Não dormir o suficiente pode prejudicar o seu sistema imunitário - e desencadear inflamações

CNN , Sandee LaMotte
2 out, 09:00
Não dormir o suficiente pode prejudicar o seu sistema imunitário e desencadear inflamações (CNN)

Um novo estudo mostrou que a privação crónica do sono num pequeno grupo de adultos saudáveis aumentou a produção de células imunitárias ligadas à inflamação, além de alterar o ADN das mesmas células. 

“Não só o número de células imunitárias aumentou, como também a ativação e a programação dessas células podem ser feitas de uma maneira diferente, no final das seis semanas de restrição do sono”, disse o coautor do estudo Cameron McAlpine, professor-assistente de Cardiologia e Neurociência da Faculdade de Medicina Icahn de Mount Sinai, em Nova Iorque. “Juntos, esses dois fatores podem predispor alguém a doenças como as doenças cardiovasculares.” 

É necessária uma certa quantidade de inflamação do sistema imunitário para o corpo combater as infeções e curar as feridas, mas um sistema imunitário hiperativo pode ser prejudicial e levar ao aumento do risco de doenças autoimunes e doenças crónicas, dizem os especialistas. 

O estudo foi publicado a 21 de setembro no “Journal of Experimental Medicine”. 

“Este trabalho está em linha com as opiniões neste campo de que a restrição do sono pode aumentar o risco de diabetes tipo 2 e de hipertensão”, disse Steven Malin, professor associado do departamento de Cinesiologia e Saúde da Universidade Rutgers, em Nova Jérsia. 

“Concretamente, estas descobertas apoiam as ideias de que devemos desenvolver bons hábitos de sono, para que, na maioria das vezes, consigamos dormir adequadamente”, acrescentou Malin, que não esteve envolvido no estudo. 

Um bom sono cura 

Para ser saudável, o corpo precisa de passar por quatro fases de sono várias vezes na mesma noite. Durante a primeira e a segunda fase, o corpo começa a diminuir os seus ritmos. Ao fazê-lo, prepara-nos para a terceira fase - um sono profundo e de ondas lentas, quando o corpo está literalmente a restaurar-se ao nível celular - corrigindo os danos do desgaste do dia e consolidando as memórias no armazenamento de longo prazo. 

O sono de movimento rápido dos olhos, chamado REM, é a fase final durante a qual sonhamos. Os estudos mostraram que a falta de sono REM pode levar a um défice de memória e a maus resultados cognitivos, bem como a doenças cardíacas e outras doenças crónicas, e até à morte precoce

Por outro lado, anos de pesquisa descobriram que o sono, especialmente o tipo mais profundo e curativo, impulsiona a função imunitária. 

Como cada ciclo de sono dura cerca de 90 minutos, a maioria dos adultos precisa de sete a oito horas de sono relativamente ininterrupto para alcançar um sono reparador, segundo os Centros de Controlo e Prevenção de Doenças dos EUA

Aumento dos sinais de inflamação 

O estudo foi pequeno e envolveu apenas 14 pessoas jovens e saudáveis, sem problemas de sono. Mas a duração do estudo foi bastante longa, o que lhe deu força, disse McAlpine. 

“Muitos estudos do sono duram um dia, dois dias, talvez uma semana ou duas”, disse. “Mas são muito poucos os que analisam a influência do sono num período longo de seis semanas, que foi o que fizemos.” 

Todos os participantes do estudo usaram acelerómetros de pulso, o que permitiu aos investigadores rastrear a qualidade e a duração do sono a cada período de 24 horas. Durante as primeiras seis semanas, cada participante do estudo dormiu durante as sete a oito horas que o CDC recomenda para adultos. Nas seis semanas seguintes, reduziram o sono em 90 minutos a cada noite. 

No final de cada ciclo de seis semanas, o sangue foi colhido de manhã e à noite e analisado quanto à reatividade das células imunitárias. Nenhuma mudança negativa foi encontrada nas pessoas que dormiram a quantidade de horas adequada. No entanto, depois de os participantes do estudo terem passado seis semanas com restrições no sono, as análises ao sangue encontraram um aumento de um certo tipo de célula imunitária, quando o sangue foi colhido à noite. 

“Este problema da restrição do sono foi muito específico num tipo de célula imunitária chamada monócito, enquanto as outras células imunitárias não reagiram”, disse McAlpine. “Isso é um sinal de inflamação.” 

As análises ao sangue também detetaram alterações epigenéticas dentro das células imunitárias dos monócitos, após o longo período de privação do sono. Os epigenes são proteínas e substâncias químicas que parecem sardas dos genes, aguardando para dizer ao gene “o que fazer, onde fazê-lo e quando fazê-lo”, de acordo com o Instituto Nacional de Investigação do Genoma Humano. O epigenoma literalmente liga e desliga os genes, muitas vezes com base em estímulos ambientais e comportamentos humanos, como fumar, ter uma dieta inflamatória ou sofrer uma privação crónica de sono. 

“Os resultados sugerem que os fatores que podem modificar a expressão nos genes de proteínas relacionadas com a inflamação, conhecido como epigenomas, são modificados pela restrição do sono”, disse Malin. “Esta modificação aumenta o risco de as células imunitárias serem mais inflamatórias por natureza. O estudo não realizou testes funcionais ou clínicos para confirmar o risco de doença, mas estabeleceu as bases para estudos futuros considerarem estes mecanismos.” 

Se os epigenes podem ser ativados e desativados, então, a mudança na função imunitária permaneceria depois de os participantes do estudo voltarem a dormir noites inteiras de sono? O estudo foi incapaz de investigar esse resultado em humanos. Mas os investigadores fizeram estudos adicionais em ratos que produziram resultados interessantes. 

As mudanças são permanentes? 

A atividade imunitária nos ratos privados de sono espelhou a dos humanos - a produção de células imunitárias aumentou e as mudanças epigenéticas foram observadas no ADN das células imunitárias. Nesses estudos, os ratos tiveram 10 semanas de bom sono antes de serem novamente testados. 

Apesar de dormirem o suficiente durante um longo período de tempo, os investigadores descobriram que as alterações no ADN permaneceram e o sistema imunitário continuou a sua sobreprodução, tornando os ratos mais suscetíveis a inflamações e a doenças. 

“As nossas descobertas sugerem que a recuperação do sono não consegue reverter totalmente os efeitos do sono de má qualidade nos ratos”, disse McAlpine, acrescentando que o seu laboratório continua a trabalhar com pessoas para ver se esse resultado se traduzirá nos humanos. (Nota: os estudos com ratos muitas vezes não podem ser equiparados.) 

“Este estudo começa a identificar os mecanismos biológicos que ligam o sono e a saúde imunitária, a longo prazo. Isso é importante porque é mais uma observação essencial de que o sono reduz a inflamação e, inversamente, a interrupção do sono aumenta a inflamação”, disse o principal autor do estudo Filip Swirski, diretor do Instituto de Investigação Cardiovascular do Icahn em Mount Sinai, num comunicado. 

“Este trabalho sublinha a importância de os adultos dormirem consistentemente entre sete a oito horas por dia, para ajudar a prevenir inflamações e doenças, especialmente naqueles com condições médicas subjacentes.” 

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