Síria, Afeganistão, Sudão do Sul, Myanmar, Iémen, República Democrática do Congo, Etiópia, Palestina e Venezuela. Aqui também há milhões de refugiados e deslocados

26 mar, 18:00
Bebé retirado do Afeganistão

A invasão russa da Ucrânia trouxe ao mundo uma das maiores crises humanitárias de sempre, com mais de 3,7 milhões de refugiados em apenas quatro semanas. Mas colocou também em segundo plano outras crises dramáticas e urgentes como as que ainda vivem milhões de sírios e afegãos, sem esquecer tragédias mais recentes em África ou na Venezuela

A imagem de um pai a entregar o filho bebé a um soldado norte-americano por cima do arame farpado do aeroporto de Cabul correu mundo e mostrou o desespero de milhares de civis em fuga dos talibãs, mas a crise dos afegãos caiu no esquecimento com a guerra na Ucrânia.

Foi em agosto do ano passado e, apesar de a história de Sohail Ahmadi, então com apenas dois meses, ter tido um final feliz, a vida de milhares de afegãos continua em risco.

O mundo está de olhos no que se passa na Europa e na evolução de uma guerra que muitos receiam que possa escalar para lá das fronteiras da Ucrânia. E também na crise humanitária que se gerou, uma das maiores e mais rápidas de sempre, com mais de 3,7 milhões de refugiados em apenas quatro semanas, número que vai continuar a aumentar à medida do conflito.

Mas a Ucrânia não é o único palco de batalha no mundo, nem o seu povo o único em fuga devido a um conflito. Segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), há, neste momento, mais de 20 milhões de refugiados, 4,4 milhões de requerentes de asilo e mais de 50 milhões de deslocados dentro dos seus próprios países. E quase dois terços dos refugiados do mundo são originários de apenas quatro países: Síria (6,7 milhões), Afeganistão (2,6 milhões), Sudão do Sul (2,2 milhões) e Myanmar (1,1 milhões), além de quase quatro milhões de venezuelanos que, não tendo o estatuto de refugiados, fugiram do seu país devido à instabilidade política e económica.

Apesar de muitos conflitos durarem há anos, mesmo décadas, 2021 esteve longe de ser um ano melhor e 2022 arrancou com pouca esperança para milhões de pessoas. Com base nos dados da ONU  – nomeadamente da sua agência para os refugiados (ACNUR) ou do Conselho de Segurança, o zelador mundial da paz  –, e na Amnistia Internacional, elencamos os países em guerra ou conflito que mais têm contribuído para a crise de refugiados, com exceção da Ucrânia, que tem estado no centro da agenda mediática.

Síria

Continua a ser a maior crise de refugiados da atualidade. Mais de dez anos de guerra perseguem a Síria, conflito que já matou mais de 350 mil pessoas e está na génese de 6,7 milhões de refugiados e outros 6,7 milhões de deslocados internamente, o último balanço oficial. É um país não só devastado pela guerra, mas pelo colapso da economia decorrente do conflito, com cerca de 14 milhões de pessoas a necessitarem de ajuda humanitária, cenário agravado ainda pela pandemia de covid-19 e pelo terrorismo. A ONU descreve a situação com um “tsunami lento” de crises onde a paz está a ser negada por um “abismo de desconfiança” entre os que apoiam o regime de Bashar al-Assad e os que estão contra ele, sempre com os civis no meio.

“A Síria continua a enfrentar os efeitos devastadores de quase 11 anos de guerra civil. Não há sinais de progresso diplomático que possa acabar com o conflito em curso, e as Nações Unidas estimam que 14,6 milhões de pessoas necessitam de assistência humanitária no país. No seu relatório de dezembro de 2021 sobre a situação humanitária na Síria, o secretário-geral António Guterres concluiu que a 'situação socioeconómica continua em declínio, os serviços sociais básicos estão sob tensão e a insegurança alimentar está a aumentar'”, observa o Conselho de Segurança da ONU no seu relatório de março.

