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Colunista e comentador

Eu estava no sótão da FPF quando comecei a ver luz na Seleção. Uma história que vai dos -3 aos 39 de Ronaldo

14 jun, 13:44
LISBOA, PORTUGAL - 13 DE NOVEMBRO de 1983: O capitão e guarda-redes português Manuel Galrilho Bento é entrevistado depois de Portugal ter vencido a então URSS e se ter qualificado para o Campeonato da Europa de 1984, a 13 de novembro de 1983, em Lisboa, Portugal. (Foto de Trevor Jones/Allsport/Getty Images)

Ou a homenagem a todos aqueles que estão na base dos aviões XPTO e dos trolleys de luxo, antes da D. Dolores… dar à luz

Eu vejo o avião XPTO da Seleção portuguesa aterrar em Münster, na Alemanha, e os jogadores a descer as escadas da aeronave com os seus trolleys da Vuitton para pisar solo germânico e as minhas memórias vão para o sótão do 25 da Praça da Alegria, a velha sede da FPF, onde eu ia todos os anos catar as fichas de cada um dos jogadores onde constava a trajetória desportiva de cada atleta que fazia parte dos planteis de todas as equipas da chamada “I Divisão”.

Hoje, com a batida numa tecla, aparece tudo, a radiografia quase completa da ossatura que se podia expor, sem fraturas, mas naquele tempo, dos Grácios e dos Malvas, era tudo muito prosaico, e eu ouvia as queixas dos funcionários e o som das solas dos sapatos em contacto com a madeira dos degraus do “25”.

Não havia elevador(es) e Cristiano Ronaldo ainda não tinha nascido e, quando nasceu (1985), o futebol português começava a dar os primeiros passos, muito ténues, em direção à modernidade.

Cristiano tinha 3 anos e começava a dar certamente os primeiros pontapés lá na Madeira quando a FPF decretou o fim dos campos pelados na competição mais importante do futebol luso.

Eram todos muito simpáticos, mas era tudo muito pobrezinho — e nas conversas de caserna começava a compreender algumas coisas.

Essas subidas ao sótão da FPF ajudaram-me a perceber, naquele tempo, algumas dessas coisas, que me são muito úteis (para análise) nos tempos de hoje. E ajudaram-me a perceber que as fundações do edifício do futebol português eram assentes em bancos arenosos. Perigosos, por causa da falsa sustentação.

Três anos antes do nascimento do Cristiano, eu assistia na Finlândia ao Campeonato da Europa de Juniores (sub-18), em cuja equipa — orientada por José Augusto — o “Paulinho” Futre era o mais novo da comitiva e ainda suplente dessa equipa, no entanto a revelar os dotes que fariam dele um dos grandes jogadores da história do futebol nacional.

Não havia aviões XPTO para levar as Seleções e o que ressaltava à vista era a dificuldade que existia para se arranjarem chuteiras da melhor qualidade e equipamentos de treino compatíveis com a necessidade de ver os jovens jogadores equipadinhos sem buracos nas camisolas (passe o exagero).

Nessas andanças pelo futebol europeu choquei com a realidade daquilo que se passava em França (país líder da Formação, sob a inspiração de Georges Boulogne e Fernand Sastre), na Alemanha, em Inglaterra e aqui ao lado em Espanha (a realidade no País Basco era também motivadora) e o atraso em dois planos muito concretos: no plano infra-estrutural e no plano da mentalidade.

Foram anos e anos de aproveitamento da estrutura deixada por Salazar — o Estádio Nacional — em cujo campo “número 2” funcionou a oficina de milhares de jogadores sob a orientação de José Moniz, Peres Bandeira, Jesualdo Ferreira, José Augusto e Carlos Queiroz, nunca esquecendo (nesse tempo) contributos tão valiosos como aqueles que foram dados por Nelo Vingada e Rui Caçador, entre outros.

