Morto por uma fraude: um pai suicidou-se após ter perdido as suas poupanças para gangues criminosos internacionais. Não foi o único

CNN , Teele Rebane and Ivan Watson
23 jun, 19:00
Dennis cometeu suicídio após ter sido vítima de um esquema fraudulento conhecido como abate de porcos (CNN)

Nota do editor: se você ou alguém que conhece estiver a lutar com pensamentos suicidas ou questões de saúde mental, por favor ligue para a linha de crise Voz Amiga 213 544 545 | 963 524 660, para a linha SNS24 808 24 24 24 ou para o 112, ou consulte o site prevenirsuicidio.pt. Encontrará mais contactos e apoios no final deste texto.
 

Sentado à mesa da cozinha, Matt esforça-se para recordar os acontecimentos dos últimos meses. “Assim que descobri que foi suicídio, tive 100% de certeza de que era uma fraude”, diz.

“Desde o dia em que nasci e até há seis meses, o nosso pai foi sempre uma pessoa positiva e feliz. Esta foi literalmente a única coisa que aconteceu na vida dele, que o mudou e que simplesmente o esmagou.”

Numa fazenda de cavalos no norte da Virgínia, cercada por vastos campos e estábulos, a família reúne-se na casa de sua irmã mais nova, Adrianne – algo que têm feito muito nos três meses desde que o seu pai se suicidou após ser vítima de uma fraude conhecida como “abate de porcos”.

Matt e Adrianne perderam o pai Dennis em março, após ter sido vítima de um esquema fraudulento de investimento em criptomoedas (CNN/Chris Turner and Amanda Swinhart)

As fraudes – geridas sobretudo a partir do Sudeste Asiática – têm este nome porque envolvem “engordar” as vítimas antes de lhes tirarem tudo o que têm. Os vigaristas por trás delas assumem identidades falsas online e passam meses a preparar financeiramente as suas vítimas para que invistam em sites de criptomedas fraudulentos.

Dennis Jones, ávido corredor e fotógrafo, era adorado pelos seus filhos e netos. Descrito como “uma espécie de ativista” pela sua família, o homem de 82 anos passava grande parte da sua reforma a trabalhar com refugiados e a debater política online. Mas nos últimos meses da sua vida, afastou-se da família e, divorciado há vários anos, travou amizade no Facebook com uma mulher chamada Jessie.

Os dois falaram durante meses online e desenvolveram uma relação próxima. Eventualmente, Jessie convenceu Dennis a investir em cripto.

Dennis acedeu. Sem nunca ter conhecido Jessie pessoalmente, gastou tudo o que tinha e, quando já não sobrava nada, ela exigiu mais. Até que um dia o dinheiro desapareceu, deixando-o arruinado.

No início de março, os filhos de Dennis marcaram uma reunião para ajudarem o pai a recompor-se depois da fraude. O plano era que ele se mudasse para a casa de Adrianne e da sua família. “Queríamos que ele soubesse que íamos tomar conta dele”, diz Matt.

Mas na manhã do encontro nenhum deles conseguiu contactar Dennis. Matt conduziu até ao apartamento de Dennis, mas ele não estava em casa e as chamadas iam diretamente para o voicemail. Acharam que ele devia ter ido fazer uma das suas longas corridas. Uma hora depois, a polícia bateu à porta de Matt para o informar de que Dennis tinha cometido suicídio.

Dennis foi uma das inúmeras vítimas de uma operação criminosa global e massiva gerida predominantemente por gangues chineses que montaram uma indústria de fraudes multimilionário no Sudeste Asiático. Ali, reuniram um exército de golpistas, muitos detidos contra a sua vontade em complexos protegidos com grades e forçados a enganar pessoas de todo o mundo para lhes roubarem as poupanças de uma vida.

É roubo a uma escala tão grande que os investigadores falam agora numa transferência em massa de riqueza de americanos de classe média para gangues criminosos. No ano passado, calcula o FBI, os esquemas de abate de porcos roubaram quase 4 mil milhões de dólares (3,73 mil milhões de euros) a dezenas de milhares de vítimas americanas, um aumento de 53% em relação ao ano anterior.

Apesar de os crimes terem lugar online, as consequências no mundo real são devastadoras. Fontes das forças de segurança preveem que as perdas deverão continuar a aumentar no próximo ano, e à medida que os criminosos continuam fora do seu alcance, dinheiro e vidas continuarão a ser perdidos.

