7 coisas urgentes que é preciso saber sobre a crise nas urgências hospitalares em Portugal (e Marcelo já pressiona)

CNN Portugal | Agência Lusa , MJC
13 jun, 13:37
Hospital de São João recebe doentes covid-19 provenientes da região de Lisboa e Vale do Tejo

Feriados e férias criam dificuldades acrescidas nos serviços de urgência do Serviço Nacional de Saúde - que já estavam a funcionar com problemas. Um bebé morreu. Marcelo pronunciou-se e espera que o Governo resolva o assunto rapidamente - e que invista no SNS

A ministra da Saúde Marta Temido reuniu-se esta segunda-feira de emergência com a Autoridade Regional de Saúde (ARS) de Lisboa e Vale do Tejo e vai também encontrar-se com a Ordem dos Médicos, depois de vários dias de constrangimentos, ou mesmo encerramentos, nos serviços de urgências de vários hospitais do país. O caso mais grave conhecido aconteceu na noite de quarta-feira, quando uma grávida perdeu o bebé durante uma cesariana de emergência no hospital das Caldas da Rainha. 

O Ministério da Saúde admitiu na altura que houve "constrangimentos na escala de ginecologia obstetrícia" que foram "impossíveis de suprir" e que, por isso, a urgência do Centro Hospitalar do Oeste estava "desviada para outros pontos" da rede do Serviço Nacional de Saúde.

1. O que disse o hospital das Caldas?

O conselho de administração do Centro Hospitalar do Oeste (CHO) abriu um inquérito, participando à Inspeção-Geral das Atividades em Saúde (IGAS) o caso de uma grávida que perdeu o bebé no hospital das Caldas da Rainha. Em comunicado divulgado na sexta-feira, o conselho de administração considerou, no entanto, que é "prematuro estabelecer qualquer relação de causa-efeito entre o encerramento da urgência obstétrica e o referido episódio”.

O hospital confirmou que na passada semana a urgência obstétrica do CHO “teve constrangimentos no preenchimento da escala médica, o que determinou o encerramento da referida urgência ao CODU/INEM, após a definição de circuitos de referenciação de doentes com outros Hospitais”. Mas o CHO garantia que tinha “envidado todos os esforços para contratar profissionais necessários para providenciar a resposta necessária à população”.

2. Que outros hospitais estão com dificuldades?

Durante o fim de semana e até esta segunda-feira, devido à existência de feriados, há vários serviços de urgência de obstetrícia encerrados ou a funcionar a meio-gás nas grandes cidades. Há problemas nos hospitais de Braga, Setúbal,  Santarém, Barreiro-Montijo, Algarve, Garcia de Orta, em Almada, Beatriz Ângelo, em Loures, São Francisco Xavier, Amadora-Sintra e de Vila Franca de Xira, que está sem urgência geral de adultos até às 21:00 horas desta segunda-feira. À TVI/CNN Portugal, fonte hospitalar adiantou que só atendem os pacientes que cheguem ao hospital pelos próprios meios.

Os hospitais ressentem-se sobretudo da escassez de médicos nas áreas da Ortopedia, Pediatria e obstetrícia.

3. Ordem dos Médicos denuncia equipas desfalcadas em vários hospitais

"Todos os dias há hospitais que divulgam as dificuldades a nível de recursos humanos. Nós estamos numa altura que temos de olhar para o SNS", confirmou à CNN Portugal o bastonário da Ordem dos Médicos, Miguel Guimarães.

“Nós temos de ter a noção de que não se pode ter equipas desfalcadas e encerramentos de urgências sem consequências, e as consequências advêm de uma crise que já se arrasta há mais de três anos e para a qual temos repetidamente chamado a atenção”, salientou também Alexandre Valentim Lourenço, presidente do Conselho Regional do Sul da Ordem dos Médicos. Por esta razão, sustentou que é preciso “interrogar quais serão as medidas [a tomar] e porque é que essas medidas não terão sido tomadas, sabendo nós que esta situação é estrutural e afeta múltiplas maternidades na região sul do país”.

Alexandre Valentim Lourenço salientou que, nos últimos meses, se têm multiplicado as situações de maternidades sem escalas completas, sem planos de contingência e que tiveram de encerrar as urgências. “Agora que se aproxima o verão, vamos perceber que isto poderá ser quase uma rotina e não uma exceção”, avisou.

Segundo o especialista, enquanto houver equipas que, para terem uma “segurança mínima”, deviam ter três, quatro, cinco pessoas mas têm uma ou duas, “estes casos têm tendência a repetir-se”.

Advertiu ainda que o encerramento de várias urgências em simultâneo também pode colocar em risco a resposta noutras maternidades, sendo por isso essencial ter neste momento “um plano bem estruturado de encaminhamento de informação à população”. Se uma maternidade estiver encerrada, não basta a pessoa chegar lá e ver uma informação na porta, tem de perceber antes onde é que tem de ir, explicou o responsável, alertando para o facto de as outras instituições também estarem sobrecarregadas com as utentes que vêm das outras maternidades.

"Mas isto acontece em todos os hospitais. Vemos o encerramento da maternidade do Hospital Garcia da Orta [em Almada], que é um grande hospital e faz muitos partos”, cujas grávidas da Margem Sul têm de ser encaminhadas para “outro lado qualquer que muitas vezes não está preparado para receber essa afluência”, elucidou. No entanto, há dias em que encerram duas ou três maternidades, sendo que os restantes hospitais que já estavam cheios podem nem sequer ter equipamentos para receber estas grávidas, reforçou.

Alexandre Valentim Lourenço apontou ainda que há hospitais - como o das Caldas, de Évora ou de Portalegre - que “estão muito longe do hospital mais perto”, uma situação que “é importante também precaver”.