O Estádio Nacional era a oficina dos nossos jovens que nos seus clubes, por ausência de infraestruturas de apoio, jogavam à míngua das sobras que as equipas seniores deixavam. Existiam fenómenos como o Torralta e os Cracks de Lamego e a carolice de muitos “anónimos”, mas era tudo muito modesto e ‘ratado’, e até os anunciantes (na altura a ‘Coca Cola’) eram pepitas que rareavam no deserto.

Foram centenas de apelos à modernização dos parques desportivos e lembro-me que entre as causas que sempre defendi para o desenvolvimento do futebol português constava a construção de uma “Casa das Seleções”.

Venerei não sei quantas vezes aquela “primeira pedra” em Almargem do Bispo — o Cristiano tinha 17 anos quando foi lançada — mas a “Casa das Seleções” só foi transformada em Cidade do Futebol em 2016, tinha Cristiano 31 anos e já havia Cristianinho, com 6.

Também por isto a história do futebol português está ligada a Cristiano Ronaldo, que se estreou nos grandes palcos da Seleção no Europeu de 2004, depois de ter realizado a sua estreia em Agosto de 2003, ano em que foram inaugurados os novos (agora nem tanto) Estádios de Alvalade, Luz, Dragão e ‘Pedreira’, em Braga.

Hoje, os jogadores em Portugal, de uma maneira geral, têm condições de treino, embora a um nível médio ainda haja algumas carências e uma certa desertificação nalgumas zonas do país futebolístico, concentradas maioritariamente na zona sul.

E vem então, paralelamente, o tema da mentalidade. 

Da revolução que se fez em meados da década de 80 para progressivamente, colhendo-se entretanto a parte positiva da Lei Bosman e da abertura das fronteiras (com a consequente afirmação de Jorge Mendes na valorização de muitos atletas), se darem passos largos para afirmação da nossa Seleção.

Nesse tema da mentalidade, cada vez que íamos disputar um torneio lá vinha a lengalenga de “ir jogar para aprender”. Nunca tive dúvidas, no passado e no presente, no valor do jogador português e, por isso, era uma questão de reduzir a décalage da qualidade dos parques desportivos para outros países e, com ela, crescer em mentalidade competitiva.

O fenómeno da exportação do talento português é uma consequência das várias revoluções levadas a cabo nos últimos 40/45 anos mas sobretudo, de uma forma mais acelerada, nos últimos 20.

Por isso tenho dito que Portugal chegou ao seu “ponto de rebuçado”. Mas para se chegar aqui houve muitas dores de cabeça, muitas carências, muitas fracturas, muitos mal-entendidos, muitos protagonistas.

“Regresso” ao sótão da FPF, no ’25’ da Praça da Alegria. Ao pó das encadernações de cor azul, catadas com a sofreguidão de quem percebia que, a partir dali, havia muito caminho a percorrer.

Hoje, temos talento e qualidade numa maior quantidade. É encorajante ouvir jogadores como Ruben Dias, Cristiano e agora Vitinha dizer que é preciso provar no campo, com compromisso, a existência desse talento.

Este Europeu é uma grande oportunidade para Portugal honrar o passado e o presente, projetando o futuro.

Os aviões XPTO e os trolleys de luxo devem-se a muita gente. Ao Cristiano. E não apenas ao Cristiano. Do Cristiano para os outros e dos outros para o Cristiano, que continua a ser o nosso maior embaixador. Um por todos. Todos por um. A partir do sótão para a penthouse.

Sem esquecer a Dona Dolores e as outras ‘Donas Dolores”, na projeção da imagem de Família. O resto ver-se-à, jogo a jogo. Esperemos que esta abertura à crítica seja um sinal de que, também a este nível, as coisas mudaram. Foi em 2016 que o microfone foi jogado para o lago. Também isso mudou, convém não esquecer.

Vamos lá, “Maiorais”!

 

Nota do Editor: a fotografia no topo deste artigo é de 13 de novembro de 1983. O capitão da Seleção Nacional e guarda-redes Manuel Galrilho Bento é entrevistado depois de Portugal ter vencido a então URSS e se ter qualificado para o Campeonato da Europa de 1984, onde alcançaria as meias-finais. Foto de Trevor Jones/Allsport/Getty Images

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