António Guterres expressou ainda preocupação com a “continuação da impunidade por graves violações e abusos de direitos humanos e graves violações do direito internacional humanitário”.

Ainda no ano passado, segundo o Observatório Sírio de Direitos Humanos, morreram mais de 3.700 civis. Já em 2022, contas feitas pela organização não governamental ACLED - Armed Conflict Location and Event Data Project, e até 18 de março, morreram 1.195 pessoas na sequência de diferentes eventos, entre os quais se incluem 312 situações de combate, 1.054 explosões (que vão desde bombardeamentos a rebentamento de engenhos explosivos, como granadas) e 339 ocorrências de violência contra civis.

“Estavam a ser equacionados alguns formatos para levar à mesa das negociações as várias partes envolvidas, o famoso Processo de Genebra. Mas com os vários atores internacionais envolvidos, nomeadamente a Rússia, que tentou promover um outro formato de negociação, conhecido como Processo de Astana, em conjunto com o Irão e a Turquia, obviamente que cada um destes atores tem um interesse muito substancial naquilo que é o conflito ou que à pacificação do conflito diz respeito, mas sobretudo na manutenção de Bashar al-Assad no poder. Mantendo-se o mesmo presidente no poder não parece que o risco de agravamento da situação da sociedade civil vá diminuir, antes pelo contrário”, explica Sónia Sénica, investigadora do Instituto Português de Relações Internacionais da Universidade Nova de Lisboa, à CNN Portugal.

A única área de convergência parece ser, segundo o Conselho de Segurança, a preocupação com a influência do Estado Islâmico no conflito, como aconteceu no ataque de janeiro a uma prisão síria onde estão detidos milhares de jihadistas, numa tentativa de libertar os militantes.

 

Afeganistão

Foi no verão passado que os talibãs recuperaram o controlo do Afeganistão após quase duas décadas de conflito com os Estados Unidos, que os empurrou para fora de cena, mas não os impediu de voltar. A segunda metade de 2021 foi, por isso, muito difícil para os afegãos, com milhões em fuga.

No dia 15 de agosto, os talibãs tomaram Cabul e depois o governo do país. Foi o caos, com milhares de pessoas a correr para o Aeroporto Internacional Hamid Karzai, a maioria colaboradores das forças internacionais no terreno ou trabalhadores do governo apoiado pelo Ocidente.

Quem ficou não baixou logo os braços. Muitos ainda se lembram de ver imagens das mulheres afegãs na rua a desafiar as autoridades, mas os protestos, tal como a maioria das liberdades, acabariam por ser proibidos.

Os talibãs têm, ainda assim, encontrado resistência em duas frentes, a Frente Nacional de Resistência e o Estado Islâmico, ambas na origem de quase duas centenas de ataques nos últimos meses do ano. No meio, como sempre, os civis, nomeadamente minorias étnicas e religiosas, mulheres e pessoas ligadas ao governo deposto. Alvos fáceis para os talibãs, mas também para grupos armados não identificados e para o Estado Islâmico. Este último, aliás, reclamou o ataque ao aeroporto em que morreram 180 pessoas.

Entre agosto e o final de 2021, a ACLED registou mais de 290 ataques contra civis, que resultaram em 420 mortos, quase cinco vezes mais ataques que os registados no total dos quatro anos anteriores. E a tendência manteve-se em janeiro de 2022, com os ataques contra civis a constituírem 36% do total de incidentes relacionados com desordem no país.

2021 será sempre de má memória: 2,6 milhões de refugiados, 226 mil requerentes de asilo e 3,2 milhões de deslocados internamente. A chegada ao poder dos talibãs trouxe ainda a fome e uma tragédia humanitária de proporções incalculáveis, com as Nações Unidas a recear por milhões de crianças.

