Dmytro perdeu a mulher e os filhos num ataque russo enquanto estava preso. Agora, como muitos prisioneiros, vai defender as famílias de outros ucranianos

CNN , Daria Tarasova-Markina
17 jun, 08:00

O comandante do batalhão, Dmytro Kukharchuk, fala baixo mas com firmeza. Com as mãos tatuadas atrás das costas, conta aos homens - todos condenados - a sua experiência de luta pela Ucrânia em Bakhmut e Avdiivka.

Kukharchuk, de 34 anos, está numa prisão no centro da Ucrânia, onde tenta recrutar prisioneiros fisicamente fortes, saudáveis e motivados para a sua unidade, a 3ª Brigada de Assalto Separada.

Mais de dois anos após a invasão russa em grande escala, a Ucrânia está a lutar para repor as suas fileiras militares esgotadas. Para resolver este problema, o governo introduziu no mês passado uma nova lei que permite o recrutamento de condenados. Esta lei permite que os indivíduos que satisfaçam determinadas condições sejam libertados condicionalmente se assinarem um contrato de serviço militar.

Kukharchuk não promete muito aos prisioneiros: "Não vai ser fácil. Mas quando vêm ter connosco, vêm ter com uma família", diz aos homens, explicando que a brigada não terá unidades "penais" especiais. Em vez disso, garante, os prisioneiros recrutados serão integrados nos batalhões existentes.

Alguns dos homens ouvem com atenção, outros sorriem.

Mas mesmo aqueles que sorriem começam a prestar atenção quando o colega de Kukharchuk começa a falar. O homem, que pediu à CNN para o identificar apenas pelo seu nome de código "Dato" por questões de privacidade, é um deles.

Passou grande parte da sua vida atrás das grades. Condenado por vários crimes, fugiu da prisão três vezes e saiu em liberdade condicional em fevereiro de 2022, depois de cumprir 31 anos. Alistou-se no exército ucraniano poucas horas depois de a Rússia ter lançado a sua invasão total da Ucrânia, em 24 de fevereiro de 2022.

Membros da 3.ª Brigada de Assalto Separada procuram recrutar condenados numa prisão no centro da Ucrânia. Daria Tarasova-Markina/CNN

Dato, 58 anos, impõe respeito ao seu público. A voz atravessa o pátio e, quando faz uma pausa, o silêncio é pesado. Dezenas de prisioneiros ficam à espera de cada palavra sua. Alguns estão de pé no pátio, outros debruçam-se nas janelas das suas celas. O discurso é salpicado de calão prisional. Fala de honra, dever e reputação. "Esta é a vossa oportunidade de se reabilitarem aos olhos dos vossos filhos", diz-lhes.

Recrutadores de várias brigadas já visitaram esta prisão de 700 homens, e cerca de 100 reclusos já assinaram contratos com diferentes unidades.

A nova lei não permite o recrutamento de pessoas condenadas por crimes contra os fundamentos da segurança nacional da Ucrânia, ou por crimes de corrupção particularmente graves. As pessoas que cometeram as infrações mais violentas também estão excluídas. As pessoas condenadas por dois ou mais assassínios premeditados, por crimes cometidos com crueldade ou por assassínios combinados com violação ou violência sexual estão impedidas de se alistar.

O prisioneiro Ivan, 33 anos, alistou-se no exército porque a sua filha de 17 anos e os seus pais vivem em Mykolaiv, no sul da Ucrânia. Daria Tarasova-Markina/CNN via CNN Newsource

Resta saber como é que a lei vai funcionar exatamente na prática. Após a sua aprovação, o Ministério da Justiça da Ucrânia afirmou que os reclusos, que se devem alistar de livre vontade, serviriam em unidades separadas. Mas Kukharchuk e Dato, que representam a 3ª Brigada de Assalto Separada, gostariam que os recrutas das prisões servissem com a infantaria regular.

Kukharchuk explica à CNN que os soldados da sua brigada não têm problemas em lutar ao lado de condenados. "Como é que se pode ter uma atitude especial em relação a pessoas que vêm ter connosco, que se sentam na mesma trincheira que nós, que participam em operações de assalto connosco e que nos apoiam?"

Mas outros comandantes, embora apoiem o recrutamento de prisioneiros, não estão tão seguros quanto à integração. "Os prisioneiros devem combater em unidades separadas. E precisam de pessoas muito boas para as liderar", admite à CNN um comandante, que dá pelo nome de código "Teren" e que está a combater em Avdiivka. O comandante de reconhecimento de artilharia da 110ª Brigada Mecanizada pediu que o seu nome verdadeiro não fosse utilizado por razões de segurança.

"Não sou de todo contra a luta dos prisioneiros. Surpreende-me que não tenhamos utilizado esta ideia no início da guerra. Há sempre muitas baixas na infantaria e se os reclusos quiserem [arriscar a vida] ir combater na infantaria, é uma boa decisão", acrescenta.

O esforço para recrutar reclusos para as forças armadas parece, à primeira vista, ser paralelo a uma campanha de recrutamento nas prisões levada a cabo pela empresa mercenária russa Wagner no início da guerra e prosseguida pelo Ministério da Defesa desde o ano passado. As vidas de milhares de reclusos russos foram gastas nos chamados ataques "moedor de carne", particularmente na luta pela cidade de Bakhmut, no leste da Ucrânia.

Mas o Ministro da Justiça da Ucrânia, Denys Maliuska, em declarações à CNN em Kiev, rejeitou a comparação.