‘Vítimas a vitimizar vítimas’

A procuradora do condado de Santa Clara Erin West dedicou-se nos últimos anos a lutar contra as fraudes de abate de porcos. “Sou procuradora há mais de 25 anos, já lidei com todos os tipos de crimes. Passei nove anos a lidar com agressões sexuais. E nunca tinha visto a absoluta dizimação de pessoas como a que vi em resultado do abate de porcos”, diz.

Por trabalhar no coração da indústria tecnologia na Bay Area da California, Erin e a sua equipa foram alguns dos primeiros a investigar as fraudes de abate de porcos. “Temos vítimas a vitimizar vítimas e os únicos vencedores são os gangsters chineses”, indica.”

Shawn Bradstreet, agente especial dos EUA a cargo do gabinete territorial de São Francisco, diz à CNN que algum do dinheiro roubado a vítimas americanas é gasto em operações fraudulentas e nos complexos massivos que albergam esses esquemas e outras atividades ilícitas.

Erin West, procuradora do condado de Santa Clara, integra um pequeno grupo de agentes de segurança dos EUA que estão a trabalhar para encontrar formas de combater as fraudes de abate de porcos (Jim Castel/CNN)

West e Bradstreet integram um pequeno grupo de agências de segurança dos EUA que estão a trabalhar para encontrar formas de combater um crime que ocorre sobretudo online e no estrangeiro.

As redes sociais estão inundadas de golpistas à caça de vítimas, no WhatsApp, Facebook, LinkedIn e, cada vez mais, em apps de encontros como o Bumble e o Tinder.

“A triste realidade é que os golpistas podem manipular aqueles que estão em busca de amor ou de conexão – em apps de encontros e em plataformas online”, diz um porta-voz do grupo Match, detentor do Tinder, num comunicado.

Match, Bumble, Facebook e a Meta, que detém o WhatsApp, dizem à CNN que estão a trabalhar para impedir que golpistas usem as suas plataformas, sinalizando linguagem suspeita e educando os seus utilizadores. Num comunicado enviado à CNN, um porta-voz do Bumble diz que estão a recorrer a Inteligência Artificial para identificar spam, fraudes e perfis falsos “para agir antes de esses perfis terem a oportunidade de interagir com os utilizadores”. A CNN pediu comentários ao LinkedIn.

Em maio, um grupo de empresas tecnológicas, incluindo a plataforma de troca de criptomoedas Coinbase, a Meta, o grupo do Match e a organização sem fins lucrativos de combate a fraudes GASO anunciaram a “Coligação Contra Fraudes Tecnológicas”, reconhecendo que estes esquemas “são um problema generalizado em todo o panorama tecnológico”.

Mas West diz que isto não é suficiente. Recentemente, criou uma task force chamada Operação Shamrock para reunir agentes de segurança, redes sociais, trocas de criptos e bancos tradicionais para combater as criptofraudes.

Uma investigação da CNN em 2023 revelou que muitos dos golpistas são, eles mesmos, vítimas de tráfico humano. Atraídos para o Sudeste Asiático com promessas de empregos administrativos, em vez disso são traficados para o Myanmar, Camboja, Laos e outros destinos. Desde o golpe militar de 2021, o Myanmar tornou-se a capital das fraudes, onde os criminosos operam livremente ocultados por uma sangrenta guerra civil.

Hoje, complexos do tamanho de cidades pairam sobre o lado de Myanmar na fronteira com a Tailândia, com nada além de um rio seco a separar os dois países. Lá dentro estão o que só pode ser descrito como fábricas de fraudes – escritórios cheios de centenas de escravos, que trabalham 16 horas por dia para fazer amizade com as vítimas e convencê-las a investir em criptomoedas em plataformas falsas que imitam trocas criptográficas legítimas.

Aqueles que são mantidos lá dentro contam histórias de tortura e abuso, de golpistas que não arrecadam dinheiro suficiente e que são espancados com bastões elétricos e forçados a fazer centenas de agachamentos como punição.

Rakesh, um cidadão indiano, foi traficado para um complexo chamado Gate 25 em Myanmar depois de se candidatar a um emprego em Tecnologias de Informação na Tailândia no final de 2022. Lá, assinou um contrato fraudulento sob ameaça de execução e foi treinado para defraudar.