Sem bens, sem dinheiro e com muitas sanções do Ocidente, a economia afegã afundou-se, situação agravada pela covid-19, pela seca e pelo ressurgimento do Estado Islâmico. Alguns bloqueios acabaram por ser levantados, de modo a permitir a entrada de ajuda humanitária e o retomar de alguma atividade económica, mas as previsões era já difíceis de contornar: 23 milhões de pessoas, mais de metade da população, iria passar fome até à primavera.

“A retirada militar norte-americana, após 20 anos de presença no país, e todo o impacto negativo que surtiu dessa saída abrupta segundo alguns, mas que já estava previamente acordada desde a administração Trump, obviamente que teve consequências. Não houve transição de poder entre instituições que pudessem assegurar a pacificação do país em termos de conflitualidade.  Com o vazio de poder deixado pelos americanos rapidamente num espaço de horas houve a tomada de poder pelos talibãs novamente. Ainda que tenham avisado várias vezes, sob pressão internacional, que não iam regressar a uma lei mais restritiva das liberdades e dos direitos da sua população, nomeadamente ao nível das mulheres, o que nós podemos percepcionar é que aos poucos algumas das medidas que estavam a ser implementadas antes estão a ser agora aos poucos restabelecidas, nomeadamente o negar o acesso à educação às jovens afegãs ou os crimes como casamentos de crianças com homens mais velhos”, lembra Sónia Sénica.

No final de janeiro, representantes dos talibãs e de diferentes setores da sociedade civil afegã reuniram-se em Oslo com delegações da União Europeia, França, Alemanha, Itália, Noruega, Reino Unido e Estados Unidos e, segundo os diplomatas citados pelo relatório do Conselho de Segurança da ONU, foi-lhes dito que mais ajuda ao país, mesmo humanitária, estaria dependente de melhorias ao nível dos direitos humanos. Em meados de fevereiro, representantes da UE e dos EUA voltaram a reunir-se com os talibãs, desta feita em Doha, e segundo foi noticiado as partes comprometeram-se a fazer todos os esforços possíveis pelo bem-estar do povo afegão. Mas sabe-se, por exemplo, que as jovens afegãs continuam sem poder ir à escola, apesar dos apelos da comunidade internacional.

Uma boa notícia importa, no entanto, sublinhar, faz notar o diretor-executivo da Aministia Internacional Portugal. “Apesar de o Afeganistão já não estar na primeira linha da consciência coletiva ou da agenda mediática, o trabalho continua a ser feito e todos os dias continuam a chegar refugiados afegãos a Portugal”, diz à CNN Portugal Pedro A. Neto.

 

Sudão do Sul

Este jovem país africano, independente desde 2011, vive a maior crise de refugiados do continente africano: 2,2 milhões, 63% são menores (muitas vezes desacompanhados) e os restantes são, na sua maioria, mulheres. Fogem da violência armada e da violência sexual, mas também da fome e da doença.

O Sudão do Sul está em “emergência humanitária”, com mais de oito milhões de pessoas a precisarem de ajuda, dizem as Nações Unidas, mesmo com um cessar-fogo em vigor desde 2018, que colocou uma pausa numa guerra civil de cinco anos, tinha o país apenas dois de vida. Mas, apesar de não haver guerra há guerrilhas, a chamada violência intercomunitária. Tudo isto faz tremer um processo de paz, que nunca foi sólido.

A paz assenta no entendimento entre dois homens das duas maiores etnias do país, que lideraram as facções rivais que começaram a guerra civil em 2013. Foram anos de terror para os civis, que além de perseguidos pelas suas etnias viram as suas aldeias saqueadas e destruídas, as mulheres violadas e as crianças recrutadas para a guerra. Há novas eleições em 2023, mas quem manda ainda não decidiu a data.

O número oficial de vítimas da guerra de cinco anos não existe, mas é estimado em cerca de 400.000 mortos e quatro milhões de deslocados em 2018. A última missão da ONU no terreno terminou em março deste ano, com quase 20.000 elementos no terreno, mas deverá ser renovada.