"Na Ucrânia, a motivação baseia-se em grande medida no patriotismo. Os nossos prisioneiros alistam-se voluntariamente no exército. Na Rússia, é voluntário e forçado. Vi pessoalmente prisioneiros [russos] que foram forçados a juntar-se à Wagner", reforça, acrescentando que, na Rússia, os reclusos foram recrutados para uma empresa militar privada notoriamente brutal, enquanto na Ucrânia estão a juntar-se às Forças Armadas da Ucrânia.

"Trata-se de um serviço militar estatal regular com todas as garantias: salário, segurança social, pagamentos em caso de ferimento, morte, etc. Esta é uma história completamente diferente em termos de motivos e mecanismos", vinca Maliuska.

Livrar-se do rótulo de ex-presidiário

De acordo com a lei, os recrutas condenados terão direito à mesma licença familiar que os outros soldados e terão direito ao mesmo salário, mas não receberão as férias anuais que são normais para os outros soldados.

De acordo com o Ministério da Justiça, 26 mil pessoas estão atualmente na prisão na Ucrânia. Desde que a lei entrou em vigor, cinco mil reclusos do sexo masculino candidataram-se ao serviço militar, segundo o ministério. Cerca de dois mil já passaram no exame médico e foram libertados da prisão para as forças armadas pelos tribunais. De acordo com Maliuska, a primeira tranche de recrutas prisioneiros já se encontra em formação básica.

O ministro confessa que esperava que mais condenados se inscrevessem. Muitos estão à espera de ver o que acontece com a primeira ronda de recrutas, admite, mas a reação inicial tem sido positiva.

Maliuska acredita que muitos reclusos veem o programa como uma oportunidade de se livrarem do rótulo de "ex-recluso" que tende a ficar colado às pessoas mesmo depois da sua libertação.

"Há, sem dúvida, riscos. Mas a moral e o estado de espírito daqueles que são libertados da prisão são muito superiores aos daqueles que foram mobilizados algures na rua", explica à CNN.

"Uma pessoa mobilizada à força que não queria ir para o exército vê isso como uma tragédia e uma deterioração das suas condições de vida. E é de esperar uma deserção desta categoria [de soldados] muito mais do que de uma pessoa para quem se trata de uma subida na escala social, rendimento, estilo de vida e respeito. Para os prisioneiros, é uma subida na escala social", sublinha.

O ministro diz à CNN que o governo sabe que os prisioneiros podem representar desafios para os comandantes no terreno, mas a lei pode ser ajustada conforme necessário, dependendo de como as coisas se apresentarem na prática. Muito dependerá dos comandantes das unidades e da sua capacidade de estabelecer a disciplina nas unidades de prisioneiros.

Dmytro, 28 anos, um recruta condenado cuja mulher e dois filhos foram mortos por um ataque russo na cidade de Izium, no leste, em abril de 2022, alistou-se no exército assim que teve oportunidade. Daria Tarasova-Markina/CNN

Proteger outras famílias

Num campo de treino no centro da Ucrânia, um grupo de prisioneiros está já na segunda semana de treino básico. Entre eles está Dmytro, de 28 anos, cuja mulher e dois filhos pequenos foram mortos por um ataque russo na cidade de Izium, no leste do país, poucas semanas após a invasão total da Ucrânia, enquanto ele cumpria uma pena de quatro anos e meio na prisão. Por razões de segurança, pediu à CNN para não publicar o seu apelido.

À CNN revela que sabia que queria combater desde o início da guerra. Quando os recrutadores visitaram a sua prisão, foi um dos primeiros a alistar-se.

"Eu tinha mulher e filhos, e sabia que alguém tinha de os proteger. Mas como não pude, agora vou proteger outras famílias que querem viver e ter filhos", justifica à CNN.

Dmytro diz à CNN que cresceu como órfão e começou a roubar quando era jovem. Agora acredita que a prisão ensina as pessoas a sobreviver num ambiente difícil, o que significa que os antigos prisioneiros podem ser capazes de lidar melhor com as pressões das linhas da frente do que os civis comuns.

Quando sua família foi morta, o primeiro sentimento que o assaltou foi vingança. Não consegue suportar falar sobre aqueles que perdeu agora, mas sonha com o dia em que poderá começar de novo e ter filhos que se orgulhem dele.

"Falta-me um ano e cinco meses de pena. Isso não é muito. Podia ficar na prisão e não ir para a guerra. Mas estou motivado. Não quero que outras pessoas passem por isto", diz, referindo-se à perda da sua família.

De volta à prisão, Kukharchuk e Dato selecionam cuidadosamente os seus recrutas. Sentados à sua frente numa sala de entrevistas, perguntam a cada um dos voluntários sobre o seu passado e a sua motivação. A brigada não aceita pessoas com mais de 50 anos, com problemas de saúde graves ou fisicamente inaptas. Os órfãos, por outro lado, são imediatamente favorecidos.

Kukharchuk revela à CNN que os órfãos que tiveram uma infância difícil e estão habituados a sobreviver e a lidar com as dificuldades tendem a sair-se bem no exército. Depois de cada entrevista, os prisioneiros apertam as mãos dos recrutadores. Os selecionados preenchem a papelada e aguardam novas instruções.

Dos 17 reclusos que quiseram alistar-se no dia em que a CNN visitou a prisão, a 3ª Brigada de Assalto Separada recrutou 12. Kukharchuk confessa que é "um número muito bom".  A brigada é uma das unidades mais procuradas e, normalmente, rejeita mais de metade dos reclusos que pretendem juntar-se.

Há exceções às regras. Um dos prisioneiros tem uma visão deficiente e Dato e Kukharchuk hesitaram inicialmente em recrutá-lo. Depois de uma breve conversa, o homem foi aceite.

"A visão pode ser corrigida. A motivação é mais importante do que a visão", diz Dato.

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