Já podiam estar reformadas, mas aos 70 anos continuam a dar aulas. “Vir para a escola é a minha alegria”

23 jun, 08:00
Professoras

O Governo quer atrair para as escolas professores já reformados ou em idade de reforma. É uma das medidas anunciadas para ajudar, de imediato, a fazer face à escassez de professores em vários grupos disciplinares e muitas regiões do país. Mas já há quem permaneça nas escolas, mesmo que o bilhete de identidade lhes diga que já deviam estar reformados. Eduarda e Elisabete estão a poucos meses de fazer 70 anos e é na escola que são felizes

Eduarda Castro está prestes a completar 70 anos. Há quase 43 anos que a vida dela é na escola, rodeada de crianças. “Sinto-me muito feliz na escola. Vir para a escola é a minha alegria. Sinto-me um peixe dentro de água. Gosto mesmo de ser professora. É a minha paixão”, diz, numa voz jovial e entusiasta, em declarações à CNN Portugal.  

“Costumo dizer que tenho várias ninhadas. Faço como as galinhas com os pintainhos. Pego-lhes no primeiro ano e levo-os até ao quarto ano”, acrescenta.

Nos bancos da escola, à sua frente, já teve pais “e até avós” das crianças para quem olha agora. Sempre com a mesma exigência pela qual é conhecida em Mirandela. “Os pais conhecem a minha fama. Sabem que sou exigente. Gosto de ensinar para eles aprenderem, não é para tirarem boas notas. Tenho a certeza de que os meus alunos nas mãos de outros professores, tinham muito melhores notas. Os meus quando têm muito bons, têm mesmo muito bons. Incuto aos meus alunos que a profissão deles é ser estudante e o que é que têm de fazer para fazerem o seu trabalho? Estudar! A vida tem competição. Em todas as profissões há competição! Porque é que a escola não há de mostrar aos alunos o que é isso?”, questiona.

“Ensinar é uma missão. Tem de ter alma”, sublinha.

Ao longo da conversa, a professora Eduarda repete várias vezes que um dos fatores que a faz permanecer na escola, apesar de já ter ultrapassado a idade de reforma, é a boa relação que mantem com os pais: “O problema maior é encontrar turmas onde não há conflitos com os pais. As crianças estão cada vez mais mal-educadas. Mas não é o meu caso. Não sei se é por ser velha ou não. Faço reuniões de pais, explico o que quero. Sou muito direta com eles no início do ano. E tenho uma relação excelente com os pais”.

Os excelentes, os bons e os fracos

Apesar dos 69 anos e quatro meses, Eduarda tem um ar jovial e uma energia invejável. A imagem de marca da professora é o cabelo colorido e a gargalhada. Ninguém diria que é avó de três netas, com 20, 17 e dois anos, de quem se orgulha e para quem é motivo de muito orgulho. “As minhas netas têm uma proa na avó muito grande. Andam sempre a mostrar a fotografias da avó a toda a gente”, atira, entre gargalhadas.

Fala dos alunos com o mesmo carinho com que se refere a cada uma das três netas. Em alguns aspetos, Eduarda reconhece que é uma professora “à moda antiga”. Está convicta de que o trabalho em sala de aula não é suficiente para cimentar conhecimento. Por isso, manda trabalhos de casa, “como manda a lei”. “Nisso sou muito tradicional. Não há como sistematizar o que se aprende só com o trabalho na escola. São 25 alunos. Não dá para trabalhar com todos de modo a perceber o que eles realmente sabem. Por isso, digo muitas vezes aos pais que os trabalhos de casa não são para os pais fazerem, nem para os pais ajudarem a fazer. Podem até dar algum apoio. Mas os trabalhos de casa são para eu perceber o que os meninos sabem e daquilo que são capazes, porque só o trabalho dentro da sala de aula não chega”, relata.

Eduarda Castro diz que é na escola que é feliz. Por isso, prestes a fazer 70 anos, e quando já podia estar reformada, continua a dar aulas. (Arquivo pessoal Eduarda Castro)

São precisamente os alunos com maiores dificuldades a quem Eduarda Castro dedica mais atenção: “Nunca tive uma turma em que todos os alunos fossem excelentes. Isso não existe. Tenho alunos excelentes, bons e fracos. A minha preocupação é com os fracos. Têm de ser levados com muito carinho, com muita motivação, com muito ‘a professora gosta de ti, a professora ajuda-te. Só tens de me dizer eu não sei’”.

E no coração de Eduarda fica o aperto sobre o futuro destes meninos e meninas. “Estes meninos com mais dificuldades, desde que tenham suficiente, para mim é fantástico. Tenho a consciência que estes meninos, no futuro, se não tiverem quem os segure, se vão perder e isso deixa-me alguma mágoa”, confessa.

