Especialistas norte-americanos recomendam rastreio da ansiedade a partir dos 8 anos e da depressão a partir dos 12

CNN , Naomi Thomas
22 out, 16:00
Crianças, saúde mental, ansiedade. Foto: LightFieldStudios/iStockphoto/Getty Images

Entre 2016 e 2019, cerca de 5,8 milhões de crianças foram diagnosticadas com ansiedade e aproximadamente 2,7 milhões foram diagnosticadas com depressão no Estados Unidos

Pela primeira vez, o Grupo de Trabalho dos Serviços Preventivos dos EUA (USPSTF) recomendou o rastreio da ansiedade em crianças a partir dos 8 anos.

Nas suas recomendações finais, publicadas na terça-feira, na revista médica JAMA, o Grupo de Trabalho também apela ao rastreio da depressão em crianças a partir dos 12 anos, em conformidade com as recomendações de 2016.

Ambos os conjuntos de recomendações se aplicam a crianças que não têm uma doença de saúde mental diagnosticada e que não apresentam sintomas reconhecidos de ansiedade ou depressão.

Os membros ponderaram recomendações para o rastreio do risco de suicídio em crianças e adolescentes, mas não existem evidências suficientes sobre os seus perigos e benefícios.

“O Grupo de Trabalho analisou as evidências sobre o rastreio da ansiedade, da depressão e do risco de suicídio para prestar aos profissionais dos cuidados primários orientações sobre como podem apoiar a saúde mental das crianças e dos adolescentes”, afirmou Martha Kubik, membro do Grupo e professora da School of Nursing do College of Health and Human Services, na George Mason University, num comunicado de imprensa. “Felizmente, o rastreio da ansiedade e da depressão em crianças mais velhas consegue identificar estes quadros para que as crianças e os adolescentes possam receber os cuidados de que necessitam”.

O USPSTF é um grupo de especialistas médicos e em prevenção de doenças independentes cujas recomendações ajudam a orientar as decisões dos médicos.

De acordo com a Agência americana de prevenção e controlo de doenças (US Centers for Disease Control and Prevention), entre 2016 e 2019, cerca de 5,8 milhões de crianças foram diagnosticadas com ansiedade e aproximadamente 2,7 milhões foram diagnosticadas com depressão.

“O Estudo Nacional de Saúde Infantil de 2018-2019 [National Survey of Children’s Health (NSCH)] verificou que 7,8% das crianças e dos adolescentes com idades dos 3 aos 17 anos tinham um distúrbio de ansiedade atual”, afirma a nova recomendação. “Os distúrbios de ansiedade na infância e na adolescência estão associados a uma maior probabilidade de distúrbio de ansiedade ou depressão no futuro”.

Além da ausência de evidências relativas ao rastreio do risco de suicídio, o USPSTF afirmou que não dispõe de evidências suficientes para elaborar uma recomendação para o rastreio da ansiedade em crianças com 7 anos ou menos ou para o rastreio da depressão em crianças com 11 anos ou menos.

“O Grupo de Trabalho preocupa-se profundamente com a saúde mental de todas as crianças e adolescentes. Infelizmente, existem lacunas nas evidências fundamentais relativamente ao rastreio da ansiedade e da depressão em crianças mais pequenas e ao rastreio do risco de suicídio em todos os jovens”, afirmou Lori Pbert, psicóloga clínica e professora na Chan Medical School da Universidade de Massachusetts, num comunicado de imprensa. “Apelamos a que seja realizada mais investigação nestas áreas críticas para que possamos fornecer aos profissionais de saúde formas baseadas em evidências para manterem os seus pacientes jovens saudáveis”.

O USPSTF também referiu que não encontrou evidências sobre os intervalos de rastreio adequados para a depressão ou para a ansiedade.

No mês passado, o Grupo de Trabalho publicou recomendações preliminares que, pela primeira vez, afirmavam que deveriam ser efetuados rastreios da ansiedade em adultos com menos de 65 anos.

Nessa ocasião, Pbert disse à CNN que foi dada prioridade a uma recomendação relativa à ansiedade “devido à sua importância na saúde pública, principalmente com o maior destaque que tem sido dado à saúde mental nos últimos anos, a nível nacional”.

Num editorial publicado juntamente com as novas recomendações para as crianças, na terça-feira, os médicos do Ann and Robert H. Lurie Children’s Hospital, Weill Cornell Medicine e da Universidade de Cincinnati afirmaram que o relatório de evidências fornecido com as recomendações não oferece orientações específicas ou acionáveis sobre como o rastreio deve ocorrer em contextos de cuidados primários e que existem questões pendentes relativamente ao rastreio.

No entanto, “embora sejam necessários esforços de investigação futura para resolver as lacunas no conjunto de evidências, as evidências disponíveis parecem sustentar que se avance com a implementação do rastreio e do tratamento de distúrbios de ansiedade em contextos de cuidados primários pediátricos”, escreveram.

Chamam a isto “muito boas notícias”, afirmando que a maioria dos distúrbios psiquiátricos, incluindo os distúrbios de ansiedade, começam durante a infância e a adolescência.

“O rastreio em contexto de cuidados primários pediátricos é importante para a identificação precoce e permite um tratamento mais precoce e eficaz para reduzir o sofrimento, a incapacidade e a morbilidade associados a um atraso no reconhecimento e no tratamento”, afirmou.

Noutro editorial publicado na terça-feira, na revista JAMA, o Dr. Oscar Bukstein do Boston Children’s Hospital abordou as recomendações relativas à depressão e ao risco de suicídio: “O comportamento suicida encontra-se entre as emergências médicas mais críticas para os adolescentes” e o rastreio do suicídio é a “pedra angular da prevenção do suicídio”.

“Não se trata de uma coincidência que o USPSTF tenha considerado evidências para o rastreio do suicídio e da depressão no mesmo Relatório de evidências e Revisão sistemática atualizados”, escreveu. “Dada a relevância da depressão como fator de risco para o comportamento suicida e o valor do rastreio da depressão, conforme sustentado pela recomendação do USPSTF, o rastreio do suicídio no âmbito do rastreio da depressão poderia cumprir ambas as tarefas de rastreio ao mesmo tempo”.

Bukstein também afirmou que as recomendações do Grupo de Trabalho sugerem que existem muito mais perguntas a fazer que podem ser respondidas com as evidências atuais.

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