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Laura gastou 1.280 euros para ver Taylor Swift quatro vezes, só este ano. O que explica o fenómeno? "Já não é só uma artista, é uma religião"

19 mai, 18:00
Taylor Swift (AP)

Há quem percorra quilómetros ou gaste muito dinheiro em bilhetes. Tudo isto para conseguir assistir a uma atuação da personalidade do ano de 2023, a cantora Taylor Swift. Na base do fenómeno estão, de acordo com os especialistas, fatores como a identificação com os temas abordados na letra das músicas

Laura Limede conheceu duas músicas da cantora Taylor Swift quando tinha 11 anos e a admiração começou aí. Hoje, com 26, a cantora é o seu “maior ídolo” e até aprendeu a tocar guitarra por causa dela. Não vai perder a estreia em Portugal e até comprou bilhete para as duas datas. Mas tal não é suficiente e vai voar também para Londres no final de junho, onde vai assistir aos dois espetáculos que lá vão ter lugar.

Foram cerca de 1.280 euros em bilhetes. Dois deles - um para o Estádio da Luz e outro para o londrino Estádio Wembley - são VIP. “Comprei-os para conseguir ir lá para a frente. Estes bilhetes dão entrada uma hora mais cedo e quero ficar mais à frente”, explica, admitindo que mesmo assim quer ir para a fila "de madrugada".

É Swiftie (o nome atribuído aos fãs de Taylor Swift) “desde o início”, quando em 2006 conheceu duas músicas - “A Place in This World” e “Teardrops on My Guitar” - através de uma prima mais velha, e já não é a primeira vez que assiste a um concerto seu. “Já a vi há uns anos, em março de 2011, em Madrid”, recorda, contando que ficou “mesmo obcecada” quando teve oportunidade de comprar o seu primeiro disco da cantora - "Fearless" (o segundo álbum). 

Como Laura, há muitos outros fãs que percorrem quilómetros e gastam o que a production manager, numa empresa de social media e marketing britânica a partir de Portugal, reconhece ser um “absurdo” de dinheiro só para a poder ver.

Laura Limede foi a Madrid assistir a um concerto da cantora Taylor Swift, no âmbito da Speak Now Tour, em 2011 (Cortesia Laura Limede)

O que explica o fenómeno em que se tornou a cantora Taylor Swift, que move milhares de fãs para onde quer que vá e que cujo último álbum bateu o recorde do disco mais reproduzido do Spotify num só dia? Para os especialistas, há várias explicações (e não é tudo marketing).

Das botas aos chapéus de cowboy sem esquecer a guitarra sempre presa ao peito, a cantora norte-americana tornou-se inicialmente a "princesa" da música country - um meio dominado sobretudo por homens e que é “um fenómeno muito grande nos EUA”. “Ela começa por ser artista country. Constrói a sua base aí, já muito sólida e grande nessa fase", explica o crítico de música Davide Pinheiro, garantindo que "antes de ser uma artista do mundo foi uma artista americana”.

Daí a cantora evoluiu para “uma fase mais pop”, que "não chocou o público" e de onde saíram êxitos como a música “Shake It Off”. Nesta fase, “alarga a sua base”, com as lantejoulas e os looks arrojados a substituir as botas de cowboy e as típicas roupas dos “rodeos”. A “fase mais adulta”, como lhe chama o autor da Mesa de Mistura, só surge nos anos mais recentes. “Desde que trabalhou com o produtor dos The National, é a fase adulta dela. Os álbuns são mais sérios, não sei se é a palavra correta, mas pelo menos mais adultos são”, garante.

Do country ao pop, a cantora já passou diversas eras, o que motivou o nome da mais recente digressão - The Eras Tour. “Embora tenha passado por fases diferentes, nunca houve uma rutura. Isso permitiu que o público desde o início nunca a tenha largado. Pelo contrário, foi sempre alargando o seu espectro e nunca o perdeu. O público evoluiu com ela e ela com o público”, afirma.

A par desta consistência e evolução, a comunicação parece ter também um papel central no acompanhamento quase “religioso” do fenómeno Taylor Swift, nomeada personalidade do ano em 2023. Para o crítico musical, a comunicação é “um dado fundamental em qualquer fenómeno de massas, em que se batem recordes”. A música continua a ser “o veículo principal”, mas já não se fica por aí.

“O marketing é crucial para explicar o que está a acontecer - não acontece só com ela. A questão das redes e do streaming, do influenciar o algoritmo ajuda a explicar o fenómeno”, garante. Esta capacidade de chegar às pessoas e de influenciar extravasa todo o mundo musical e já chega a domínios importantíssimos da vida pública.

“Para os fãs já não é só uma artista, é uma religião. A sua dimensão é quase como se fosse um continente e isso vê-se na capacidade que terá de influenciar as eleições [dos EUA]”, constata Davide Pinheiro. “A Taylor Swift está para 2024 como a Oprah [Winfrey] esteve para o tempo do Obama. Ganhou uma influência que transcende a música”.

Taylor Swift na 66ª edição dos Grammy (Epa/Allison Dinner)

As letras das canções são um dos outros fatores base para a criação deste fenómeno, tendo até incentivado à criação de cursos dedicados a analisá-las, como aconteceu na Bélgica e em várias universidades norte-americanas. E porquê?

“As músicas dela são tão relacionáveis, porque abordam temas universais e experiências pelas quais todos passam. A escrita dela é muito visual e específica e conseguimos relacionar-nos com isso, porque vemos a nossa própria vida. Parece que está a cantar sobre uma coisa que nos aconteceu”, afirma a fã Laura Limede, classificando Taylor Swift como “uma das mais competentes e diferentes mulheres songwriters” da sua geração.