Mas há marcas que ficam: “Hoje de manhã, às 07:00 tinha uma mensagem de um aluno já com 27 anos. Era um menino que achava triste, desamparado. Puxava por ele e também lhe ralhava às vezes. Há pouco tempo pediu-me amizade no Facebook e disse-me ‘oh professora, eu andei perdido, mas nunca mais me esqueci de si’. Percebi que tinha andado na droga. Hoje mandou-me uma mensagem a dizer ‘vim para Vila Real para o pé da minha mãe, lembro-me de si e agora dou na cabeça da minha irmã’. Diz que gostava de tirar Direito, mas que acha que é demasiado formal para ele”.

O papão da reforma

Eduarda Castro não nega uma batalha. No início do mês, a colega que estava a coordenar a escola “saiu” e, além dos 25 alunos da turma do 3º ano, Eduarda assumiu também a coordenação da Escola Básica do Convento, do Agrupamento de Escolas de Mirandela. “Tenho as 25 horas letivas e tenho a coordenação da escola na mesma. Não tenho a redução horária a que teria direito por ter mais de 60 anos. Se tenho feito barulho, não. O que é que eu vou fazer?”, questiona.

A burocracia de que tantos docentes se queixam é aquilo que menos gosta na escola. Incomoda-a a “carga a mais”, os documentos “repetidos, sem necessidade nenhuma”.  “Aquilo que é realmente de trabalho, que é estar na sala de aula, com os alunos fica prejudicado. Olhe, o que me custa mais é a avaliação no final de cada período, não pela avaliação dos meus alunos, que essa é contínua e está muito bem fundamentada, mas pela burocracia, pelos relatórios e pelas reuniões sem fim”, lamenta

Há poucas semanas, apresentou os papeis para a reforma. Sente-se como a criança do julgamento de Salomão – dividida. Por um lado, tem os pais dos alunos a pedirem-lhe que regresse em setembro e que fique até ao último dia. Por outro, tem os filhos a dizerem-lhe que “já trabalhou demais”.

“Confesso que andei até um bocadinho deprimida quando meti os papeis para a reforma. Tenho uma vida muito ativa, as rotinas fazem-me falta. Sou divorciada. Tenho uma relação maravilhosa com os meus filhos, mas estou longe deles e das minhas netas…”.  

“Estou metade para cá e metade para lá… sinto-me um tolo no meio da ponte. Os colegas dizem-me ‘Oh mulher, tu passeias’, mas eu tinha de ser infinitamente rica para tantos passeios”, brinca.

Eduarda e mais 2001

O ministro da Educação, Fernando Alexandre, anunciou a 14 de junho um conjunto de medidas para fazer face à escassez de docentes e acabar com os alunos sem aulas por longos períodos de tempo. Uma dessas medidas passa pelo recrutamento de 200 professores reformados que queiram continuar a dar aulas. A ideia é “viabilizar a contratação de docentes aposentados com remuneração extra” nos grupos de recrutamento deficitários “com o pagamento da devida compensação pelo índice 167”. Ainda com o objetivo de incentivar o prolongamento da vida ativa dos docentes, o Governo vai também pagar mais 750 euros brutos por mês aos professores dos grupos de recrutamento mais problemáticos que atinjam a idade de reforma e queiram continuar a dar aulas. O Governo aponta para mil professores nestas circunstâncias.

Eduarda não é, assim, caso único. De acordo com dados fornecidos pelo Ministério da Educação Ciência e Inovação (MECI) à CNN Portugal, tendo como referência idades a 27 de maio de 2024, 2.002 professores estão a dar aulas com idades entre os 67 e os 71 anos. São docentes que já podiam estar reformados, mas que preferem manter-se no ativo.

De acordo com a Federação Nacional da Educação (FNE), que cita a DGAE (Direção-Geral da Administração Escolar), há 343 professores com mais de 70 anos a lecionar. As carreiras na administração pública terminam, por regra, obrigatoriamente aos 70 anos. Se for a vontade do trabalhador continuar, tem de haver um pedido de autorização do próprio e da entidade empregadora. Ou seja: para um professor continuar a dar aulas depois dos 70 anos, tem de haver uma manifestação e interesse por parte da escola e do próprio docente. Uma situação que pode ser útil em casos muito específicos em que o professor inicia o ano letivo com uma turma, completa os 70 anos a meio do ano letivo e entende-se que não é proveitoso para os alunos uma mudança de professor.

Escolas envelhecidas

Pedro Barreiros, secretário-geral da FNE, reconhece que a medida terá sido “muito bem acolhida” por muitos docentes que não querem deixar a escola. “Os professores estão exaustos. Muitos estão desesperados e a desejar a reforma, mas gostam do que fazem. Se retirarem aos professores a componente burocrática, limparem a componente não letiva, acredito que alguns professores vejam nesta medida um boost para quererem continuar. Há os outros que nem precisam da medida e querem simplesmente continuar com os alunos. Querem continuar a dar aulas”, reconhece.