Durante 11 meses fez-se passar por “Klara Semonov”, uma investidora russa sediada em Salt Lake City. Para evitar os castigos horríveis que são infligidos pelos seus captores, diz que enviou mensagens românticas a vítimas como Dennis para as convencer a investir o seu dinheiro. “Setenta a 80% apaixonam-se por um falso amor”, adianta.

Rakesh acabou por ser libertado em 2023 quando o seu contrato acabou. Acredita que o deixaram partir porque simplesmente não era bom o suficiente a defraudar pessoas. “Eles tratavam-nos como escravos”, disse à CNN dias depois de ter sido libertado no ano passado.

Localizados de forma conveniente na fronteira, os complexos usam serviços de telecomunicações do lado tailandês. Em novembro de 2023, o ministro tailandês da Justiça, Tower Sodsong, disse que estavam a trabalhar para acabar com os complexos.

Pachorra Naripthaphan, da Comissão Nacional Tailandesa de Transmissões, disse à CNN em maio que o organismo instruiu todos os operadores de telecomunicações a encerrarem os serviços wireless perto de quaisquer áreas fronteiriças com o Myanmar, o Laos e o Camboja. Apesar disso, os dados da comissão mostram que a atividade ilícita continuou a um nível básico, com os criminosos a adaptarem-se e a recorrerem a outros meios para se ligarem à internet, como o Starlink.

Mesmo aqui na fronteira, onde a distância física está marcada apenas por um estreito rio, os criminosos continuam fora do alcance das forças de segurança, quer ao nível local, quer ao nível internacional.

“Muitos destes perpetradores estão fora do meu alcance. E para conseguirmos dissuadi-los, é preciso acusar e julgar alguns dos indivíduos que estão a gerir estas operações no Sudeste Asiático”, diz o procurador do distrito de Santa Clara, Jeff Rosen.

De acordo com dados do FBI, dos quase 5 mil milhões de dólares (4,66 mil milhões de euros) perdidos em fraudes com criptomoedas em 2023, 3,96 mil milhões (3,69 mil milhões de euros) foram roubados em esquemas de abate de porcos. Apesar de o gabinete de Rosen e de os serviços secretos terem conseguido recuperar milhões de dólares em fundos roubados, nenhuma agência de segurança americana foi ainda capaz de deter um único suspeito dos golpes.

‘Difícil de acreditar’

Carina, que pediu à CNN para usar apenas o seu primeiro nome, conheceu “Evan” no Bumble em maio de 2023. As fotos dele mostravam um homem louro com olhos azuis penetrantes. Ele dizia ser neerlandês e mostrava a sua riqueza – carros caros e relógios Rolex, apesar de nada disso atrair Carina, uma doutoranda em Química e triatleta.

A sua relação evoluiu rapidamente. Logo à partida, ele sugeriu que falassem antes no WhatsApp e que apagassem a app Bumble para se focarem um no outro e se conhecerem melhor. Uns dias depois, começou a chamar-lhe “querida”.

“Já estamos nessa fase?”, perguntou Carina, numa conversa por mensagens que a CNN leu.

Carina conheceu o seu golpista "Evan Van" na app de encontros Bumble (Jim Castel/CNN)

Evan alegava que tinha ganho o seu dinheiro através de uma empresa que geria com o tio e investindo-o em cripto. Disse-lhe que ela podia liquidar os seus empréstimos estudantis numa questão de meses se investisse. Ao início, Carina hesitou mas eventualmente concordou em investir 1.000 dólares (cerca de 931 euros).

Ele disse-lhe que não usasse a app oficial da plataforma de criptos Kraken, e que em vez disso lhe enviaria um link para um website paralelo que usariam para rastrear as trocas nos meses seguintes.

À medida que os seus investimentos cresceram, também a sua relação evoluiu. Os dois fizeram planos para o futuro, de escapadinhas românticas de fim de semana e apresentações mútuas às famílias, apesar de continuarem sem se conhecer pessoalmente. “Nunca conheci ninguém como tu”, disse-lhe Carine passadas poucas semanas. “É difícil acreditar que estou a apaixonar-me por um homem que eu nunca vi e com quem nunca falei ao vivo.”

