Porque sofremos quando morrem pessoas que não conhecemos?

CNN , De Sarah Wayland e University of New England
28 set, 19:00
Uma mulher limpa as lágrimas depois de cumprir um minuto de silêncio e reflexão sobre a vida da Rainha Isabel II na zona de tributo floral em Green Park, perto do Palácio de Buckingham, a 18 de setembro, em Londres. (Imagem Getty)

NOTA DO EDITOR | As opiniões expressas neste comentário são apenas dos autores. A CNN está a publicar o trabalho de The Conversation, uma colaboração entre jornalistas e académicos para proporcionar análise e comentário jornalístico. O conteúdo é produzido em exclusivo por The Conversation

A morte da rainha Isabel II suscitou manifestações públicas de pesar em todo o mundo – desde ajuntamentos públicos no Palácio de Buckingham, em Londres, e condolências de líderes mundiais, a indivíduos que expressam nas redes sociais o que ela significava para eles.

Claro que a grande maioria das pessoas que sofre ou sente a morte da rainha nunca a terá conhecido pessoalmente.

Será então esta expressão de luto por alguém que não conhecemos diferente de chorar por alguém de quem éramos próximos?

Há algumas semelhanças e algumas diferenças. Existe também uma divisão na forma como a rainha é lembrada, o que pode potencialmente complicar o processo de luto.

Em que é que esta dor é semelhante?

Fazer o luto por alguém tem a ver com refletirmos sobre a nossa ligação de uma vida e a afeição que sentíamos por alguém que já não existe fisicamente.

Mesmo que a rainha não tenha feito parte da nossa família imediata, muitos de nós "crescemos" com ela.

Um membro do público segura um retrato da falecida rainha Isabel II, ao deixar um tributo no Green Park, em Londres, a 18 de setembro

Durante o seu reinado de 70 anos, ela fez parte das nossas vidas – parte da vida dos nossos avós, da vida dos nossos pais e agora da nossa. Pense nisso como ligações intergeracionais. Nós, coletivamente e através das gerações, sentimos como se a conhecêssemos.

Globalmente, também temos andado a preparar-nos para perdê-la. A idade avançada, os problemas de saúde e planos para o que acontece depois da morte da monarca têm sido alvo de muita cobertura mediática.

Portanto, esta "familiaridade" significa que o tipo de dor que estamos a ver agora pode ser muito semelhante a ter alguém nas nossas vidas, e depois perdê-la.

Em que é que esta dor é diferente?

Mas o luto por uma figura pública que não conhecemos, como a rainha, pode ser bem diferente.

Falta-nos a ligação próxima com aquele indivíduo. Muitos não têm histórias pessoais, ou experiências partilhadas. Não temos essas memórias entrelaçadas nas quais refletir. Como essa pessoa está fora de alcance, é difícil criar uma imagem de quem essa pessoa realmente era e o que significa para nós.

Em vez de refletirmos sobre uma relação individual com um ente querido, após a morte de uma figura pública, contamos com experiências comunitárias para uma espécie de luto coletivo que determina a forma como partilhamos a nossa dor online.

Um luto contestado

Como a maioria de nós não conhecia pessoalmente a rainha, a nossa perceção dela – os seus atributos, a sua personalidade – não se baseia em factos.

Por exemplo, a forma como uma pessoa se lembra dela pode ser afetada pela sua idade, pelas suas opiniões políticas, ou se as suas vidas foram moldadas pelo colonialismo.

Qual é o papel dos meios de comunicação social?

Os meios de comunicação desempenham um papel fundamental na forma como fazemos o luto.

Atualizações em tempo real e cobertura constante, como vimos em torno da morte da rainha, significa que temos estado a preparar-nos para a notícia da sua morte. Depois, chegaram as notícias.

Mas este lugar na primeira fila no desenrolar dos eventos e a manifestação de tristeza pública que se seguiu pode ser, para alguns, um "gatilho".

Para as pessoas que perderam um ente querido – recentemente ou mesmo há anos – esta cobertura mediática pode desencadear memórias do que aconteceu quando o seu familiar ou amigo morreu.

As restrições da covid podem ter-lhes roubado a oportunidade de prestar cuidados em fim de vida ou de assistir a um funeral.

Então este ciclo noticioso de 24 horas, e ser atualizado em cada passo da doença da rainha e agora da morte, pode reavivar as nossas próprias experiências de perda. Temos de ser cautelosos com essas reações variadas.

Por isso, há uma batalha a ser travada nas redes sociais pela forma como é recordada – no Reino Unido, na Commonwealth e em boa parte do mundo. Essa batalha também pode complicar o luto quando as pessoas partilham diferentes reações à sua morte.

Levanta questões sobre se podemos sofrer, ou sobre quem pode expressar a sua dor, ou mesmo se discordamos se o luto é apropriado.

Temos de dar espaço a todas estas reações diferentes à sua perda.

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