Mas o dirigente sindical teme que a medida venha contribuir para um problema que afeta a educação em Portugal: o envelhecimento das escolas. “Não podemos tornar as escolas num espaço velho. Só quem não acompanha a realidade é que não percebe o impacto que um professor jovem tem na vida das crianças e dos jovens. Eles precisam de experiência, sim, mas precisam também daquele professor cool, com um discurso próximo da realidade deles”, defende.

“Ter um Ronaldo é importante, mas uma equipa com 11 Ronaldos não resultaria”, resume.

Pedro Barreiros relata que há situações de conselhos de turma com 11 professores “onde o mais novo tem 64 anos”. “São conselhos de turma de alunos com 11 ou 12 anos… estes alunos vão passar grande parte do seu dia com adultos de 65, 66 ou 67 anos e isso é preocupante!”, diz.  

“Ficam velhos. E não eram”

Elisabete Teixeira completa 70 anos “ainda este ano”. Diz que se a deixassem continuar a dar aulas, “iria continuar”. Mas não faz parte de nenhum grupo disciplinar, nem dá aulas numa região onde a escassez de professores é gritante. Por isso, não deverá ser abrangida pelas medidas do Governo e terá mesmo de abandonar daqui a poucos meses, quando atingir a idade limite de 70 anos para trabalhar na administração pública.

Começou a ensinar em outubro de 1974. Esteve na escola durante 16 anos e depois a vida trocou-lhe as voltas e deixou o ensino. Regressou há nove anos, já depois dos 60 anos, quando muitos já só pensam na reforma.

Elisabete esteve fora do ensino e regressou aos 60 anos, quando muitos já anseiam pela reforma. Completa 70 anos "ainda este ano". (Arquivo pessoal Elisabete Teixeira)

Confessa que também tem planos para a aposentação. Não quer ficar parada. Quer ir para a Universidade Sénior e fazer “uns cursos de pintura e de fotografia”. Mas “o tempo de serviço não é assim tanto” e essa é uma das razões pelas quais ainda se mantém no ativo. Mas conhece histórias de quem corrobora e dá rosto aos números que chegam do MECI: “Na minha escola, há o caso de um professor que esteve a trabalhar até à data-limite, completava os 70 anos a meio do ano letivo. Pediu para completar o ano letivo e foi-lhe concedido. Não percebo porque é que, em determinados setores, se as pessoas tiverem condições e força anímica para continuar podem continuar e na administração pública, só se pode trabalhar até à idade limite de 70 anos.”

“São pessoas que gostam do ambiente escolar, gostam de trabalhar com os alunos, saem da escola e rápida ficam velhas, porque até aí não eram”, lamenta.

Elisabete sublinha que “continuar, ou não, na escola não pode ser uma obrigatoriedade” e tem de ser o professor a decidir se quer ou não continuar. “Há pessoas que estão cansadas, não conseguem mais. E o aspeto remuneratório não é compensador”, reforça.

“Sinto-me válida e capaz”

Elisabete Teixeira é apaixonada pelo ensino e, mesmo enquanto esteve afastada das salas de aulas, nunca deixou de ensinar. Era voluntária na Casa dos Rapazes em Viana do Castelo, onde apoiava os jovens nos estudos.

Agora, é professora do ensino especial no polo de Távora do Agrupamento de Escolas de Arcos de Valdevez. “É um trabalho exigente, mas sem a pressão de ter 20 ou 30 alunos numa sala de aula. Sinto-me válida. Sinto-me capaz”, reconhece.

Diz que o que a leva todos os dias à escola é “o prazer que dá ver o resultado do nosso esforço nas crianças”. “É uma dedicação plena e com resultados positivos. Ver, todos os dias, a compensação dos resultados do nosso trabalho é fantástico”, confessa, apesar de lamentar a constante desvalorização da profissão docente.

Nisso, Elisabete e Eduarda concordam: a autoridade dos professores está ferida de morte e é preciso recuperá-la com urgência. “O estado devia organizar nas escolas formação para os pais. Para os ajudarem a dar apoio aos filhos e ensiná-los a terem autoridade sobre os filhos. Os pais neste momento, não têm autoridade sobre os filhos.  Os alunos na escola não se portam como se portam em casa. Tem de haver uma autoridade, que acho que os professores perderam muito. Crianças muito pequenas questionam o professor por tudo e mais alguma coisa, por causa da retaguarda que têm em casa ou da falta dela”, lamenta Elisabete Teixeira.

A professora do ensino especial lamenta que o trabalho de um docente seja desviado tantas vezes da sala de aula e se prolongue tantas vezes para além dela: “Trabalhamos na escola com os alunos, saímos da sala de aulas e vamos para a sala dos professores trabalhar e depois vamos para casa trabalhar. Porque é que os professores estão cansados? Porque além do trabalho na escola, a burocracia infinita faz com que vão para casa trabalhar, não usufruam de um fim de semana em pleno com a família, por exemplo”.

“O professor foi feito para ensinar, programar o ensino e não foi feito para estar a fazer milhões de relatórios”, remata.

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