opinião
Colunista e comentador

Benfica: o "clube do povo" que vive (mais) uma crise entre as suas elites. E vai continuar a sangrar, como já sangraram Sporting e FC Porto

17 jun, 14:00
Águia Vitória, Benfica, 6 janeiro 2023. Foto: Patrícia de Melo Moreira/AFP via Getty Images

A presidência de Rui Costa está presa, como um elevador, entre dois andares. Não vai para cima — para um ciclo completamente distinto daquele que suportou a anterior presidência — nem vai para baixo, comprometida com os erros que se cometeram no passado

O Benfica é um clube do povo que não encontra um ponto de equilíbrio nas suas elites.

Quando comecei a minha carreira jornalística, o Benfica tinha um grande presidente chamado Borges Coutinho.

Lembro-me dos elogios que lhe eram feitos, muito relacionados com a educação britânica. Morreu cedo, em Londres, no começo da década de 80, com 59 anos.

Depois disso, o Benfica conheceu mais 9 presidentes, de José Ferreira Queimado a Rui Costa, passando por Fernando Martins, João Santos, Jorge de Brito, Manuel Damásio, João Vale e Azevedo, Manuel Vilarinho e Luís Filipe Vieira.

O Sporting conheceu 12 presidentes no período pós-Borges Coutinho e o FC Porto só agora mudou de presidência, com a chegada de André Villas-Boas, depois de 42 anos de liderança de Pinto da Costa.

O ex-presidente do FC Porto, para o bem e para o mal, marcou a história do futebol português durante 4 decénios e contribuiu para que o Benfica nunca encontrasse um rumo, uma estratégia, uma identidade — e isso não apenas deve ser creditado à guisa da visão e da leitura que Pinto da Costa fez dos adversários e do País, mas também dos deméritos desses 9 presidentes do Benfica, sem esquecer as dificuldades que o Sporting conheceu até encontrar, presentemente, com Frederico Varandas, um ciclo de maior estabilidade.

Dada a sua dimensão de clube com mais adeptos e com maior capacidade para gerar receitas, o que é “notícia” e passível de profunda reflexão é o facto de o Benfica nem sequer conseguir impor-se de forma clara no plano nacional.

De vez em quando fala-se na vontade do Benfica poder chegar longe na Liga dos Campeões, e sem que isso deva representar menor ambição, o discurso oficial não deveria ser esse, mas sim o de definir o objetivo de ser indiscutivelmente hegemónico no plano nacional.

No plano do interesse do clube da Luz, é muito redutor que o Benfica, com a força que tem, não consiga um plano de superioridade estável no domínio das provas internas. E, sem retirar mérito aos adversários, isso representa dificuldades de liderança e de gestão. Um caro desperdício de recursos e inépcia nas apostas feitas no futebol.

A contestação que se vê em redor de Rui Costa é uma extensão dos problemas que já se viam no tempo de Vieira. E ela acontece porque a presidência de Rui Costa está presa, como um elevador, entre dois andares. Não vai para cima — para um ciclo completamente distinto daquele que suportou a anterior presidência — nem vai para baixo, comprometida com os erros que se cometeram no passado.

É como se fosse uma avaria. E essa avaria — a praticamente um ano de eleições — faz com que algumas figuras do Benfica se movimentem, dentro e na periferia do clube.

Rui Costa não tem a vida facilitada. Há quem diga que a sua presidência estava condenada à nascença, porque não tinha muito espaço livre para se mexer.

O mesmo chefe de gabinete, os mesmos apoios que Vieira contou, um novo braço direito que nem sequer conseguiu fazer a sua “apresentaçao” aos benfiquistas (quantos conheciam verdadeiramente Luis Mendes?), uma comunicação híbrida e também ela “congelada” entre equívocos e uma época desportiva inexpressiva, com o dragão a mostrar as vísceras na transição para Villas-Boas e um Sporting, mais estável, a aproveitar-se com mérito das fracturas dos adversários.

Vemos no Benfica aquilo que já aconteceu ao Sporting e — noutro contexto — está a acontecer no FC Porto.

Quer dizer: o Sporting já sangrou, o FC Porto está a sangrar e o Benfica não apenas está a sangrar como é previsível que tenha sangrentos tão profundos como aqueles que os seus rivais já conheceram.

Por culpa das suas elites, que não conseguem estancar a hemorragia das suspeitas e das “amplas liberdades” concedidas por quase 20 anos de “vieirismo”, durante os quais o futebol foi apenas um pretexto para aproximar negócios sob o alto patrocínio dos ex-donos disto tudo.

O País, aliás, está a sangrar. Basta ligar as televisões e perceber o magistério das influências.

Colunistas

Mais Colunistas

Patrocinados