Quatro horas de jantar, quatro horas polémicas. Tudo o que disse Marcelo (com áudios)

24 abr, 23:46

São vários vídeos com declarações polémicas, umas mais que outras, que o Presidente da República já veio tentar justificar. Ouça aqui todos os áudios e entenda o que se passou

Luís Montenegro comparado com António Costa, um erro "imperdoável" do filho ou um ato "maquiavélico" da procuradora-geral da República. Não se percebeu se o Presidente da República entendeu que, mais do que ouvido, estava a ser gravado, mas as polémicas palavras que teve junto de jornalistas estrangeiros acabaram por sair da reunião que durou mais de quatro horas, e na qual o chefe de Estado não se coibiu de comentar nada. Mas mesmo nada.

De resto, já esta quarta-feira, numa clara tentativa de aligeirar a situação, Marcelo Rebelo de Sousa contou que os jornalistas lhe perguntaram se podiam questioná-lo sobre tudo. "Tudo", respondeu-lhes, e assim foi: perguntaram-lhe tudo e o Presidente da República respondeu a tudo. Mas mesmo tudo.

Os "lentos" e o "oriental"

Um dos áudios mais polémicos, senão o mais, foi aquele em que Marcelo Rebelo de Sousa se atirou para comparações entre o atual primeiro-ministro e o anterior. Sem grandes contenções, o Presidente da República afirmou que ambos eram "lentos", mas encontrou para António Costa uma explicação peculiar: é "oriental". Já Luís Montenegro "não é oriental mas é lento".

"Não imaginam como é difícil eu adaptar-me a um novo primeiro-ministro", admitiu Marcelo Rebelo de Sousa no referido jantar num hotel de Lisboa, de acordo com o som cedido à CNN Portugal, e no qual o chefe de Estado traçou os perfis do atual e do anterior chefe do Governo.

Segundo Marcelo, o estilo de Montenegro é "completamente diferente" do de António Costa. Montenegro "não é lisboeta nem portuense, é uma pessoa que vem de um país profundo, urbano-rural, urbano com comportamentos rurais".

"É muito curioso e difícil de entender precisamente por causa disso", acrescentou. Mais tarde, e questionado sobre a referência ao primeiro-ministro como alguém "rural", Marcelo Rebelo de Sousa justificou que falava do partido, do qual também já foi presidente, ao passo que o PS é mais "urbano".

Ainda assim, o atual primeiro-ministro é, segundo o Presidente da República, "um grande orador, que vai ganhar todos os debates parlamentares por causa disso".

"Mas é um político retórico, à antiga, não é um político estilo primeiro-ministro António Costa e muito menos estilo partidos populistas", é "discursivo, envolvente, difícil de acompanhar". Com Luís Montenegro "eu todos os dias tenho surpresas. Com o primeiro-ministro António Costa, era ao contrário, tentava informar".

"É estimulante, mas para mim dá muito trabalho. Não me dava muito trabalho o primeiro-ministro António Costa, era previsível", acrescentou, para mais tarde vir recusar ter feito comparações entre ambos.

Apesar disso, e horas depois de se conhecerem os polémicos áudios, Marcelo Rebelo de Sousa negou-se arrependido das palavras: "Não, nada".

A mágoa com o filho

Questionado inúmeras vezes por um caso revelado pela TVI (do mesmo grupo da CNN Portugal), nunca o Presidente da República falou tão à vontade sobre o caso das gémeas tratadas no Hospital de Santa Maria.

Talvez por achar que estava num ambiente em que não seria gravado, Marcelo Rebelo de Sousa confessou abertamente, e pela primeira vez, que estava de relações cortadas com o filho, Nuno Rebelo de Sousa, que terá intercedido à revelia do pai para que as meninas obtivessem nacionalidade portuguesa e pudessem receber o medicamento mais caro do mundo, o Zolgensma.

"Não sei se disse alguma coisa lá aos pais das gémeas. A mim não disse. E isso é imperdoável", referiu aos jornalistas. E esse foi o problema: Nuno Rebelo de Sousa não informou o pai na altura e, segundo o chefe de Estado, assim se manteve durante os seis meses que se seguiram, o que levou Marcelo Rebelo de Sousa a cortar relações com o filho.

Se isso não tinha ficado totalmente claro no áudio, o esclarecimento posterior confirmou: "Não, não falo, não falo em geral. Sinto muita mágoa pessoal, mas não fui o determinante".

Lucília como Maquiavel

"O primeiro método para estimar a inteligência de um governante é olhar para os homens que tem à sua volta". Escreveu isto Nicolau Maquiavel, cujo apelido deu origem a um adjetivo pouco querido: maquiavélico.

