Dois bebés e uma grávida morreram entre junho e agosto: Marta Temido, a crise no SNS e os casos antes da saída

30 ago, 02:57
A ministra da Saúde, Marta Temido (Mário Cruz/Lusa)

Ministra da Saúde demitiu-se. Alega "falta de condições para se manter no cargo". E há crise no SNS além de crise no Governo: uma cronologia breve dos eventos

A demissão de Marta Temido surgiu horas depois de a TVI e a CNN Portugal terem noticiado a morte de uma mulher grávida enquanto era transferida por falta de vaga no hospital de Santa Maria. Mas este não foi o único caso a evidenciar as fragilidades do Sistema Nacional de Saúde (SNS). Os serviços de obstetrícia e ginecologia estão em rutura há vários meses - com médicos internos a ultrapassarem as linhas do trabalho extraordinário - mas agravaram-se desde junho, quando as urgências de vários hospitais anunciaram o fecho durante horas ou dias.

9 de junho - bebé morre no hospital das Caldas da Rainha

Era uma quarta-feira à noite, a gravidez estava perto do fim e a mulher deslocou-se ao Hospital das Caldas da Rainha pelos próprios meios. Só lá ficou a saber que as urgências de ginecologia/obstetrícia estavam fechadas. Ainda lhe foi feita uma cesariana de emergência, mas o bebé acabou por morrer.

Foi o caso que gerou a atenção mediática sobre as urgências desta especialidade, com a administração do Centro Hospitalar do Oeste (CHO) e o Governo a admitirem "constrangimentos" com as escalas destes médicos.

Este caso também contribuiu para que Marta Temido fosse chamada a prestar esclarecimentos, com caráter de urgência, no Parlamento.

28 de julho - grávida perde bebé depois de percorrer mais de 100 quilómetros

 

 

Uma grávida que perdeu o bebé depois de fazer 100 quilómetros até às urgências do Hospital de Santarém já tinha estado no Hospital de Abrantes com uma carta médica para ser seguida naquela unidade, mas, segundo a família, o pedido não terá sido aceite.

22 de agosto - grávida atravessa três distritos para dar à luz

Mais de dois meses depois, o Serviço Nacional de Saúde não conseguiu resolver o problema, excetuando ao nível da informação: há agora um portal com informação sobre as urgências e os blocos de partos encerrados, ainda que às vezes também falhe.

Já em julho, o secretário de Estado Adjunto e da Saúde, Lacerda Sales, garantiu que "ninguém ficará sem resposta" do SNS durante o mês de agosto porque os hospitais funcionam em rede.

Dias depois, Patrícia Alves, de 26 anos e grávida de 40 semanas e quatro dias, começara a sentir dores abdominais e decidiu chamar o INEM para a sua casa, na Amora, no Seixal, às 4:00. Mas dali foi encaminhada para Santarém, a mais de 100 quilómetros, porque nenhuma unidade hospitalar dos distritos de Setúbal e Lisboa estavam disponíveis.

O caso foi alvo de um inquérito pela Administração Regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo (ARSLVT), que disse esperar que a situação não se repita.

27 de agosto - grávida morre enquanto estava a ser transferida por falta de vagas

Uma mulher de 34 anos, grávida de 31 semanas, morreu no último sábado, em Lisboa, depois de ter sofrido uma paragem cardiorrespiratória de 17 minutos durante a transferência de ambulância de Santa Maria para São Francisco Xavier, forçada porque o primeiro hospital, considerado a maior unidade do país, não tinha vaga no Serviço de Neonatologia para internar o bebé quando fosse provocado o parto – uma medida que era necessário tomar com urgência para salvar a vida da mãe. 

A diretora do Serviço de Obstetrícia afirmou à CNN Portugal que o hospital só tinha duas vagas. O Hospital optou por manter nas suas instalações uma grávida de gémeos e transferir a grávida que acabou por morrer - estava estável quando foi transferida mas apresentava um quadro de hipertensão arterial já com 6 dias e dispneia e tinha sido diagnosticada com pré-eclampsia grave e restrições de crescimento uterino.

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