"A Fuga": o filme sobre um refugiado afegão (e sobre todos os outros refugiados) que está nomeado para três Óscares

15 mar, 22:00
Filme de animação "Flee - A Fuga"

O documentário dinamarquês de animação conta a comovente - e tão atual - história de Amin. Tem ante-estreia em Portugal esta quinta-feira, integrado no Monstra - Festival de Cinema de Animação de Lisboa, e chega às salas de cinema a 7 de abril

Meados dos anos 90: um adolescente afegão chega sozinho a Copenhaga, na Dinamarca, para começar uma vida nova. Diz-se que fugiu após a morte de toda a sua família e que viajou desde o Afeganistão a pé. Mas ele não fala a ninguém do que lhe aconteceu. São precisos quase 20 anos para, um dia, aceitar contar a sua história ao amigo dos tempos de liceu e agora realizador Jonas Poher Rasmussen.

Essa história é contada em “Flee - A Fuga”, longa-metragem escrita e realizada por Rasmussen que é o grande destaque da programação do Monstra - Festival de Cinema de Animação de Lisboa.

E não é para menos: vencedor em 2021 do Festival Internacional de Cinema de Animação de Annecy e também do Grande Prémio do Júri do Festival de Cinema de Sundance, entre muitos outros prémios, “Flee - A Fuga” é o primeiro filme a estar nomeado para os Óscares nas categorias de Melhor Filme Internacional, Melhor Documentário e Melhor Filme de Animação.

Trata-se de um documentário de animação, mas que também recorre a imagem real, narrado na primeira pessoa por Amin Nawabi (pseudónimo usado pelo refugiado afegão) e testando os limites de género. A animação permite manter o anonimato do protagonista e também “permite dar vida ao passado”, explicou o realizador. “E depois as imagens de arquivo servem para relembrar as pessoas de que isto é uma história verdadeira e que na base está a vida real.” "Flee - A Fuga" é mais uma prova de que o cinema de animação pode ser extremamente comovente e realista.

“A questão de como se documenta o sofrimento pessoal e as violações de direitos humanos sem expor os seus protagonistas a mais danos é uma das questões éticas e estéticas centrais para os cineastas que fazem documentários”, explicou o realizador dinamarquês em dezembro, no discurso de aceitação dos prémios de Melhor Filme de Animação e Melhor do Documentário dos Prémios do Cinema Europeu. “Estou satisfeito por ter encontrado uma forma de usar a animação para ajudar o Amin a contar a sua história de forma a que se sentisse seguro, e nós estamos espantados pela resposta entusiástica que o nosso filme tem recebido”.

Amin é atualmente um bem sucedido académico com cerca de 40 anos. No início do filme, Amin prepara-se para casar com Kasper e mudar-se para uma bela casa de campo. Vai criar o seu lar. E decide que este é o momento para enfrentar o passado e contar ao amigo realizador as suas memórias.

Partindo da sua experiência em documentários de rádio, Rasmussen conduziu uma longa série de entrevistas íntimas com  o amigo. Em dez sessões, realizadas ao longo de quatro anos, pediu-lhe para ele se deitar, fechar os olhos e descrever em detalhe as suas memórias. Desde as mais antigas, as doces memórias de infância, quando, nos anos de 1980, ele lançava papagaios de papel e ouvia música “Take on Me”, dos A-ah, nas ruas de Cabul, até às duras memórias da guerra civil, de quando o pai foi levado pelos mujahideen e nunca mais soube nada dele ou quando a família se viu forçada a fugir para Moscovo. E, pelo meio disto tudo, o despertar da sexualidade.

Contar a história de Amin é também uma maneira de contar a história de muitos outros refugiados. A atuação das redes de tráfico, o constante sentimento de insegurança, os barcos superlotados, os afogamentos, a sensação de claustrofobia quando se fica fechado num contentor de carga, o medo. Não saber por onde se vai mas saber que não se pode voltar para trás. O sentimento de não se pertencer a lado nenhum. “Senti a necessidade de dar uma cara aos refugiados que víamos nas auto-estradas na Dinamarca e no resto da Europa... E mostrar que ser um refugiado não é uma identidade, é uma circunstância da vida”, explicou Rasmussen, que estava já a trabalhar neste projeto quando a Europa recebeu a avalanche de refugiados da Síria, em 2015.

“Eu queria mesmo que a minha história fosse vista pelas pessoas porque as histórias que vemos sobre refugiados geralmente não abrem caminhos para as pessoas se identificarem com os refugiados em geral”, disse Nawabi numa entrevista recente, publicada no Los Angeles Times, aproveitando para estabelecer um paralelo entre o que aconteceu com ele e com outros refugiados do Médio Oriente ou da África e aquilo que está a acontecer com os ucranianos: “Acho que algumas pessoas já perceberam a dissonância entre as duas respostas a refugiados que vêm de diferentes países.”

Apesar de toda a tragédia, Amin sabe que só é feliz agora porque saiu do seu país: "No Afeganistão, os homossexuais não existiam", diz, contando que no seu país ser gay era visto como uma vergonha para uma família. "Não havia sequer uma palavra para eles."

“O que é uma casa?”, pergunta Amin no filme. “Para mim casa é um lugar seguro. Um lugar onde sabes que podes ficar sem ter que seguir em frente. Não é um lugar temporário.” A experiência de ter que fugir do seu país, do afastamento da família e de ser refugiado num país completamente desconhecido, de não ter uma casa, deixou marcas que podem não ser visíveis na pele mas determinam muitos dos aspetos da sua personalidade e das relações que mantém com os outros. “Cresce-se demasiado cedo. Quando se foge em criança é preciso tempo para aprender a confiar nas pessoas. Está-se constantemente na defensiva. O tempo todo.”

Integrada na 21.ª edição do Monstra, a exibição de "Flee - A Fuga" está marcada para quinta-feira, às 20.00, no Cinema City Alvalade.

Com distribuição da Films4You, a estreia comercial nas salas portuguesas acontecerá a 7 de abril.

O festival decorre de 16 a 27 de março no Cinema São Jorge, Cinemateca Portuguesa, Cinemateca Júnior e Cinema City Alvalade. Com o tema “A animação digital e analógica”, a Monstra exibirá mais de 400 filmes, entre longas e curtas-metragens, apresentando, pela primeira vez, produções oriundas do Egito e do Paquistão. Entre os destaques, a estreia de “Belle”, fantasia japonesa de Mamoru Hosoda, inspirada em “A Bela e o Monstro” e que passou no ano passado no festival de Cannes; e ainda exposição dedicada à realizadora britânica Joana Quinn, de quem será possível ver a curta-metragem “Affairs of the art”, que também está nomeada para os Óscares.

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