Para os especialistas, este é de facto um fator determinante. “Parece básico, mas o facto de a música se ter tornado cada vez mais emocional e de tocar as pessoas também explica o fenómeno. A poesia da Taylor Swift consegue ser muito emocional e tocar principalmente no público feminino, porque as letras falam bastante sobre isso, sobre desgosto, sobre reparação”, diz o crítico musical.

A psicóloga Catarina Lucas acrescenta que a artista norte-americana consegue estabelecer uma “conexão emocional” com os fãs através das letras que “contam histórias, o principal impulsionador do seu sucesso”. “As letras são um fator de grande relevância que é a identificação pessoal. Quase toda a gente se consegue identificar com a letra de uma das suas músicas”, afirma, referindo que a “transparência e a aparente autenticidade” ajudam a “criar conexão com os fãs, porque parece que estar mais perto de cada fã”.

E, de acordo com Davide Pinheiro, até há um equivalente em Portugal: a cantora Carolina Deslandes. “Comparando apesar de numa escala diferente, é alguém em Portugal que é comparável, que é fenómeno paradigmático. Apesar de ser posterior, é um fenómeno digital, das redes sociais e tem a ver com a ideia do feminino, das causas - não é música só”.

A cantora Taylor Swift e o namorado Travis Kelce, jogador de futebol americano (Associated Press)

Se a artista portuguesa encontra alguma “resistência” no nosso meio, a cantora Taylor Swift depara-se com isso numa escala ainda maior. Para o critico musical, isto torna-se um fator decisivo na criação de um fenómeno. “Quando os fenómenos se tornam tão massificados, o facto de haver alguma resistência alimenta-os. Hoje em dia é difícil dizer que há algo consensual e haver um público que não gosta da Taylor Swift, que não valida o fenómeno contribui. Criar fraturas expostas, uma divisão traz muita gente do lado de quem a defende”, observa.

revista norte-americana Paste viu-se forçada a ocultar o nome do autor de uma crítica ao novo álbum de Taylor Swift, “The Tortured Poets Department” - que avaliou com um 3,6 em 10. Em causa estão “ameaças de violência” dirigidas a um jornalista do mesmo meio de comunicação, que, em 2019, publicou uma crítica ao anterior disco, “Lover”, por parte de fãs da cantora.

“Isto mostra bem como o fenómeno está massificado, mostra o lado de militância que alimenta o fenómeno. Torna-o sólido e massificado”, considera Davide Pinheiro.

A cantora estreia-se nos palcos portugueses este ano, com dois concertos no Estádio da Luz - um a 24 de maio e outro no dia seguinte. A digressão europeia arrancou a 9 de maio em Paris, onde abriu também duas datas. E a União Europeia até lhe fez um pedido de ajuda: incentivar os mais novos a votar nas eleições de junho. “Ninguém consegue mobilizar melhor os jovens do que outros jovens. São os jovens que podem mobilizar os jovens a participar, mais do que os comissários europeus, é assim que funciona”, disse Margaritis Schinas, vice-presidente da Comissão Europeia, referindo a grande mobilização às presidenciais norte-americanas que a artista motivou.

Porque é que idolatramos outra pessoa?

Taylor Swift é o “único ídolo” de Laura, que até fez uma tatuagem em homenagem à cantora. “O meu único ídolo tinha de ser alguém bom no que faz, mas também alguém que é boa pessoa, que transmita valores com os quais me identifico - quase como que uma formação em cima da educação que os meus pais me deram”, reconhece, sublinhando a "autenticidade" e "humildade" da artista.

A jovem de Torres Novas explica ainda que a cantora dá "muito" aos fãs e que tal só a faz admirar ainda mais Taylor Swift. “Muitos artistas não ligam em dar de volta o que os fãs lhes dão. E a Taylor Swift exagera em tudo o que são preços e nós damos-lhe muita dedicação emocional e financeira, mas ela dá em retorno muita coisa. Não há discurso de prémios em que não fale dos fãs e essa dedicação faz-nos sentir vistos e que aprecia o esforço que fazemos para seguir a música dela”, garante.

Laura tatuou uma bota de cowboy, um símbolo da era country da artista (Cortesia Laura Limede)

Há quem idolatre artistas. Há quem idolatre o Papa. E até quem idolatre a própria mãe. Fazer de uma pessoa um ídolo significa “uma devoção intensa” e pode ter na sua base diversos fatores, como a “identificação”, a “carência emocional” ou um “sentimento de pertença”, como explica a psicóloga Catarina Lucas.

“Idolatrar alguém significa adorar de uma maneira excessiva, atribuindo-lhe qualidades sobre-humanas ou uma devoção intensa que muitas vezes ultrapassa os limites saudáveis”, diz, explicando que tal pode acontecer em “diferentes contextos” - “admirar uma celebridade, líder político, religioso ou até mesmo alguém próximo, como um membro da família”.

A idolatria é fruto de “uma variedade de motivos psicológicos, sociais e culturais”. Pode surgir, de acordo com a psicóloga, pela “necessidade de identificação”, em que “idolatramos aqueles que possuem características que desejaríamos ter”, mas também pela “necessidade de segurança e orientação para a nossa vida, idolatrando pessoas que consideramos ser modelos a seguir”.

A “carência emocional” também pode ser um fator em conta, devido “à inexistência de conexões significativas na vida da pessoa”, bem como as “pressões sociais para seguir determinadas normas, grupos ou ideais”, de modo a criar “um sentimento de pertença”.

Esta adoração pode, no entanto, concretizar-se numa “idealização irrealista da pessoa”, alerta Catarina Lucas. A psicóloga alerta para os malefícios deste facto “tanto para o admirador quanto para a própria pessoa idolatrada”, uma vez que, segundo diz, “pode distorcer as relações e expectativas”.

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