Mindfulness pode ser tão eficaz como a medicação para reduzir a ansiedade. Estudo revela resultados impressionantes

CNN , Zoe Sottile, CNN
20 nov, 11:00
Mindfulness (Pexels)

A meditação mindfulness poderá ser tão eficaz na redução da ansiedade como uma medicação comum, revela um novo estudo.

A investigação, publicada na “JAMA Psychiatry”, envolveu um grupo de 276 adultos com distúrbios de ansiedade não tratados. Metade dos doentes foi selecionada aleatoriamente para tomar 10 a 20 mg de Escitalopram, o genérico de Lexapro, um medicamento comum usado para tratar a ansiedade e a depressão. A outra metade foi colocada num curso de redução de stress com base no mindfulness de oito semanas.

Os resultados foram impressionantes. Ambos os grupos sofreram uma redução de cerca de 20% nos seus sintomas de ansiedade durante o período de oito semanas.

Elizabeth Hoge, a principal autora do estudo e diretora do Programa de Investigação de Distúrbios de Ansiedade do Centro Médico da Universidade de Georgetown, Estados Unidos, disse à CNN que espera que a investigação possa criar mais opções de tratamento para doentes com ansiedade.

"O Lexapro é um ótimo medicamento, prescrevo-o muito", disse. "Mas não é indicado para todos."

A meditação pode ser prescrita em vez da medicação para doentes que sofrem efeitos secundários graves ou têm alergia a ansiolíticos, por exemplo, disse Hoge. E a meditação também poderá ser um primeiro passo para as pessoas que têm ansiedade não tratada e são cautelosas com a medicação.

Mas a pesquisa não deve impulsionar os doentes a pararem de tomar a medicação sem consultar um médico. "Se alguém já está a tomar uma medicação, pode tentar fazer a meditação ao mesmo tempo", lembrou Hoge. "Se quiserem deixar de tomar a medicação, devem falar com o médico."

Pode haver fatores indeterminados que fazem com que alguns doentes respondam melhor à meditação. Hoge disse que, após a recolha de dados, os participantes tiveram a opção de experimentar o tratamento que não lhes tinha sido atribuído. Alguns doentes, que tinham sido designados para o grupo de meditação, descobriram que a medicação era realmente muito mais eficaz para eles, e vice-versa, segundo Hoge.

Hoge diz que pesquisas adicionais poderiam explorar "quais são os indicadores de resposta nos diferentes tratamentos", estudando quais os doentes que beneficiam mais da meditação em oposição à medicação. Os médicos poderiam então prescrever diferentes tratamentos com base nos perfis dos doentes.

E espera que a investigação leve mais companhias de seguros a cobrir cursos de meditação como um tratamento para a ansiedade.

"Normalmente, as companhias de seguros estão dispostas a pagar por algo quando há pesquisas que sustentam a sua utilização", disse. "Se sabem que é tão eficaz como o medicamento que pagam, porque não pagam por isto também?"

Os doentes designados para o grupo de meditação foram convidados a frequentar uma aula de meditação mindfulness presencial uma vez por semana. Cada aula tinha cerca de duas horas e meia de duração e era realizada numa clínica local. Também lhes foi pedido que meditassem sozinhos durante cerca de 40 minutos por dia.

Hoge comparou o compromisso de tempo com "uma aula de exercício ou uma aula de arte".

Mas, de acordo com Joseph Arpaia, um psiquiatra de Oregon especializado em mindfulness e meditação, o compromisso de tempo diário é provavelmente demasiado para muitos doentes que sofrem de ansiedade.

"Dizer às pessoas que estão sobrecarregadas que devem passar 45 minutos por dia a meditar é o 'eles que comam bolo' da psicoterapia", escreveu numa resposta à publicação de Hoge, também publicada na “JAMA Psychiatry”.

Arpaia diz que tem trabalhado para encontrar métodos de mindfulness menos intensos para ajudar os doentes a gerir a sua ansiedade. Uma técnica que ensina chama-se "reset da respiração" que ajuda os doentes a acalmarem-se ao longo de uma única respiração.

Mas, apesar das suas reservas, "é sempre interessante ver que a meditação resulta, e resulta tão bem como a medicação", disse. "Tenho esperança de que as pessoas percebam que há outras coisas para além da medicação que podem surtir efeito."

"Também tenho esperança que percebam que sentir bem a respiração nos deixa relaxados e ótimos, contudo, nem todos se sentem relaxados. Têm de encontrar algo que os faça relaxar como ler um livro, dar um passeio, jardinagem", indicou.

Como funciona o mindfulness

Os doentes atribuídos ao grupo de meditação participaram num programa específico chamado redução do stress com base no mindfulness, desenvolvido pela primeira vez por Jon Kabat-Zinn na década de 70. O programa é secular, mas baseado em alguns ensinamentos budistas.

"É como uma aptidão que se pratica", disse Hoge. "As pessoas aprendem a ter uma relação diferente com os seus pensamentos. Na prática, treinamos as pessoas para esquecerem os pensamentos, para serem pacientes e gentis com os pensamentos e não lhes darem importância."

A "prática de fazer isso vezes sem conta permite que as pessoas criem um pouco de distância entre si e os seus pensamentos", afirmou.

Os doentes não devem esperar que a meditação – ou a medicação – elimine completamente a sua ansiedade, de acordo com Hoge. "É normal sentir ansiedade", disse. "Mas conseguimos reduzi-la um pouco."

"As pessoas pensam que a meditação é difícil, que temos de manter a mente sem pensamentos", disse. "Não é esse o caso. Estamos a meditar mesmo que estejamos a ter pensamentos. A intenção de meditar já conta."

E Arpaia diz que a meditação pode ajudar a interromper os feedback loops que fomentam a ansiedade.

"A ansiedade tende a ser algo que se alimenta de si mesmo", disse. "O que acontece é que uma pessoa fica ansiosa, o que afeta as suas capacidades cognitivas e sociais. À medida que a pessoa começa a sentir-se mais afetada, isso aumenta a ansiedade."

A ansiedade não é o único desafio que a meditação pode ajudar os doentes a enfrentar.

Um estudo publicado no “American Journal of Nursing” em 2011 apurou que um programa de mindfulness de oito semanas era tão eficaz como os antidepressivos para prevenir uma reincidência de depressão.

Hoge disse que diferentes programas de meditação poderão ser apropriados para ajudar a tratar a depressão e TDAH, entre outras.

"Acho que isto é muito promissor", disse.

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