O primeiro sinal de alerta surgiu quando Evan pressionou Carina a aderir a um “evento” em que ela teria de investir 150 mil dólares (cerca de 140 mil euros) até ao final de julho para fazer lucros extra. Se ela não cumprisse esse objetivo, a sua conta e o seu dinheiro seriam congelados.

Assustada com a possibilidade de perder o dinheiro que já tinha investido, Carina entrou em pânico. Contraiu um empréstimo com juros elevados e pediu dinheiro emprestado a amigos e à família para cumprir o prazo.

Apesar de toda a sua aparente riqueza, Evan recusou-se a ajudá-la, e em vez disso mentiu-lhe e disse-lhe que estava com dificuldades em cumprir o seu objetivo de 500 mil dólares, pelo que precisava da sua ajuda, diz Carina. A dada altura, deu por si a consolar o próprio golpista, dizendo-lhe que o dinheiro dele não importava desde que o amor entre ambos se mantivesse vivo.

‘Enorme golpe psicológico’

Após Dennis se ter matado, os seus filhos adultos ficaram a tentar juntar as peças do que aconteceu escrutinando as suas mensagens de Facebook. Foi aí que perceberam pela primeira vez aquilo com que Dennis tinha estado a lidar.

“Tenho tido pensamentos sombrios sobre a minha vida e sobre acabar com ela. Parece certo que a minha financeira acabou”, escreveu Dennis ao seu golpista meses antes da sua morte. “A derradeira dor aqui é que traí a confiança da minha família. Isto é insuportável”, escreveu, de acordo com capturas de ecrã das conversas que a CNN leu.

“O que é mais doloroso é ler estas mensagens”, diz Adrianne. “Ele estava a falar de lidar com sinais de um esgotamento nervoso. E então isso foi tudo compartilhado com o perfil.”

“Em vez de o partilhar connosco”, acrescenta Matt.

“O que é mais incrível aqui é que estes golpistas no estrangeiro encontraram uma forma de fazer com que as vítimas confiem neles em vez de confiarem nas suas famílias”, diz West. “É uma grande manobra psicológica que estão a aplicar ao resto do mundo.”

Carina não disse à sua família sobre o que lhe aconteceu nem sobre o stress a que esteve sujeita até ao último momento. Após cumprir todos os objetivos do evento, Carina tentou retirar algum do seu dinheiro, mas não conseguiu, por ter violado as regras da plataforma ao investir na mesma conta que Evan. Após meses a escondê-lo, Carina contou tudo à sua família, que lhe sugeriu que falasse diretamente com a Kraken.

Na manhã seguinte, ligou para os serviços de apoio ao cliente da Kraken, que a informaram de que não existia nenhuma conta com o seu nome.

“Foi aí que me apercebi que tinha sido defraudada. E fui-me abaixo”, conta Carina. “Era tudo falso. Era um perfil falso. Era uma história falsa. A quantidade de tempo que ele passou a preparar-me e a conhecer-me foi incessante.”

Um ano depois, ao reler todas as conversas, Carina mal se reconhece. “Na verdade é devastador para mim ver o estado em que me encontrava”, diz.

O emaranhado emocional e financeiro teve o seu preço, e ela ficou a sofrer com o fim da relação e com a falência ao mesmo tempo.

No rescaldo, Carina teve de ir viver novamente com a sua mãe. Levará pelo menos uma década até conseguir saldar todas as dívidas.

‘Brincar com as emoções’

Com a dor ainda latejar, Adrianne e Matt só agora estão a começar a entender o que aconteceu com o seu pai.

“Ele não estava a enfrentar uma só pessoa. É uma organização criminosa multibilionária com um manual que brinca com as emoções… Foi quase como se, até certo ponto, ele tivesse sofrido uma lavagem cerebral”, diz Adrianne, filha de Dennis.

À medida que as táticas dos criminosos continuam a evoluir e as autoridades se esforçam para encontrar uma maneira de os travar, haverá mais vítimas em 2024 e mais pessoas como Matt e Adrianne, que sofrerão perdas muito maiores do que dinheiro.

“Ele morreu envergonhado, envergonhado, devastado financeiramente, com o coração partido”, diz Adrianne. “E se partilhar a nossa história ajudar outra pessoa ou outra família, então terá valido a pena.”

 

Contactos, informações e apoios em Portugal

Para informações, ajudas, contactos consulte o site da Campanha Nacional de Prevenção do Suicídio em prevenirsuicidio.pt.

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