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O momento do Benfica: o "fungo" (aparentemente incurável) que está alojado entre a unha e a carne de Rui Costa

17 jun, 18:00
Rui Costa, presidente do Benfica, festeja título nacional no voleibol (José Sena Goulão/Lusa)

A reflexão sobre os motivos da contestação de um presidente que foi eleito com quase 85% dos votos

Não vale a pena esconder que o Benfica está a atravessar uma fase delicada da sua existência, na recente presidência de Rui Costa, que ainda não completou 3 anos de vida, depois de um “ensaio" de 3 meses, após a renúncia de Luís Filipe Vieira na sequência da Operação “Cartão Vermelho”.

É importante recordar que, nas eleições mais concorridas do clube da Luz (40 085 votantes), Rui Costa foi eleito presidente do Benfica em Outubro de 2021, com 84,48% dos votos, contra os 12,24% de Francisco Benitez.

João Noronha Lopes, que participou nas eleições de 2020, tendo conseguido 34,71% dos votos, contra os 62,59% de Luís Filipe Vieira, não concorreu com Rui Costa, mas percebe-se que continua a ter - até pela forma como correu a AG do passado sábado - a simpatia de um conjunto importante de sócios do Benfica.

O que fez então com que um presidente eleito há 2 anos e 8 meses com quase 85% dos votos esteja a ser e tivesse sido nas AGs tão contestado?

Há 3 ordens de razões:

PRIMEIRA - A época desportiva que não correu bem e o sentimento de que um presidente como Rui Costa, que esteve lá dentro e tem a obrigação de identificar, no futebol, as carências do plantel e as valências dos treinadores.

Não o fazer ou a equipa revelar deficiências elementares e básicas (toda a época com problemas nas laterais e na posição de ponta-de-lança) não é considerado “normal”, com um presidente com as características de Rui Costa;

SEGUNDA - A demissão (nas vésperas das AGs) de Luís Mendes, administrador executivo da Benfica SAD e 1.º vice-presidente do Conselho de Administração, cuja saída fragilizou obviamente Rui Costa, uma vez que se tratou de uma das poucas escolhas do presidente que não tinha qualquer relação com o ‘vieirismo’ e com o passado.

Sem esquecer os efeitos das conclusões da auditoria forense da Ernst & Young.

TERCEIRA - Uma clara dificuldade em assumir o seu espaço como presidente, mesmo dizendo que “não há nenhuma crise de liderança no Benfica” e que “Não há vazios nem ausência de decisão”.

Não é essa imagem que dá para fora e - já se percebeu - também não é a que dá para dentro, sobretudo quando se percebe que foi o seu braço direito e homem de confiança (até há uns meses), Luís Mendes, o primeiro a saltar fora, por motivos que têm a ver com estratégias discutidas internamente, divergências sobre a lógica dos fornecimentos e serviços externos e o choque que se produz, nestas circunstâncias, quando surge alguém de fora a tentar integrar-se numa estrutura dominante.

O ponto é esse. Não vale a pena iludi-lo.

Luís Mendes era o outsider a quem Rui Costa quis dar, inicialmente, o papel de broca perfuradora do ‘vieirismo’, do qual Rui Costa não deixa de ser uma extensão e do qual o actual presidente gostaria de poder estabelecer alguma diferenciação.

Pela forma como Vieira saiu (sugado pelo aspirador do ‘Cartão Vermelho’) e por aquilo que a certa altura passou a ser o lado mais negativo da sua presidência — as questões da transparência e das boas práticas. Mas sem se comprometer para não ser julgado por quem não se importa de estar preso nas areias movediças.

Rui Costa tem esse problema: quis sair do “vieirismo”, mas o “vieirismo” é como um fungo que se aloja entre a carne a unha e revela uma grande resistência a “anti-fúngicos” como Luís Mendes.

O que significa que Rui Costa pode querer sair do “vieirismo”, mas o “vieirismo” — ainda tão forte na Luz — não lhe consente esse papel de… “anti-fúngico”.

Quer dizer: tu até podes querer mudar alguma coisa, mas a certa altura percebes que não consegues. A tatuagem está tão colada à pele que não a consegues remover. A menos que estejas preparado para uma “guerra” (interna) sem quartel.

E, sinceramente, acho que Rui Costa não está e duvido que alguma vez venha a estar.

Sim, Rui, eu sei que as circunstâncias que levaram André Villas-Boas à presidência do FC Porto são um pouco diferentes, até porque o André chegou de fora para dentro (depois de ter estado dentro apenas como ex-treinador) e tu fizeste apenas uma migração….

… Mas há alguns pontos de contacto — e esses estão relacionadas com questões de transparência. O Benfica precisa de fazer um corte radical com certas práticas.

Alguma vez é sustentável que, de acordo com a auditoria, 44% das transações envolveram comissões superiores a 10%, no âmbito dos contratos analisados?

Não há lideranças fortes sem decisões de risco. Não sei se vai a tempo, mas Rui Costa ou assume os riscos para ficar na história ou a história encarregar-se-à de lhe reservar um lugar… sem Luz.

De uma coisa tenho a certeza: o Sporting já sangrou, o FC Porto está a sangrar e a tentar estancar uma enorme hemorragia, com consequências que ainda estão por apurar em toda a sua real dimensão e o Benfica, estando a sangrar, pode estar na iminência de um profundo sangramento.

Provavelmente terá de passar por esse processo porque é incrível como um clube como o Benfica não pára de desperdiçar recursos. As elites precisam de se organizar para não passarem o tempo a chocar entre elas e o povo.

O Benfica precisa de curar uma doença crónica - a da falta de liderança, a um nível de credibilidade que lhe permita um importante trabalho em profundidade.

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