Marta Temido demite-se: diz que deixou "de ter condições" para ficar no cargo. Substituição da ministra "não será rápida"

30 ago, 01:26
Ministra da Saúde, Marta Temido durante audição da Comissão de Saúde (Mário Cruz/ LUSA)

Decisão surge horas depois de a TVI/CNN terem noticiado que uma grávida morreu enquanto estava a ser transferida porque havia falta de vagas no Hospital de Santa Maria

Marta Temido apresentou formalmente a demissão, anunciou o Ministério da Saúde em comunicado. Segundo a nota, enviada às redações na madrugada desta terça-feira, Marta Temido apresentou a demissão ao primeiro-ministro, António Costa, "por entender que deixou de ter condições para se manter no cargo".

A decisão surge horas depois de a TVI/CNN Portugal ter noticiado a morte de uma grávida que foi transferida por haver falta de vagas na neonatologia do Hospital de Santa Maria. O pedido de demissão foi aceite por António Costa, que adiantou, também em comunicado, que já informou Marcelo Rebelo de Sousa.

"O primeiro-ministro agradece todo o trabalho desenvolvido pela dra. Marta Temido, muito em especial no período excecional do combate à pandemia da covid-19", pode ler-se no comunicado entretanto divulgado pelo gabinete do primeiro-ministro, no qual garante também que "o Governo prosseguirá as reformas em curso tendo em vista fortalecer o SNS e a melhoria dos cuidados de saúde prestados aos portugueses".

A substituição da ministra da Saúde "não será rápida", disse entretanto à Lusa fonte próxima do primeiro-ministro, adiantando que António Costa gostaria que fosse Marta Temido a concluir o processo de definição da nova direção executiva do SNS. "O primeiro-ministro gostaria que ainda fosse Marta Temido a levar ao Conselho de Ministros o diploma que regula a nova direção executiva do SNS" e que considera uma "peça central da reforma iniciada com a aprovação do Estatuto em julho passado", disse à agência Lusa a mesma fonte.

Marta Temido iniciou funções como ministra da Saúde em outubro de 2018, sucedendo a Adalberto Campos Fernandes. Foi ministra durante os três últimos três executivos, liderados pelo socialista António Costa. Durante os seus mandatos, Marta Temido esteve no centro da gestão da pandemia, que começou em 2020, mas também atravessou várias polémicas. Recentemente, o encerramento dos serviços de urgência de obstetrícia em vários hospitais por falta de médicos para preencher as escalas pressionou a tutela.

Marcelo Rebelo de Sousa diz que também já aceitou a demissão da ministra mas que ainda aguarda pela formalização do pedido.

A morte de uma grávida enquanto estava a ser transferida

Uma mulher de 34 anos, grávida de 31 semanas, morreu no último sábado, em Lisboa, depois de ter sofrido uma paragem cardiorrespiratória de 17 minutos durante a transferência de ambulância de Santa Maria para São Francisco Xavier, forçada porque o primeiro hospital, considerado a maior unidade do país, não tinha vaga no Serviço de Neonatologia para internar o bebé quando fosse provocado o parto – uma medida que era necessário tomar com urgência para salvar a vida da mãe. 

A TVI, do mesmo grupo da CNN Portugal, teve acesso ao relatório clínico, que revela que a mulher recorreu às urgências do Santa Maria no dia 22, cinco dias antes de morrer. Não tinha antecedentes de doença, nem tomava medicação. Mas apresentava um quadro de hipertensão arterial já com 6 dias e dispneia. Foi diagnosticada em Santa Maria com pré-eclampsia grave e restrições de crescimento uterino. Era urgente provocar o parto, mas não havia vaga naquele hospital no Serviço de Neonatologia, onde o bebé teria de ser internado mal nascesse, e como tal foi decidido transferir a grávida para o São Francisco Xavier. Quanto ao bebé, foi salvo graças a um parto de cesariana feito de urgência.

A reação do hospital

A diretora do Serviço de Obstetrícia do Hospital de Santa Maria, Luísa Pinto, afirmou esta segunda-feira, em declarações à CNN Portugal, que o hospital só tinha duas vagas e optou por manter uma grávida de gémeos que se encontrava no hospital, optando por transferir a mulher que acabou por morrer, "uma vez que se encontrava estável".

A situação, explicou, aconteceu devido a "uma falta de vagas no Serviço de Neonatologia", algo que "não é inédito" no Santa Maria, uma vez que se trata de um "hospital terciário". O facto de a grávida se encontrar estável levou o hospital a optar por transferir a paciente. 

"A paragem cardiorrespiratória não era previsível numa situação de pré-eclampsia. Esta situação não era esperada, muito menos numa pessoa que já se encontrava estabilizada. Neste momento, estamos a aprofundar todos os dados e está a decorrer uma investigação para apurarmos a causa da morte", indicou a diretora do Serviço de Obstetrícia.

Luísa Pinto esclareceu também que, neste momento, o Serviço de Neonatologia do CHULN tem 16 camas, oito de cuidados intermédios e oito de cuidados intensivos, acrescentando que é "urgente aumentar a capacidade", uma vez que o serviço recebe "muitas situações de risco". 

"Do que sabemos até agora, a conduta clínica não tem nada a apontar. A grávida foi estabilizada e só depois é que foi transferida. Foi transferida com a terapêutica que tinha de ter em curso e foi acompanhada por um médico. Foi uma situação completamente inesperada", insistiu.

Também o Centro Hospitalar Universitário Lisboa Norte (CHULN) reagiu esta segunda-feira à morte da grávida de 34 anos no último sábado. Num comunicado enviado à CNN Portugal, o CHULN sublinhou que a mulher deu entrada no Hospital de Santa Maria, "por volta das 02:00 da manhã. Tratava-se de uma grávida de nacionalidade indiana, residente na Índia e recém-chegada a Portugal, sem dados de vigilância da gravidez". A mulher recorreu ao serviço de urgência por "dificuldade respiratória e tensões arteriais altas".

"Após normalização das tensões arteriais e franca melhoria respiratória, foi transferida cerca das 13:00 do mesmo dia para o Hospital São Francisco Xavier, por ausência circunstancial de vagas de Neonatologia no CHULN, acompanhada por um médico e enfermeiros", pode ler-se na nota.

Durante a transferência, detalha o hospital, a paciente sofreu uma "paragem cardiorrespiratória" e foi efetuada a "reanimação no transporte". Na chegada ao hospital a grávida "foi submetida a uma cesariana urgente".

O bebé nasceu com 772 gramas, sendo encaminhado para "unidade de cuidados intensivos neonatais por prematuridade". Já a mãe "ficou internada nos cuidados intensivos, vindo a falecer". "Falecimento que o CHULN lamenta, endereçando à família as mais sentidas condolências", termina a nota.

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