Costa prometeu: parte dos problemas no SNS ficaria resolvida a 19 de junho. A seguir morreu um bebé e uma grávida, no fim a ministra culpou os "anos 80"

30 ago, 08:33
Marta Temido durante uma audição na Assembleia da República (António Cotrim/Lusa)

Um problema que estaria resolvido “na segunda-feira” mas que culminou numa demissão dois meses depois: as promessas de Costa e de Temido, que caiu

Exatamente um mês depois de Marta Temido ter garantido que assume total “responsabilidade por tudo o que falha no SNS”, a agora ex-ministra da Saúde pediu a demissão do cargo, uma decisão já aceite por António Costa e que deixa o país com um Ministério da Saúde ainda mais fragilizado num momento crítico para o Serviço Nacional de Saúde (SNS).

A crise nas urgências de ginecologia e obstetrícia começou ainda em maio e adensou-se em junho, após a morte de um bebé nas Caldas da Rainha, a 10 de junho. Desde então, tanto Marta Temido como o primeiro-ministro, António Costa, foram dividindo responsabilidades. Mas primeiro Costa admitiu “problemas” nas urgências dos hospitais mas recusou falar mais sobre o tema porque estava fora do país. Nessa altura, Marcelo Rebelo de Sousa já tinha dito que esperava que este problema nas urgências de obstetrícia e ginecologia não se prolongasse por mais tempo.

Dois dias depois, Marta Temido descartou que a situação se trate de um problema de agora e adotou uma postura defensiva - “Eu decido continuar a lutar”, disse no dia 15 de junho.

Nessa mesma semana, a 17 de junho, a agora ex-ministra classificou os problemas do SNS como “estruturais”  e culpou a pandemia da situação. António Costa saiu em sua defesa e, nesse mesmo dia, decidiu quebrar a regra de não comentar assuntos nacionais em encontros internacionais para garantir que “parte dos problemas [do SNS] a partir de segunda estará normalizada” (mas não ficaram - e depois da promessa faleceu mais um bebé e uma grávida devido Aos constrangimentos nas unidades de urgência de obstetrícia e ginecologia).

A 22 de junho, e com a oposição a intensificar as críticas ao Ministério da Saúde, Costa assumiu a responsabilidade pela escolha dos ministros, descartando a saída de Marta Temido. 

“Assumo as responsabilidades pelo que fazem ou não fazem os membros do Governo que escolhi”, disse o primeiro-ministro a 22 de junho.

Apesar de o agravamento dos constrangimentos e de um aumento do número de hospitais com blocos de parto e urgências de obstetrícia e ginecologia encerrados, que resultaram na morte de mais um bebé, a 28 de junho, Marta Temido assumiu a responsabilidade mas recusou a sua própria saída (apesar das pressões da oposição). A agora ex-ministra da Saúde reconheceu que o “SNS enfrenta problemas” e disse que iria tentar resolver a questão através da contratação direta de médicos. “Mais do que pedir desculpa, tenho a responsabilidade política de deixar a outros ministros melhores condições”, disse a 29 de junho. 

Já em julho, Marta Temido afirmou que “mesmo que conseguíssemos captar todos os médicos obstetras no país, continuaríamos a ter dificuldade de resposta”.

O mês de agosto começou com o pedido de escusa de responsabilidade nas urgências por parte dos médicos de ginecologia e obstetrícia, mas os problemas no SNS continuaram. Marta Temido terá ligado a diretores de serviços de hospitais a pedir para que cancelassem as férias a médicos e, no dia 25, atribuiu constrangimentos atuais a escolha feita "nos anos 80”.

“O facto de termos um número de médicos em determinadas especialidades que é insuficiente para a rede de prestação de cuidados de saúde que hoje temos – insuficiente e, em termos etários, desadequado daquilo que precisamos de garantir – não é o resultado de uma escolha de hoje, ontem ou do ano passado. É o resultado de uma escolha que foi feita há várias décadas, nos anos 80, quando o acesso aos cursos de medicina estava altamente limitado, o que levou a que tivéssemos agora o reflexo dessa escolha”, justificou Marta Temido.

Quatro dias depois, uma mulher de 34 anos, grávida de 31 semanas, morreu no último sábado, em Lisboa, depois de ter sofrido uma paragem cardiorrespiratória de 17 minutos durante a transferência de ambulância de Santa Maria para São Francisco Xavier, forçada porque o primeiro hospital, considerado a maior unidade do país, não tinha vaga no Serviço de Neonatologia para internar o bebé quando fosse provocado o parto – uma medida que era necessário tomar com urgência para salvar a vida da mãe. 

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