Morreu um bebé nas Caldas da Rainha: Governo diz que "constrangimentos na escala de ginecologia obstetrícia" foram "impossíveis de suprir"

10 jun, 14:56

Ordem dos Médicos diz que chegou o momento de se olhar a sério para os problemas no SNS, sindicato aponta falhas à maneira como a administração hospitalar se comportou antes deste caso - e diz mesmo que um aviso "à porta do serviço de urgência a dizer não estava em condições para receber grávidas" podia ter evitado o problema

A mãe do bebé que morreu na cesariana de urgência no Hospital das Caldas da Rainha, na madrugada de quarta-feira, estava de final de tempo de gestação e deslocou-se à unidade de saúde pelos seus próprios meios. Quando ali chegou deparou-se com o serviço de Urgência encerrado e o processo de preenchimento dos dados acabou por ter problemas.

Ao que a CNN Portugal conseguiu apurar, a mulher acabaria por sofrer várias complicações de saúde já dentro daquele hospital e foi assistida por uma médica obstetra e pelo diretor de serviço. O hospital disse à TVI/CNN Portugal que não há nexo-causal entre a falta de médicos e a morte do bebé e que a investigação está a decorrer para apurar o que aconteceu.

No entanto, o presidente da Comissão de Utentes do Centro Hospitalar do Oeste diz que este é um problema recorrente e que a situação tem sido crítica nos últimos meses. "A manta estica, mas tem de se encerrar pontualmente a obstetrícia", afirmou Vítor Dinis à CNN Portugal, acrescentando que a diretora do hospital já foi questionada porque é que paga tanto aos médicos e que esta respondeu que se não o fizesse o hospital já teria fechado.

O Ministério da Saúde já reagiu. Diz que está a "acompanhar o tema, em especial a evolução da situação clínica da utente que está internada no hospital, que se encontra estável e a quem será prestado apoio psicológico". "O Ministério de Saúde lamenta profundamente a perda do bebé e o sofrimento da família. O Ministério da Saúde tem conhecimento de que, por constrangimentos na escala de ginecologia obstetrícia, impossíveis de suprir, a urgência externa do Centro Hospitalar do Oeste estava desviada para outros pontos da rede do Serviço Nacional de Saúde. O Ministério da Saúde tem conhecimento de que, tendo em vista o apuramento de toda e qualquer responsabilidade, foi já instaurado um inquérito aos factos pela IGAS. Na pendência do inquérito, cujos resultados serão tornados públicos, não é possível estabelecer qualquer relação entre os dois factos".

"O que é que foi feito?"

Miguel Guimarães, bastonário da Ordem dos Médicos, lamentou o sucedido e afirmou que a carência de médicos no hospital das Caldas é algo que acontece "com muita frequência". "Isto nas Caldas da Rainha tem acontecido com muita frequência em várias áreas e, nomeadamente, naquilo que é o próprio protesto que os médicos fazem porque não existem as equipas que deviam existir para funcionar. A questão que se coloca no caso deste bebé é: o que é que foi feito?", questiona Miguel Guimarães.

O bastonário da Ordem dos Médicos lembrou que, como terá sido o caso da madrugada de quarta-feira, as grávidas normalmente são transportados por familiares e não pelo INEM e que os médicos que estavam no serviço tentaram dar resposta mas, "infelizmente", o bebé veio a morrer.  

"Todos os dias há hospitais que divulgam as dificuldades a nível de recursos humanos. Nós estamos numa altura que temos de olhar para o SNS", sublinha o bastonário.

Também Jorge Roque da Cunha, presidente do Sindicato Independente dos Médicos, diz que "esta morte é lamentável" e que o Conselho de Administração do Hospital das Caldas da Rainha "não reconheceu o problema". 

"Deveria ser utilizado uma coisa muito simples: pôr à porta do serviço um aviso de que a urgência não estava em condições para receber grávidas. De certeza que se o familiar soubesse que não havia obstetras para atender teria chamado o INEM ou teria vindo para Lisboa. O problema é que [o Conselho de Administração do Hospital das Caldas da Rainha] não reconheceu o problema", afirmou.

Hospital diz que não há nexo-causal

Em comunicado, o Centro Hospitalar do Oeste confirma que na quarta-feira existiram constrangimentos no preenchimento da escala médica para a urgência de obstetrícia e que a mesma estava encerrada "ao CODU/INEM, após a definição de circuitos de referenciação de doentes com outros Hospitais". 

"Confirma ainda que se verificou uma ocorrência grave com uma grávida, tendo sido determinada a abertura de um processo de inquérito à Inspeção-Geral de Atividades em Saúde, no sentido de apurar o sucedido e eventuais responsabilidades”, acrescenta o comunicado do hospital. Numa segunda nota enviada à CNN Portugal, o centro hospitalar refere que "não há nenhum nexo de causalidade estabelecido entre a morte do bebé e as limitações no preenchimento das escalas".

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