André Ventura deixa aviso para as bases do Chega. “Enquanto eu for líder, não vamos proibir o casamento homossexual. Não quero tirar direitos a ninguém”

28 abr, 08:00
Chega celebra resultados das eleições

Numa nova fase, com grupo parlamentar, o Chega procura traçar um perfil distinto, para responder às preocupações de um eleitorado mais amplo. À CNN Portugal, André Ventura vinca que está a gerir sensibilidades na bancada mas que não cede em várias matérias, como um passo atrás no casamento homossexual

Quando, no final de 2018, surgiram as primeiras notícias sobre o partido que André Ventura estava a criar, houve uma ideia que se colou à imagem do partido: a de que queria “proibir o casamento homossexual”.

André Ventura procurou explicar que defendia um enquadramento jurídico diferente, recordando que a expressão “casamento” remete para uma tradição religiosa, onde essa união acontece apenas entre homens e mulheres. No caso dos homossexuais, dizia o fundador do partido, devia falar-se de uma união civil.

Mas a ideia de proibir o casamento homossexual ganhou adeptos entre as bases do Chega. Agora, com presença reforçada no Parlamento, André Ventura vinca mais uma vez que, nesta questão concreta, se diferencia de quem o apoia.

“Enquanto eu for líder do Chega, isso não vai acontecer [proibir o casamento homossexual]. Não penso que seja uma proposta que se enquadra naquilo que o Chega tem defendido. Defender o modelo de família tradicional não significa atacar outros modelos. Nenhuma proposta passará por atacar ou destruir qualquer outro modelo de família. Não quero tirar direitos a ninguém”, afirma agora numa conversa com a CNN Portugal.

No programa político com que o Chega se apresentou às legislativas de janeiro, não surge qualquer referência à homossexualidade. Lê-se apenas que o partido “respeita outros modelos diferentes de partilha de vida comum” e que considera “a família natural, baseada na relação íntima entre uma mulher e um homem”.

No programa político anterior, essa referência à homossexualidade era direta, com o partido a defender “o fim da promoção, pelo Estado, de incentivos e medidas que institucionalizem os casamentos entre homossexuais e a adoção de crianças por ‘casais’ homossexuais”.

Confrontado sobre essas vozes mais radicais no Chega, que insistem, entre outros, na proibição do casamento homossexual, o fundador do partido deixa o recado: “quem tiver propostas mais radicais, tem hipótese nos momentos eleitorais do partido”.

 

“Não diria moderado”, apenas diversificado

André Ventura chegou ao Parlamento como deputado único mas tem agora mais 11 deputados a fazerem-lhe companhia. “É diferente. Estava habituado a conjugar os esforços sozinhos”, conta André Ventura nesta conversa com a CNN Portugal.

Mais braços colocam o partido entre os mais produtivos nas iniciativas legislativas mas, numa análise ao conteúdo, percebe-se que na primeira fase não entraram propostas com o nível de polémica a que o Chega habitou os portugueses. Está o partido mais moderado? Ventura discorda.

“Não diria moderado. A nossa obrigação também é falar para outro tipo de eleitorado. Quando era um só, o meu pensamento e estilo eram conhecidos. Tinha tendência para focar em assuntos que domino mais, onde estou mais à-vontade”, afirma. Mas há bandeiras que não estão esquecidas, como a castração química de pedófilos reincidentes, tema a que André Ventura promete voltar ainda em 2022.

Entre as propostas apresentadas estão a pensão mínima para ex-combatentes, a reversão da extinção da SEF ou um subsídio para as forças de segurança.

Há um novo perfil de propostas que o Chega quer surfar nesta nova fase do Parlamento, para “falar para todos os tipos de eleitorados, para todos os tipos de questões”.

“Vamos voltar muito à carga com a questão fiscal”, traça André Ventura. Além de propostas para reduzir a progressividade do IRS, “em contraciclo com o PS”, o Chega quer acabar com o IMI, o imposto pago por quem é dono de uma casa.

Para já, o partido propôs a isenção do IMI durante o período do Plano de Recuperação e Resiliência, mas a meta seria acabar com este “imposto estúpido”, como o define André Ventura. Mas, antes de avançar, é preciso perceber como compensar a perda de receita em impostos para o Estado.

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