O Sudão do Sul está, ainda, à mercê das alterações climáticas. Quase um milhão de pessoas foram afetadas em 2021 por inundações sem precedentes.

 

Myanmar

Fez em fevereiro um ano que um golpe militar em Myanmar derrubou a chefe do governo Aung San Suu Kyi, Prémio Nobel da Paz, que continua em prisão domiciliária. Um ano manchado de sangue, de protestos e cujas vítimas estarão para além dos piores cálculos, uma vez que nem as Nações Unidas têm certezas. Sabe-se, diz a ONU, que pelo menos 1.500 pessoas morreram nos protestos, entre as quais 200 que foram torturadas por militares, e que milhares terão morrido no conflito armado. Neste período, mais de 11.000 pessoas foram detidas ilegalmente e quase 9.000 permanecem presas, entre as quais jornalistas, médicos e políticos da oposição.

Os números são igualmente trágicos quando olhamos para os que decidiram partir: 1,1 milhões de refugiados (47% dos quais crianças), mais de 44.000 requerentes de asilo e quase 600.000 deslocados, a grande maioria da minoria étnica rohingya. Fazem de Myanmar, maioritariamente budista, um dos países do mundo que mais definem a crise de refugiados.

Perseguidos pela etnia e religião, e despojados de todos os direitos, ainda que a acusação de genocídio tenha chegado ao Tribunal Penal Internacional, há ainda mais de meio milhão de rohingyas a viver em Myanmar, com quase 900.000 a sobreviver no vizinho Bangladesh, depois de terem escapado à morte mas não à miséria. O campo de refugiados de Kutupalong é, neste momento, considerado o maior do mundo.

Mas a perseguição aos rohingyas é anterior ao golpe militar e várias organizações de defesa de direitos humanos acusam, inclusive, Suu Kyi, de envolvimento.

Na segunda-feira, aliás, o secretário de Estado norte-americano, Antony Blinken, afirmou que os rohingya foram alvo de genocídio e de crimes contra a humanidade, uma posição inédita, uma vez que a administração Trump tinha recusado usar essa classificação para os crimes cometidos em Myanmar.

“Isto é muito substancial porque, pela primeira vez, os Estados Unidos declararam publicamente que se tratava de um genocídio perpetrado pelo exército birmanês, nomeadamente entre 2016 e 2017, e isto faz toda a diferença, não só na maneira de observar e analisar o conflito, mas sobretudo na questão em particular desta minoria. Blinken chegou ao ponto de dizer que se tinham confirmados atos como aldeias arrasadas, assassínios em massa, violações e torturas”, aponta a investigadora Sónia Sénica.

Desde 1 de fevereiro de 2021 que os militares no poder não olham sobre quem disparam, torturam ou violam, sejam mulheres ou homens. Atiraram sobre a multidão durante manifestações pacíficas, invadiram casas e mataram famílias, queimaram pessoas até à morte. A violência contra civis aumentou 620% em apenas um ano, de acordo com a ACLED.

E todo este custo humano reflete-se ainda na pobreza do país, que está em ascensão, com metade das famílias a passar fome.

O pior ainda não passou e as eleições de 2023 podem fazer deste mais um ano trágico. A perseguição ao Liga Nacional pela Democracia (LND), o principal partido da oposição e de Suu Kyi, continua, com a sua presidente a arriscar uma condenação de prisão perpétua. Vários elementos do LND foram já mortos ou torturados e não se espera que a campanha de violência abrande nos próximos tempos.

 

Iémen

Quatro milhões de iemenitas viram-se forçados a fugir das suas casas devido à guerra e à fome, 79% são mulheres e crianças. O conflito que dura há já sete anos entre os rebeldes houthis e as forças do governo, este último com o apoio da Arábia Saudita, deixou perto de 21 milhões de pessoas, mais de dois terços da população, a necessitar de ajuda humanitária direta e urgente. Mais de 16 milhões de iemenitas vivem em insegurança alimentar e, destes, cinco milhões estão à beira da fome.