4. "Uma situação crónica", dizem os médicos

“Este é um problema crónico, vemos no Algarve, vemos em Lisboa, vemos a Norte. É um problema transversal, é um problema estrutural”, disse Nélson Pereira, diretor de Medicina Intensiva do Hospital de S. João

Pinho de Almeida, diretor do serviço de Obstetrícia do Hospital de Setúbal, reconhece que “há dias mais difíceis” e alerta que “está previsto” que esta situação se vá “agravar muito em julho, agosto e setembro”.

“Naturalmente que não podemos tirar conclusões antecipadamente, mas há uma razão de fundo” para o que aconteceu, disse Jorge Roque da Cunha, secretário-geral do Sindicato Independente dos Médicos (SIM) , apontando “a falta de resposta” destes serviços como “a principal responsável para que isto possa ter acontecido”.

"Este é um problema estrutural. Vamos andar de paliativo em paliativo à procura de algo que não tem solução", afirmou o ex-ministro da Saúde Adalberto Campos Fernandes, explicando que é necessário fazer uma reforma profunda no Serviço Nacional de Saúde e melhorar as condições de trabalho dos médicos do SNS.

5. Partidos criticam atuação do Governo

O grupo parlamentar do PSD questionou a ministra da Saúde sobre as circunstâncias da morte do bebé, pedindo a Marta Temido que explicite “que diligências foram espoletadas pela tutela para apurar todas as responsabilidades” e quais as que foram desenvolvidas pelo Ministério da Saúde para apoiar a família do bebé. Os sociais-democratas querem também saber quando “será reforçado o serviço de obstetrícia do Hospital das Caldas da Rainha, para que não voltem a existir períodos sem assistência médica especializada”.

O PCP exigiu que o Governo atue com urgência para evitar novos constrangimentos no funcionamento de serviços hospitalares de ginecologia e obstetrícia e perguntou que medidas vão ser tomadas pelo Ministério da Saúde. Num vídeo divulgado pelo PCP, o deputado comunista João Dias defende que "é preciso que o Governo tome com urgência as medidas necessárias" para fazer face a "esta situação de incapacidade de assegurar as escalas dos serviços por falta de médicos".

Numa pergunta dirigida ao Ministério da Saúde, com a data desta segunda-feira, o PCP quer saber "que medidas vai o Governo tomar para que não se voltem a repetir situações como as deste fim de semana em que diversas unidades hospitalares da Administração Regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo (ARSLVT) e de outras regiões estiveram com os serviços de obstetrícia/ginecologia de portas fechadas".

O presidente da Iniciativa Liberal, João Cotrim Figueiredo, acusou o Governo de "irresponsabilidade e incompetência" na gestão dos serviços públicos e de não saber o que fazer para resolver a "total degradação do SNS". Segundo o deputado, o fim de parcerias público-privadas (PPP) na saúde "por cegueira ideológica" conduziu a pior qualidade dos serviços e o Governo deve recorrer aos privados para reduzir as listas de espera e aumentar o número de médicos de família.

O grupo parlamentar do Chega anunciou no sábado ter pedido ao presidente da Assembleia da República a marcação de um debate de urgência sobre a situação dos serviços de ginecologia e obstetrícia, que considerou ser de "caos instalado". "Estando em causa, pelo caos instalado, um serviço fundamental do Serviço Nacional de Saúde (SNS) para a prestação de cuidados urgentes e inadiáveis das grávidas e recém-nascidos deste país, consideramos fundamental a marcação de debate de urgência com a participação do Governo, tal como previsto regimentalmente", lê-se no documento.

Na sequência deste pedido, a ministra da Saúde Marta Temido deverá estar presente num debate na Assembleia da República na próxima sexta-feira.

6. Marcelo espera que o fecho de urgências não se prolongue e quer investimento no SNS

O Presidente da República afirmou este domingo que o encerramento de serviços de urgência em vários hospitais decorre de situações específicas associadas a problemas de substituição, afirmando acreditar que o problema não se prolongue durante o verão.

Questionado pelos jornalistas sobre o encerramento de serviços de urgência um pouco por todo o país, Marcelo Rebelo de Sousa referiu que “há aqui uma situação que já ocorreu em anos anteriores nesta ponte longa” e que tem origem nas baixas que vários profissionais de saúde colocaram como “compensação” pela fadiga provocada pela pandemia nos últimos dois anos.

À margem de um encontro com portugueses residentes em Andorra, a propósito das comemorações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, o Presidente da República apontou as “situações de acumulação e sacrifício do trabalho” como causa para o encerramento das urgências e afirmou acreditar que o problema não vai além desta altura.

“Espero que não porque aí haverá certamente uma possibilidade de programação e de preparação. Digamos que o que há é situações de acumulação de sacrifício do trabalho que, aliás, tenho encontrado em outros países. As enfermeiras portuguesas em Inglaterra falavam-me disso”, acrescentou.

Na perspetiva do Presidente da República, “as mini-ruturas” terão solução rápida, mas disse que é igualmente necessário investir no Serviço Nacional de Saúde (SNS) “como um todo”.

7. Primeiro-ministro garante que "o Governo está a trabalhar"

Em Londres para se encontrar com o primeiro-ministro britânico Boris Johnson, António Costa não comenta os muitos problemas que têm surgido nos últimos dias nos serviços de urgência do Serviço Nacional de Saúde: "Fora de Portugal não comento questões internas, por muito graves que sejam", disse aos jornalistas.

No entanto Costa que garantiu que, apesar de ele estar fora, "o Governo está a trabalhar, há várias reuniões a decorrer no Ministério da Saúde para resolver esses problemas".

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