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Sem chuveiros, sem privacidade, sem arrependimentos: bem-vindo à vida na terra mais fria e misteriosa do mundo

CNN , Lilit Marcus
9 jun, 22:00
Poucas pessoas podem dizer que residiram no 'Continente Branco', e Keri Nelson é uma delas. Keri Nelson

Para conseguir um emprego na Antártida, não basta ter o currículo certo, nem mesmo se for o cientista mais brilhante do universo. Viver em espaços confinados e selvagens durante longos períodos requer um certo tipo de personalidade

Uma festa de pijama que dura cinco meses. Um dormitório universitário. O inferno para um introvertido.

Estas são apenas algumas das palavras que os residentes da Antártida usam para descrever a vida no continente mais frio e misterioso do mundo.

Em 1959, 12 países - incluindo Chile, Japão, Austrália e Estados Unidos - assinaram o Tratado da Antártida, comprometendo-se a utilizar o sétimo continente “apenas para fins pacíficos”. Como resultado, não há bases militares no local, embora aviões e navios militares possam transportar pessoas e mantimentos.

Isto significa que apenas alguns milhares de humanos podem afirmar que viveram na Antártida.

E ainda assim, apesar de dividir o alojamento com estranhos, tomar banhos de 90 segundos e não ter qualquer privacidade, há viajantes intrépidos que acreditam que todos os desafios valem a pena.

Keri Nelson é uma delas.

A natural do Minnesota viajou pela primeira vez para o Continente Branco em 2007 para trabalhar como empregada de limpeza na Base McMurdo, uma das três bases dos EUA na região. Agora, após 16 temporadas passadas na Antártida, já trabalhou nas três - além de McMurdo, a maior e mais ativa, há a Estação Amundsen-Scott no Polo Sul e a Estação Palmer, no norte da península Antártica.

“Se tivesse de descrever em termos musicais”, diz Keri, “diria que McMurdo é como um bluegrass [música popular e tradicional norte-americana] cru e sujo, o Polo Sul como uma sinfonia e Palmer como a música pop divertida e pirosa”.

Campo de férias para adultos

Nos meses de verão, de outubro a março, podem estar até 1.000 pessoas em McMurdo, desde cientistas a carpinteiros e a empregados de limpeza. Muitos funcionários de apoio têm vários empregos.

Por exemplo, Evan Townsend, criador da bandeira da Antártida, trabalhou na cozinha, serviu no bar e geriu a sala de artes durante o tempo que lá esteve. 

“É como uma cidade”, descreve Keri Nelson sobre McMurdo. “Podemos passar temporadas inteiras e não conhecer muita gente, e é tão movimentada nessas épocas. É sempre uma azáfama.” Isto deve-se à dimensão de McMurdo, a maior base, mas também à rotação do pessoal, uma vez que as pessoas mudam de estação ou saem em expedições e viagens de investigação ao longo da estação.

Apesar de existirem algumas comodidades modernas - uma sala de DVD, uma sala de artes, um ginásio - o ambiente de clube da base oferece muitas oportunidades para socializar. Keri organizou desfiles de moda e tocou música nas “bandas de gelo” que se formam frequentemente durante uma época.

A apenas três quilómetros de McMurdo fica a Base Scott, na Nova Zelândia, e às vezes os funcionários fazem a viagem através da Ilha Ross para visitar os colegas americanos, participando nas suas sessões de música improvisada, reuniões do clube de leitura e maratonas de cinema. Alguns até se oferecem como voluntários para dar aulas de ioga, línguas ou outras.

Keri Nelson e amigos junto ao marco geográfico do Polo Sul na Estação de Amundsen-Scott. Keri Nelson

“Foi o que aprendi na Antártida, dança hip hop e massagem tailandesa”, conta Chris Long.

Chris, que afirma ser da “família mais remota da Nova Zelândia”, passou mais tempo a viver fora da civilização do que dentro dela. Aos 19 anos, aceitou um trabalho de última hora na cozinha de um navio quebra-gelo russo com destino à Antártida.

“Detestava o trabalho”, mas encontrou a sua vocação pelo caminho.

Após aqueles meses desastrosos, durante os quais as águas impiedosas do oceano regularmente faziam o navio balançar em ângulos de 45 graus, Chris passou a gerir a logística dos cientistas na Base Scott e trabalha agora como pessoal de apoio para os viajantes que visitam a Antártida de navio.

É uma vida pouco convencional, passar metade do ano a viajar de um lado para o outro em águas notoriamente caóticas da Passagem de Drake para a América do Sul, mas Chris diz que não consegue imaginar outra forma de viver.

Laura Bullesbach (à direita) e os seus colegas em Port Lockroy. Bridie Martin-West/UKAHT

O outro lado do gelo

Laura Bullesbach não encontrou nada da sua experiência nas histórias de desfiles de moda e clubes de leitura. A sua temporada na Antártida, que terminou em março de 2024, foi mais serena. Era uma das cerca de meia dúzia de pessoas que trabalhavam na estação de correios mais a sul do mundo, Porto Lockroy, administrada pelo Antarctic Heritage Trust do Reino Unido.