E se o Iémen era já um dos países mais pobres do Médio Oriente antes da guerra, a sua situação tem piorado, com muitas infraestruturas necessárias, como unidades de saúde, completamente destruídas, e o colapso da economia a fazer temer o pior cenário em termos de acesso a bens essenciais.

Os quatro milhões de iemenitas em fuga pelo país representam o grupo de maior risco, com mais de metade em perigo de vida devido à escassez de alimentos. Estão ainda à mercê da covid-19 e de surtos de doenças como a cólera.

Em 2022 a guerra tem-se feito essencialmente no ar, com danos significativos para a população civil. Os houthis atacam a Arábia Saudita e os Emirados com drones e mísseis, estes dois países acusam o Irão de enviar armas, nomeadamente drones, para o Iémen, uma violação do embargo das Nações Unidas, mas respondem na mesma moeda, com milhares de ataques aéreos, que já mataram dezenas de milhares de pessoas.

Para as Nações Unidas, os dois lados estão a cometer crimes de guerra. Até 2021, a ONU estima que mais de 377.000 pessoas tenham morrido neste conflito, 60% como resultado da fome, da falta de cuidados de saúde ou de água potável. Mais de 10.000 crianças terão morrido direta ou indiretamente do conflito.

“Há críticas de parte a parte, nomeadamente dos saudis, que são apoiados por americanos e que acusaram o Irão de trazer muito armamento para o conflito no sentido de dotar os houthis de maior robustez e poder militar, o que também traz uma escalada de violência em termos de teatro de operações e, obviamente, vai infligir muito mais impacto na sociedade civil”, explica Sónia Sénica.

O enviado da ONU ao Iémen, Hans Grundberg, descreveu ao Conselho de Segurança como “alarmante” o aumento de ataques aéreos no Iémen, que estão a atingir zonas residenciais e infraestruturas civis, e classificou como muito difícil uma desescalada da violência, uma vez que as partes envolvidas “fazem exigências e pedem garantias que não podem ser cumpridas”.

“O apoio vem da Arábia Saudita, sendo que Arábia Saudita, Estados Unidos, Canadá e alguns países da Europa vendem armamento ao Iémen e isto é proibido quando há suspeitas de que este armamento servirá para crimes de guerra, mas estes países continuam como se nada fosse”, lamenta, ainda, Pedro A. Neto.

Janeiro foi terrível com mais de 650 civis mortos, o maior número registado nos últimos três anos. Aqui está contabilizado o ataque aéreo da coligação liderada pela Arábia Saudita à prisão de Saad, que resultou em mais de 300 mortos e feridos. Os rebeldes houthis continuam a tentar tomar o controlo de Marib, província rica em petróleo e gás, ao mesmo tempo que atacam a Arábia Saudita.

Desde janeiro que os Emirados pedem ao Conselho de Segurança para que os houthis sejam considerados um grupo terrorista, bem como o endurecimento das sanções contra o movimento, pedido que terá o apoio dos Estados Unidos e do Reino Unido, mas muitos países estão contra.

Em 2021, a ajuda humanitária no terreno, nomeadamente a distribuição de bens alimentares, conseguiu chegar a 13 milhões de pessoas, providenciando ainda cuidados essenciais de saúde a 6,7 milhões, segundo o gabinete das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA). As agências no terreno conseguiram chegar a 333 zonas do Iémen, levando ainda educação, proteção, abrigo e água potável. Mas 2022 pode não ser assim. A falta de financiamento forçou as agências humanitárias a interromper ou reduzir drasticamente os programas de assistência, com 28 dos 43 principais programas da ONU já reduzidos ou fechados até janeiro de 2022. Como resultado, milhões estão a perder acesso a alimentos, água, assistência médica, proteção e outras ajudas que podem salvar milhares de vidas.

São precisos 806 milhões de dólares (cerca de 732 milhões de euros) para sustentar os programas de assistência alimentar e de nutrição nos próximos seis meses.

