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Salvar Almaraz!

29 jun, 19:55

Nasci e cresci em Almeirim, junto ao Tejo. Muitos me perguntam se é margem sul ou norte. Eu costumo brincar e digo “durante as cheias, é margem dentro”.

Para quem vive junto ao Tejo, existiu sempre o fantasma de Almaraz. Décadas de temor pelo que possa acontecer na central nuclear. Ao crescer, sempre me interessei em chegar ao fundo dessa e de outras questões relacionadas com o modo como o universo funciona. Talvez tenha sido isso que me levou a estudar física. À medida que mais aprendia sobre o assunto, mais me apercebia que a narrativa sobre a insegurança da energia nuclear não podia estar mais longe da verdade. A energia nuclear é uma fonte de eletricidade de baixíssimas emissões de carbono e tão segura como a energia solar e eólica.

A localização das cinco centrais nucleares Espanholas em funcionamento: Almaraz, Trillo, Cofrentes, Ascó e Vandellós. A central de Garoña foi definitivamente encerrada em 2017. Imagem cortesia de World Nuclear Association. 

A central de Almaraz é composta por dois reatores nucleares de água ligeira pressurizada (Pressurized Water Reactor, PWR), o design de reactor nuclear mais comum no mundo. Os seus dois reactores, Almaraz-1 e Almaraz-2, ambos com 1GW de potência(Portugal consome aproximadamente 5GW no período noturno), têm performances de classe mundial e modernizações constantes. A indústria nuclear espanhola é referência no seu campo. No seu histórico conta com pequenos incidentes(eventos contidos dentro da central) na escala de acidentes da IAEA, mas sem vítimas ou feridos a assinalar.

Num reactor de água pressurizada, a água em contacto com o combustível nuclear encontra-se num circuito fechado, nunca entrando em contacto com a água utilizada para arrefecimento, como é o caso do Tejo. Não há libertação de material radioativo para a biosfera.

Almaraz é o pilar sócio-económico da região. A população local é altamente favorável à presença da central nuclear. De tal maneira, que se organizam manifestações de apoio à continuidade da central. Os partidos Extremeños espanhóis são também favoráveis à continuidade da operação. Neste assunto, tanto o PP como o PSOE locais estão de acordo; a central deve continuar a operar. Enquanto que o governo de Sánchez continua focado no encerramento do nuclear espanhol, as delegações locais do seu partido ou se demonstram contra ou céticas.

À indústria nuclear espanhola, que garante que as suas centrais poderão operar perfeitamente por muitos anos, foi-lhe negada um lugar na mesa para planear o sistema energético do país. Desligar as centrais nucleares espanholas pode resultar em apagões e pôr seriamente à prova a resiliência da rede Ibérica. Mesmo membros da indústria renovável espanhola se opõem ao fecho indiscriminado das centrais. Outros estudos apontam ainda que Espanha necessitará de aumentar a sua frota nuclear, em vez de a diminuir, para garantir uma maior penetração de energia renovável.

Em todos os locais do mundo onde centrais nucleares foram encerradas, uma de duas coisas aconteceu. Ou foram substituídas por combustíveis fósseis e viram as emissões de combustíveis fósseis aumentar, mostrando mais uma vez que políticas com base ideológica resultam invariavelmente em monumentais tiros nos pés. Ou se assiste a uma desindustrialização sem precedentes, como é o caso alemão, que a pouco e pouco vê a sua indústria intensiva em energia migrar para China ou Estados Unidos. O encerramento precoce de centrais nucleares não é a causa única dessa desindustrialização, mas é cabeça de cartaz do conjunto de políticas que origina a dita desindustrialização. Uma indústria fraca é mau presságio para o futuro de estados sociais, como no caso dos estados europeus.

A energia nuclear vive um ressurgimento mundial, gozando de uma popularidade nunca vista. Encerrar centrais nucleares em perfeito estado de funcionamento é um crime ambiental. Precisamos que aqueles que pensam em “nuclear VS renováveis” comecem a pensar em “nuclear + renováveis” e se juntem a nós a tentar salvar o futuro. Comecemos primeiro por salvar Almaraz.

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