanças, quer às medidas do Governo naquilo que são as respostas reais ao país”.

Medina fez-se representar por António Mendonça Mendes, secretário de Estado dos Assuntos Fiscais. Um dos quatro governantes que acompanharam a única ministra no plenário, Ana Catarina Mendes.

João Galamba, secretário de Estado da Energia, foi dos que adotou um tom mais duro (Tiago Petinga / Lusa)

A fatura de Ventura

André Ventura, presidente do Chega, quis mostrar que a descida do IVA na eletricidade significa “uma poupança de um euro”. E recorreu à fatura de uma pessoa que “vive sozinha, num mês de férias, em que 12 dias não esteve em casa”. Em causa, disse, um consumo de 3000 quilowatts.

João Galamba, secretário de Estado da Energia, que minutos antes garantia que Portugal tem, “neste momento, das inflações mais baixas de toda a Europa no sector energético”, havia de recuperar o exemplo. “Com um consumo de 3000 quilowatts ao mês numa casa vazia, eu reportava esse consumo à Polícia Judiciária, porque suspeito que indicia outra coisa”.

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