Artistas de rap estão a "minimizar as mulheres e perpetuar uma mentalidade machista". Natália Fialho é uma das finalistas do projeto She Raps que pretende "dar palco a mais artistas mulheres"

CNN Portugal , MGR
24 jun, 22:46
She Raps

Portugal entrou, pela primeira vez, no programa piloto para dar visibilidade às rappers. Esta segunda-feira foram conhecidas as dez artistas que vão disputar por um dos três lugares para atuar no principal festival europeu de hip-hop, Les Ardentes, na Bélgica.

Natália Fialho, de 40 anos, tem o nome artístico de Lady N e começou a escrever as primeiras rimas quando frequentava o 8.ºano, depois de formar um grupo chamado "Black and White". Agora, é uma das dez finalistas em Portugal do projeto piloto She Raps - um programa com apoio da UE que pretende ser “a primeira incubadora europeia dedicada à emergência e profissionalização de mulheres rappers", segundo é explicado no Instagram.

Além de Portugal, onde tem como parceiro a Skoola, uma academia de música urbana, também a França, Croácia e Bélgica fazem parte dos países participantes. Esta segunda-feira foram conhecidas o nomes das 10 finalistas portuguesas, que vão agora fazer uma formação, para depois em setembro subirem ao palco para se escolherem as três finalistas que vão fazer uma digressão Europeia.

Lady N, que ainda no secundário participou no álbum "Só compreende quem sente" como Angel Lady N. garante que tem a esperança de conseguir ser uma das vencedoras.  

Lady N é uma das dez finalistas portuguesas
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E apesar de considerar que a "cultura hip-hop, na essência daquilo que representa, valoriza as mulheres", garante que há um caminho a percorrer na discrepância de géneros. Segundo Natália Fialho, alguns artistas "banalizam de uma forma sexista a imagem da mulher" nas músicas que escrevem, acabando por "minimizar as mulheres e perpetuar uma mentalidade machista". A rapper portuguesa afirma que, as pessoas que ouvem "nem se apercebem e acham que isso é normal".

Nos tops de vendas da Europa apenas 3% dos artistas são do sexo feminino

A disparidade entre homens e mulheres no mundo do rap tem sido evidente nos tops de vendas da Europa, onde apenas 3% dos artistas são do sexo feminino, aponta um estudo feito pelo projeto She Raps. Em países como França, Portugal, Croácia e Bélgica - que participam no programa piloto - , dentre as 68 músicas no top do Spotify, apenas duas são interpretadas por mulheres.

Foi em resposta a essa realidade que em 2021 surgiu o projeto pioneiro na Europa, o She Raps, com o objetivo de profissionalizar e promover mulheres rappers, permitindo uma progressão mais rápida nas respetivas carreiras. Em Portugal foi lançado apenas este ano.

Mariana Duarte Silva, diretora da Skoola (parceiro português do She Raps), explica à CNN Portugal a importância do projeto para a indústria musical portuguesa como "uma ferramenta essencial de formação e networking para as participantes".

"Sabemos que um dos maiores problemas na maioria do sector cultural (e não só) é a sub-representatividade de género e de outras minorias, pelo que dar espaço, formação e palco a mais artistas mulheres não resolve o problema de fundo, mas contribui em grande escala para uma tentativa de equilíbrio, que é fundamental para o mundo", refere. 

Até à data, o programa reuniu mais de 30 mulheres rappers, várias das quais iniciaram uma carreira na música rap. Na edição deste ano, 28 rappers espalhadas por Portugal, França, Bélgica e Croácia, vão receber formação durante três meses.

Entre as finalistas portuguesas estão ainda: Mariana MarquesSusana DelgadoMatilde Aviz Madeira, Isabel RamosFrancisca Feliciano, Sara MatiasCynthia RamosLeonor Domingos e Vanessa Andrade.

Para a seleção das dez finalistas, as jovens enviaram um videoclipe com uma música escrita pelas próprias e um vídeo de apresentação. Ao todo foram feitas 50 inscrições, "desde Guimarães a Loulé”, conta Mariana Duarte Silva.

Em Portugal, a iniciativa tem recebido feedback positivo, inclusive de homens, que, de acordo com a diretora da Skoola, “reconhecem a enorme lacuna na formação e nos programas disponíveis para mulheres”.

Próximas etapas contam com formações e digressão europeia

No dia 22 e 26 de julho, e de 2 a 6 de setembro as artistas vão estar em formação. Entre os formadores e convidados estão Maze, Marta Ren e Manon Marques para treino vocal, Piny e Baronesa para movimento e palco, Carla Menitra para contextualização da sub-representatividade de género na música e ainda Sam the Kid, Blaya, Bruno Guichon e Muleca XIII. 

"No dia 5 de setembro, a rapper Capicua vem partilhar a sua história e trabalhar rimas com o grupo", explica a responsável da Skoola.

No dia 6 de setembro as dez selecionadas vão subir ao palco para uma seleção final na qual três das dez rappers ganham a oportunidade de participar numa digressão europeia, com datas na Bélgica, França e Portugal. A digressão inclui uma atuação no principal festival europeu de hip-hop, Les Ardentes.

No final, as três apuradas vão para a Croácia fazer uma residência artística em 2025 e têm a oportunidade de produzir uma música e um videoclipe em conjunto com as outras finalistas dos países participantes.

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