“A ilha é do tamanho de um campo de futebol, por isso é minúscula. E vive-se numa cabana onde há basicamente duas divisões", explica.

“Não temos água corrente e, portanto, não temos chuveiros, não temos casas de banho com autoclismo e estamos sempre em cima uns dos outros.”

“Quando me despedi no aeroporto de um dos meus companheiros de viagem, não tínhamos estado um sem o outro, desde o final de outubro, mais tempo do que talvez o necessário para tomar um duche num barco. Somos amigos íntimos, companheiros de quarto e colegas de trabalho, e é tudo ao mesmo tempo.”

Um erro comum, segundo Laura, é pensar que a vida no continente remoto é aborrecida. Em Porto Lockroy, havia tarefas diárias que mantinham toda a gente ocupada, desde a administração básica da vida, como a preparação das refeições, até tarefas mais sérias, como a inspeção da água para detetar quaisquer plásticos que pudessem ter dado à costa e o acompanhamento da colónia de pinguins da ilha.

Além disso, há uma componente educativa. Quando navios privados, científicos ou comerciais visitavam Porto Lockroy, a primeira base científica estabelecida pelo Reino Unido na Antártida, Laura e outros membros da equipa subiam a bordo para dar palestras educativas, vender lembranças e recolher correio. Mas havia vantagens - podiam frequentemente utilizar os chuveiros a bordo e, por vezes, havia fruta e legumes frescos que podiam levar para a ilha para complementar as suas reservas de alimentos enlatados e secos.

Competir pela oportunidade de 'limpar vómito'

A menos que se seja um cientista altamente especializado, a melhor aposta para viver na Antártida é candidatar-se a uma função de apoio numa das estações.

Keri estava tão entusiasmada com a ideia de ir para o Continente Branco que viajou até Denver para participar numa feira de emprego para McMurdo. Depois de ter sido inicialmente rejeitada para um emprego para lavar pratos, salientou a sua formação como enfermeira quando se candidatou a empregada de limpeza.

Uma das perguntas da entrevista, conta, foi “qual foi a coisa mais nojenta que já limpou?”.

E resultou. Desde a sua primeira experiência como empregada de limpeza, Keri já teve vários empregos na Antártida, acabando por se tornar administradora da estação.

O salário era baixo, mas Keri não se importava. Ela queria ter a experiência de viver na Antártida e salienta que, apesar do baixo salário, todas as refeições, alojamento e transporte de e para o continente estavam cobertos.

Contar pinguins é uma das tarefas do pessoal do Porto Lockroy durante a sua estadia na Antártida. UKAHT

Mas para conseguir um emprego na Antártida, não basta ter o currículo certo. Viver em espaços confinados durante longos períodos requer um certo tipo de personalidade.

“Podes ser um engenheiro ou cientista fantástico, mas se não se fores capaz de viver numa pequena cabana ou numa pequena estação com mais três pessoas, ou talvez numa estação com mais 40 pessoas durante o verão, então não estás apto para o trabalho”, sublinha Chris.

“Não importa o quão bom és no teu trabalho. O mais importante é seres capaz de te integrar na equipa. Não queres fazer inimigos neste tipo de ambiente.”

Quando Laura chegou à última fase de entrevistas para os cargos em Porto Lockroy, ela e outros candidatos foram para uma zona rural para aquilo a que chama um “campo de seleção”. Lá, os candidatos foram divididos em equipas e receberam tarefas como montar uma tenda de olhos vendados. O objetivo era duplo: medir as competências e aptidões práticas de cada um e, ao mesmo tempo, avaliar a capacidade de resolução de problemas e de trabalho em equipa.

Outra consideração a ter em conta para trabalhar “no gelo” é o país de onde se é e se o seu país tem uma base na Antártida. Laura é alemã, mas pode trabalhar no Reino Unido, o que a tornou elegível para o emprego em Porto Lockroy.

No entanto, se não for cidadão de um país com um programa antártico, existem algumas opções para passar algum tempo na Antártida, nomeadamente no sector do turismo.

Chris e Keri dizem que depois de se apanhar o bichinho da Antártida é difícil livrar-se dele. Entrar pela primeira vez é difícil, mas como poucas pessoas têm experiência de trabalho na Antártida é mais fácil continuar a regressar após várias temporadas. Um dos membros da equipa de Laura, Clare Ballantyne, já tinha passado uma temporada em Lockroy e foi mentora de alguns dos estreantes.

"A minha especialidade é viver e trabalhar nos lugares mais inabitáveis da Terra", descreve Chris. "Um residente pode ser um cientista, uma pessoa muito inteligente, que sabe imenso sobre a sua área de especialização, mas se o enviares para a Antártida pode morrer amanhã. Por isso, precisas de alguém que seja bom a cuidar e a formar pessoas para viverem neste ambiente."