 

República Democrática do Congo

A situação humanitária no Congo é definida pelas Nações Unidas como “complexa e desafiante”, com “múltiplos conflitos” que afetam várias partes do seu vasto território e colocam em risco milhões de civis. De tal modo que a ONU estendeu a sua missão de paz no país até dezembro de 2022 (a MONUSCO, que já foi integrada por tropas portuguesas), para consolidar a presença em três províncias “onde os problemas de segurança persistem”: Ituri, Kivu Norte e Kivu Sul.

A 8 de fevereiro deste ano, a porta-voz do Alto Comissariado das Nações Unidas, Liz Throssell, manifestou profunda preocupação com os “ataques mortais etnicamente motivados” a campos de deslocados por grupos armados. Em 2021, foram documentados dez ataques naquelas três províncias, que causaram a morte a 106 civis e fizeram vários feridos, além de sete mulheres terem sido vítimas de violência sexual durante esses ataques.

Já em 2022, a 1 de fevereiro, um novo ataque a um campo de deslocados em Ituri matou, pelo menos, 58 civis e fez mais de 40 feridos. “A província de Ituri vive um ciclo de violência armada devido a tensões intercomunitárias”, alertou o OCHA. Esta é também a província que mais ajuda necessita, com 2,9 milhões de pessoas em risco.

O estado de sítio decretado pelo governo para resolver a insegurança no leste do país não impediu que a situação continue a deteriorar-se, com as Nações Unidas a manifestarem sérias preocupações sobre a proteção dos civis e o respeito pelos direitos humanos e pelo direito internacional humanitário.

Segundo o último balanço, há mais de cinco milhões de deslocados e perto de 900.000 refugiados.

 

Etiópia

A região norte de Tigray tem sido o epicentro da guerra na Etiópia, entre o exército federal de Abiy Ahmed, com a ajuda da ex-inimiga Eritreia, e as forças regionais da Frente de Libertação do Povo Tigray, desde novembro de 2020 e pouco depois do fim da guerra com a Eritreia.

Em Tigray houve relatos de tudo quanto não se espera da humanidade: violações recorrentes de direitos humanos, execução de civis, abusos sexuais, trabalhadores humanitários alvejados, combates diários e ataques aéreos com drones. Três elementos dos Médicos Sem Fronteiras foram mortos em junho e a ONU exigiu acesso humanitário e sem restrições a Tigray, considerando o cenário de “grave incerteza”.

O último balanço das Nações Unidas aponta para quatro milhões de deslocados, mais de 145.000 refugiados e perto de 135.000 requerentes de asilo.

Milhares de civis foram mortos e as infraestruturas da região destruídas. Milhares fugiram e milhares viram-se a braços com a fome, havendo mesmo relatos de civis deslocados que comiam folhas para sobreviver.

O conflito acabaria por estender-se às regiões vizinhas de Amhara e Afar, com o mesmo nível de destruição e mortandade. Na segunda metade de 2021, a ONG Armed Conflict Location and Event Data Project registou 3.200 mortos neste incremento da zona de combates, acreditando que o número de vítimas terá sido muito superior.

2022 não começou melhor. Logo nas primeiras semanas de janeiro, pelo menos 108 civis morreram na sequência de ataques aéreos “alegadamente conduzidos pela força aérea da Etiópia”, segundo o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos (ACNUDH). Um desses ataques visou um campo para civis deslocados, onde morreram 56 pessoas. Outro dos ataques ocorreu no dia em que o presidente norte-americano Joe Biden falou com o primeiro-ministro etíope sobre a violência no país.

Também só no final daquele mês a Cruz Vermelha conseguiu, finalmente, entregar material médico em Tigray, o que aconteceu pela primeira vez desde setembro do ano passado. Esta ajuda chegou apenas para servir 4% das necessidades, com 3,9 milhões de pessoas a precisarem de cuidados de saúde.

