Orquestrava massacres em escolas e queria transmitir em direto um homicídio com "laivos de demorado sofrimento": os planos do jovem português de 17 anos detido pela PJ

CNN Portugal , BCE
3 mai, 22:00

Jovem de 17 anos é descrito pelas autoridades como alguém com uma "capacidade de liderança enorme" e capaz de mobilizar outros jovens a executarem os seus planos de vários crimes, como massacres nas escolas e até um homicídio de um mendigo com transmissão ao vivo na Internet

Orquestrava massacres em escolas no Brasil, vendia pornografia infantil e queria transmitir na Internet um homicídio de um mendigo “com laivos de demorado sofrimento”. Era com “uma capacidade de liderança enorme” que o jovem português de 17 anos, detido esta quinta-feira pela Polícia Judiciária, no Grande Porto, incitava na Internet, a partir da casa onde vivia com os pais, “outros jovens de idênticas idades, sobretudo brasileiros” para realizarem vários crimes.

Um deles aconteceu em outubro passado, quando um jovem de 15 anos, aluno numa escola em Sapopemba, no estado brasileiro de São Paulo, disparou sobre uma colega de 17 anos, que teve morte imediata. O ataque, que chocou o Brasil, deixou ainda outros três menores feridos. O rapaz de 15 anos terá sido instigado pelo jovem português agora detido, considerado o autor moral dos crimes, ao criar uma comunidade online onde se assumia como líder e incitava à automutilação grave dos jovens que o seguiam, mutilação e morte de animais, difusão de propaganda nazi, instigação de massacres nas escolas e partilha e venda de pornografia infantil.

Depois do ataque em Sapopemba, o jovem português terá conquistado novos seguidores, a quem ordenava a prática de mais tentativas de ataques armados, sempre com o objetivo de matar estudantes e professores. Segundo as autoridades, o jovem tinha planeado outros três massacres em escolas, em novembro, março e abril. Todos foram neutralizados pelas autoridades, alertadas pelas combinações feitas na Internet, e evitando assim mais vítimas.

Uma vez alertadas para o que se estava a passar, as autoridades portuguesas e brasileiras agiram em conjunto “em contrarrelógio”, explicou esta sexta-feira aos jornalistas Luís Neves, diretor nacional da Polícia Judiciária (PJ).  “Essa foi a parte mais penosa para os investigadores: saber que se não fosse posto termo a esta atividade, poderia de facto ter acontecido outros crimes”, assinalou.

Um dos crimes que o jovem estava a planear, segundo o diretor nacional da PJ, era a transmissão online de um homicídio no Brasil, em modo pay-per-view, com “laivos de demorado sofrimento de um mendigo”. “Essas imagens iriam ser transmitidas num ambiente cibernético e que cada pessoa pagaria uma quantia para assistir", acrescentou.

Este era apenas “um exemplo” dos crimes planeados pelo jovem português naquela comunidade onde os investigadores se depararam com publicações de “atos bárbaros” e de cariz extremista.

“Através de um ideário particularmente violento e extremista, o jovem detido prestava conselhos quanto ao modus operandi e indumentária a envergar pelos demais intervenientes aquando da preparação e prática dos crimes”, refere-se num comunicado da PJ, divulgado na quinta-feira.

Identificar suspeito foi como "encontrar uma agulha num palheiro" - e "há mais"

Segundo as autoridades, todos os utilizadores da comunidade liderada pelo jovem português partilhavam o fascínio pelos massacres em escolas. A PJ, que diz já ter entrado em contacto com a Europol, assume que “há mais suspeitos” destes crimes e de “comportamentos de idêntica tipologia”, mas “não em território nacional”, sendo que o jovem detido é o “único português que está neste momento identificado”.

Mas para chegar até à identidade do menor foi preciso um trabalho “moroso de filigrana” desde o ano passado, descreve o diretor nacional da PJ, comparando o processo com a tentativa de “encontrar uma agulha num palheiro”. É que o jovem escondia a sua identidade através de diferentes perfis na Internet, mas os investigadores acabaram por conseguir chegar até ele através do endereço do computador que utilizava.

O jovem português é descrito por Luís Neves como alguém com “uma capacidade de liderança enorme para fazer movimentar outros jovens de idênticas idades, sobretudo brasileiros, no sentido de radicalizar outros, de se automutilarem, de cometerem crimes”. 

À saída do Tribunal Central de Instrução Criminal, em Lisboa, o advogado do menor, Paulo Azevedo, adiantou que o jovem colaborou com as autoridades, a quem prestou "todos os esclarecimentos". Questionado sobre se o jovem de 17 anos se mostrou arrependido diante do juiz, o advogado disse apenas que, "no final" do interrogatório, o suspeito "mostrou alguma sensibilidade". 

Segundo o advogado, a mãe do jovem está "triste" e "desiludida", uma vez que "desconhecia todos os factos". "A mãe não tinha conhecimento dos meandros nas redes sociais onde ele circulava", adiantou, descrevendo, ainda assim, que os dois mantinham uma relação "muito próxima".

O jovem de 17 anos, que ficou esta sexta-feira em prisão preventiva, "sempre foi um excelente aluno", diz o advogado, acrescentando que o menor frequenta um curso técnico-profissional, tem o 11.º ano de escolaridade e "tinha o seu círculo de amigos", com quem "convivia".

Tendo em conta as comunicações e o material apreendido, as autoridades acreditam estar perante atos de criminalidade violenta e especialmente violenta. O jovem de 17 anos pode vir a responder por vários crimes, sendo que no despacho de indiciação, o Ministério Público lhe imputou 12 crimes: um crime de homicídio qualificado consumado, seis de homicídio qualificado tentado, instigação pública a um crime, apologia pública a um crime, dois crimes de pornografia de menores e ainda um crime de associação criminosa.

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