E aí entramos num jogo de semântica. Marcelo Rebelo de Sousa afirmou que a procuradora-geral da República, Lucília Gago, teve um ato "maquiavélico" durante a Operação Influencer, a mesma que fez cair o primeiro-ministro António Costa, o Governo e, sucessivamente, a Assembleia da República, mesmo que o chefe de Estado não o quisesse.

“Se a senhora procuradora, com a mesma presteza com que tinha tido a iniciativa de abrir um inquérito envolvendo também o primeiro-ministro um mês antes de os portugueses saberem… descubro, umas semanas mais tarde, que tinha aberto um inquérito contra terceiros e em que dia? No dia 7 de novembro. Que eu achei maquiavélico. Género de equilíbrio, equilíbrio sofisticado. Muito bem… abriu, abriu”, afirmou Marcelo Rebelo de Sousa.

Já a frio, e questionado pela CNN Portugal se tinha chamado "maquiavélica" a Lucília Gago, Marcelo Rebelo de Sousa negou: "“Não, nunca disse isso, fui muito cuidadoso com o que disse nesse particular, não falando nas caraterísticas pessoais, nem devia falar, da procuradora-geral da República”.

Para todos os efeitos não disse mesmo, mas será que Marcelo Rebelo de Sousa olhou à volta antes de falar?

Portugal em dívida

Portugal tem responsabilidades por crimes cometidos durante a era colonial. É o entendimento do Presidente da República, que sugeriu o pagamento de reparações pelos erros do passado.

"Temos de pagar os custos. Há ações que não foram punidas e os responsáveis não foram presos? Há bens que foram saqueados e não foram devolvidos? Vamos ver como podemos reparar isto", afirmou Marcelo Rebelo de Sousa, num jantar em que estavam vários jornalistas internacionais, muitos deles de nacionalidade brasileira.

No evento, Rebelo de Sousa disse que Portugal "assume toda a responsabilidade" pelos erros do passado e lembra que esses crimes, incluindo os massacres coloniais, tiveram custos.

Há um ano, na sessão de boas-vindas ao Presidente brasileiro Lula da Silva, que antecedeu a sessão solene comemorativa do 49.º aniversário do 25 de Abril na Assembleia da República, Marcelo Rebelo de Sousa defendeu que Portugal devia um pedido de desculpa, mas acima de tudo devia assumir plenamente a responsabilidade pela exploração e pela escravatura no período colonial.

"Não é apenas pedir desculpa - devida, sem dúvida - por aquilo que fizemos, porque pedir desculpa é às vezes o que há de mais fácil, pede-se desculpa, vira-se as costas, e está cumprida a função. Não, é o assumir a responsabilidade para o futuro daquilo que de bom e de mau fizemos no passado", defendeu.

Durante mais de quatro séculos, pelo menos 12,5 milhões de africanos foram raptados, transportados à força para longas distâncias por navios e mercadores maioritariamente europeus e vendidos como escravos.

Costa na Europa? Esperemos pelo tsunami

No mesmo encontro com correspondentes estrangeiros, Marcelo Rebelo de Sousa, voltou a dizer que acredita que o ex-primeiro-ministro António Costa será o próximo presidente do Conselho Europeu.

"Acho que sim", disse, quando questionado sobre a sua opinião relativamente às hipóteses de Costa presidir a um dos organismos máximos da União Europeia.

O líder português afirmou que, após as últimas informações divulgadas sobre o processo judicial contra o ex-chefe de Governo por alegadas irregularidades, parece que o processo vai decorrer "mais facilmente, mais rapidamente".

Marcelo Rebelo de Sousa sublinhou ainda que tudo indica que os socialistas serão a segunda força mais votada nas eleições europeias de junho, "a não ser que haja um tsunami".

O Presidente da República salientou que outro fator favorável a Costa poderá ser o facto de a Presidência da Comissão Europeia estar nas mãos do Partido Popular, o que faria sentido que a Presidência do Conselho Europeu fosse para os socialistas, embora não seja o caso atualmente.

Destacou não só o apoio que Costa poderá ter no seio da família socialista, mas também as simpatias que suscita no Partido Popular Europeu e entre liberais como o presidente francês, Emmanuel Macron.

Segundo Marcelo Rebelo de Sousa, a estes possíveis apoiantes juntam-se outros possíveis apoiantes, como a primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, o presidente húngaro, Viktor Orbán, e líderes da Europa de Leste.

"Será um grande presidente do Conselho Europeu e isso é bom para a Europa e bom para Portugal", afirmou.

O Presidente da República salientou que a Europa "precisa de políticos com experiência" e recordou que Costa foi um dos primeiros-ministros com o mandato mais longo.

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