Cara França, agora achamos que Portugal te pode vencer e estamos preocupados com isso

25 jun, 20:21
Mbappé

FRANÇA 1-1 POLÓNIA || A maior candidata ao triunfo no Euro é também a maior desilusão entre os mais fortes. E é por isso que França pode cruzar-se com Portugal nos quartos de final - e não era suposto ser assim

França é o melhor e o pior do jogo

França consegue criar num mesmo jogo a ilusão de que é acessível e imbatível, foi assim contra a Áustria - que é forte - e depois contra os Países Baixos - são assim-assim -, e França voltou a ser ambivalente diante da Polónia, seleção que em condições normais devia ter levado três ou quatro dos Países Baixos (ficou 1-2) e quatro ou cinco da Áustria (1-3) mas que sobreviveu sempre acima das suas capacidades porque a Polónia tem algo muito admirável que se sobrepõe ao seu futebol muito desinteressante: à falta de talento os polacos contrapõem com empenho e isso faz deles melhores do que realmente são - não os faz vencer mas fá-los jogar com a dignidade toda, isso conta no futebol e na vida.

Os polacos saem do jogo a correr mais seis quilómetros que os franceses, não há muitos jogos neste Euro com um desequilíbrio tão expressivo entre o que uns correram a mais que outros - um desses jogos foi o Portugal-Chéquia, os checos também correram quase mais 6 km e só não ficou também 1-1 devido ao foguetão Conceição, mas nem Portugal pareceu imbatível nesse jogo como a França chegou a parecer neste com os polacos, nem os checos tiveram momentos como aquele iniciado neste jogo por Moder: o minuto 32 leva 52 segundos, o médio polaco recupera uma bola no meio-campo ofensivo, fá-la circular para Zielinski, há sete trocas de bola que incluem uma tabela entre Urbanski e o próprio Zielinski e subitamente a bola chega à área, Lewandowski cabeceia bem, Maignan defende e só não foi canto porque o árbitro não honrou com uma decisão acertada aqueles 21 segundos de posse polaca - a Chéquia nunca conseguiu estruturar desta maneira o seu jogo contra Portugal porque Portugal não deixou mas a Polónia conseguiu porque França quis - nem foi porque França deixou, França quis, há um momento nesta jogada polaca em que Zielinski tem a bola e está praticamente a passear com ela em câmara lenta, sem qualquer pressão francesa, ninguém vai para cima dele, não há um apertão nem um encosto, ninguém faz um tackle nem uma carga de ombro, a França teve vários apagões destes durante o jogo e acaba com 57% de posse enquanto Portugal teve 69% num jogo muito semelhante diante da Chéquia.

Mas depois há aquela França alucinante que joga à velocidade do caracol e à velocidade da luz na mesmo jogada, que em vez de ir de frente contra o muro, neste caso o muro polaco, vai à volta ou por cima do muro, por vezes até põe o muro a abrir-se a si próprio porque o muro pensa que nesse momento vai cair em cima de quem o ataca quando quem o ataca só está a a iludir a perceção de quem forma o muro. A criatividade francesa é uma bênção ofensiva que parece impossível de suster durante os 90 minutos, por exemplo: o tempo do jogo contra a Polónia está nos 40:39 minutos, França há de ter 31 segundos de posse nessa jogada, são 10 ou 11 passes porque Mbappé aparece no último movimento a rematar e a tirar a vez a um companheiro que se preparava para o fazer, mas a essência dessa jogada, além da duração e beleza dela, é que os primeiros seis ou sete passes são a ritmo desacelerado mas depois intervém Mbappé e o muro explode, a jogada deixa de parecer inofensiva para passar a ser vertiginosa; entre os 43:06 e os 43:40 minutos é quase igual, há oito passes, o primeiro começa no guarda-redes francês, são 34 segundos de posse de bola em que o penúltimo movimento é de Mbappé com um passe a rasgar o muro, entretanto um defesa polaco evita o pior; logo a seguir repete-se a ofensiva, acontece entre os 44:00 e os 44:24, 11  passes, 24 segundos de posse, acaba com remate de Mbappé para defesa difícil de Skorupski (eleito o melhor em campo) e o início da segunda parte foi igual, sufocante, França fez o 1-0 de penálti, Mbappé e Dembélé pareciam anjos naquele relvado de mortais, e depois França começou a desaparecer e Mbappé e Dembélé começaram a parecer-se com os humanos. E a humanos dá para vencer, a anjos nem tanto.

A frase de grupos fechou, em três jogos França é isto: uma vitória com um autogolo, um empate sem golos e outro empate mas com um golo de penálti. Portanto: França não marca em futebol corrido - sendo capaz, quando quer, de ter o futebol corrido mais excitante que há neste Euro. Mais: França tem cinco pontos, o que a deixa atrás de Áustria mas à frente de Países Baixos, segue para os oitavos como segunda classificada e leva com Portugal nos quartos se ambas cumprirem o seu dever no primeiro jogo a eliminar; França tem na Tartaruga Mbappé Ninja um craque que nos diverte como Michelangelo, que tem a inteligência de Donatello, que tem a explosão de Raphael mas que não joga com a disciplina de Leonardo; França continua a ser a mais forte candidata mas tornou-se a mais forte desilusão entre os mais fortes deste Euro - e isto faz de França bastante perigosa porque uma potência frustrada tem tendência para causar muito estrago quando está sob pressão. Mas também tem tendência para cometer mais erros.

Esclarecido tudo isto: achamos que Portugal pode vencer França mas estamos preocupados com isso - porque a França que vem aí não pode ser igual à França que chegou até aqui e é mais difícil preparar a guerra contra um adversário que se tornou mais instável e que por isso é mais imprevisível.

Os vídeos dos golos

1-0 (é o primeiro golo de Mbappé neste Euro mas também em qualquer Euro)


1-1

Cinco pontos: a surpresa do jogo

Não era suposto França ser segunda deste grupo: os Países Baixos estão no lugar devido, são a terceira melhor equipa do grupo e é nesse lugar que ficam; a Áustria é a segunda melhor do grupo mas jogou como a melhor e por isso merece passar em primeiro; França jogou pouco mas é tão forte que dá para ser segunda à vontade com cinco pontos - ainda assim mete-se no caminho de Portugal nos quarto quando era só suposto cruzarem-se (a cruzarem-se) na final.

Tiraram Kanté: o momento do jogo

Foi considerado o melhor em campo nos dois primeiros jogo de França e neste saiu aos 61 minutos, já Mbappé havia feito o 1-0: se Deschamps estava a gerir, geriu mal - Kanté corre, pressiona, corta, distribui, faz mais falta que todos (às vezes até que o próprio Mbappé); se Deschamps foi forçado a gerir devido a um eventual desgaste físico de Kanté, então França tem de trabalhar mais o seu jogo sem Kanté porque é um jogo pior.

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