O relatório do gabinete das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários de janeiro estimava em 9,4 milhões o número de pessoas a necessitarem de ajuda alimentar no norte do país. E em março, a distribuição de alimentos atingiu o nível mais baixo do último ano, com apenas 68.000 pessoas assistidas entre os dias 10 e 16.

“Estas crises, estando mais distantes, não podem ser esquecidas e claro que o organismo que foi criado para garantir a manutenção da paz tem de reagir a estes conflitos e, se não é capaz, temos de tentar uma reforma das Nações Unidas, para que seja capaz de se reformar e ganhar agilidade na resposta a estas crises em todo o mundo”, defende Pedro A. Neto.

 

Palestina

A última guerra com Israel foi em maio do ano passado, a quarta desde que a Faixa de Gaza foi bloqueada do resto do mundo. O processo de paz é permanentemente interrompido e o último gatilho foi disparado após o despejo de moradores palestinianos de um bairro de Jerusalém Oriental.

Uma reação levou a outra e de repente estalou a guerra. De Gaza partiram rockets, a Gaza chegaram mísseis. Morreram 260 pessoas no enclave sob liderança do Hamas, 60 eram jovens. Nos 11 dias de ataques aéreos registaram-se ainda perto de meio milhar de feridos. Em Israel, foram contabilizados 13 mortos e alguns focos de contestação.

As vozes críticas estenderam-se para além de Gaza, ecoando na Cisjordânia, Jerusalém Oriental e até em terreno inimigo. A comunidade internacional também condenou o despejo e os ataques aéreos em Gaza, que atingiram inclusive um edifício onde se encontravam várias agências humanitárias e meios de comunicação social internacionais.

Gaza é descrita por muitos como a maior prisão a céu aberto do mundo, de onde dois milhões de pessoas não conseguem sair. Isolados de todos, sobretudo de Israel. Mas no total há mais de 5,7 milhões de refugiados palestinianos a viver na Faixa de Gaza, Cisjordânia, Jordânia, Líbano e Síria.

“Este conflito é de uma tensão permanente. A repressão, os bulldozers que destroem campos agrícolas, que destroem casas, os desalojamentos por fases, tudo isto não é uma guerra formal, mas é um estado de permanente tensão, principalmente do governo israelita para com os palestinianos, principalmente os que vivem nos territórios ocupados e na Faixa de Gaza. Por outro lado, a narrativa do medo e da insegurança para os cidadãos israelitas também é um assunto e uma preocupação permanente. Ninguém deseja viver aquilo, nem de um lado nem do outro. Claro que, com a devida proporção, para o lado palestiniano é muito pior”, sublinha o diretor-executivo da Amnistia Internacional Portugal.

 

Venezuela

Ao contrário do que acontece nos países acima, não há qualquer conflito armado na Venezuela e não há mortes relacionadas com a oposição ao regime de Nicolás Maduro nem com o apoio a Juan Guaidó, reconhecido pela União Europeia e pelos Estados Unidos como o legítimo presidente. No entanto, a instabilidade política e o colapso económico, agravado por sanções internacionais, estão na origem da segunda maior crise de deslocação de civis do mundo, a seguir à Síria, que obrigou seis milhões de pessoas a deixar o país nos últimos anos.

Fogem da insegurança e da falta de quase tudo: alimentos, medicamentos e serviços essenciais, depois de uma pandemia que agravou ainda mais a situação, atirando cada vez mais venezuelanos para a pobreza. E fogem sobretudo para os países vizinhos. Diz a ONU que muitos chegam assustados, cansados e a precisar de assistência imediata.

A Venezuela já foi país que acolheu e não há, neste momento, sinal de que o volte a ser. O sentido continua a ser contrário e a maioria dos que saem são famílias com crianças, mulheres grávidas, idosos e pessoas com deficiência. Dos seis milhões de venezuelanos deslocados cinco milhões estão espalhados pelos países envolventes.

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