Planear qualquer eventualidade

É uma das perguntas mais frequentes de quem vai para a Antártida: o que levar na mala?

Para Laura, a resposta é “não muito”. Ela e os seus companheiros estavam limitados a duas malas cada um.

“Temos três camisolas, dois pares de calças, muitas meias, e isso é suficiente”, garante. “Depois, temos de enviar uma caixa com outras coisas pessoais. Temos de enviar previamente todos os produtos de higiene que precisamos e toda a gente traz um ou dois jogos de tabuleiro ou outras coisas para nos entretermos à noite.”

Os que vivem em acampamentos maiores e estão mais estabelecidos têm a vantagem de usar o que os residentes anteriores deixaram para trás. Em McMurdo, aponta Keri, havia uma biblioteca de livros e DVD, bem como equipamento, vestuário e outros objetos que poderiam ser úteis. Havia também material médico, desde ligaduras básicas e gaze a equipamento mais sério, como um desfibrilhador.

A eletrónica também tem sido útil quando se trata de fazer as malas para o fim do mundo. Laura podia levar o seu Kindle em vez de livros físicos para poupar espaço e, graças aos painéis solares, havia sempre energia suficiente para o manter carregado. Em Porto Lockroy tinham acesso à Internet graças ao Starlink, mas a equipa votou em grupo para não utilizar os telemóveis durante as refeições.

Os barcos insufláveis são uma das formas mais comuns de viajar ou levar mantimentos para as bases da Antártida. Keri Nelson

Chris acrescenta que também é um minimalista. Depois de algumas tentativas e erros durante as primeiras épocas, tem agora uma rotina de arrumação de malas muito bem planeada.

“Agora tenho o equipamento que gosto, não preciso levar tantas coisas. Tenho o par de jardineiras, o casaco quente e o chapéu que gosto. Por isso, quanto mais conheceres o teu equipamento, menos tens de pensar em ti, e fazes melhor o teu trabalho.”

Ainda assim, viver e trabalhar no local mais inabitável do planeta, como considera Chris, acarreta riscos.

Em campos maiores como McMurdo, há profissionais médicos treinados que podem fazer uma grande variedade de procedimentos. Mas se alguém precisar de uma operação mais séria ou de um tratamento urgente, terá de esperar por um navio ou barco que o leve até à cidade mais próxima - o que pode demorar entre dois a dez dias.

Chris dá vários exemplos de ferimentos graves ocorridos na Antártida. Num caso, um passageiro de um navio de cruzeiro caiu ao gelo e partiu o braço. Felizmente, o médico a bordo conseguiu engessar-lhe o braço e ele continuou a viagem nas duas semanas seguintes, como planeado. Num caso mais grave, um cientista russo - que também era médico - apercebeu-se de que o seu apêndice tinha rebentado e teve de fazer a operação de emergência a si mesmo.

“Ele sabia o que estava a fazer e sabia que ia morrer se não o fizesse. Por isso, tentou, conseguiu e sobreviveu", recorda Chris. “É isso que se faz quando não há outra opção.”

Deixar o gelo para trás

A Antártida pode lançar um “feitiço” às pessoas que a visitam. Tanto Keri como Chris dizem que não conseguem imaginar não estar lá, e Laura já estava a candidatar-se a uma segunda expedição na semana seguinte ao regresso da primeira. Entretanto, Keri lançou um podcast, Antarctica Did That For Me, para partilhar as suas experiências.

Num mundo globalizado e de ritmo acelerado, onde todos estão sempre ao telemóvel, a Antártida oferece uma oportunidade única de viver um estilo de vida diferente.

Mas as alterações climáticas já estão a afetar o sétimo continente, e não apenas através da diminuição dos glaciares. À medida que o planeta aquece, cada vez mais países que não faziam parte do Tratado da Antártida original, nomeadamente a China, estão a tentar reclamar parte do continente.

“Neste momento [a Antártida] está reservada por tratado para a ciência e a paz e para projetos que beneficiem a humanidade. Essa é uma das coisas que mais gosto no programa. É por isso que me dedico à Antártida", assume Keri.

“A Antártida está sempre a ser privada de coisas. Informação, gelo, recursos como focas, baleias e peixes", disse Klaus Dodds, professor de geopolítica na Universidade de Londres, à CNN em 2021. “A fragilidade da Antártida, para mim, representa a fragilidade do mundo em geral. Acho que a Antártica representa, em essência, não apenas o idealismo que o tratado representa, mas também a natureza suprema contraditória da humanidade em geral."

Para Keri, a Antártica dá-lhe uma sensação de paz que não consegue reproduzir em mais lado nenhum.

"Quando estou lá, sinto-me exatamente tão pequena quanto sou neste universo, nem mais pequena do que sou, mas também não maior."

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