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Prigozhin consegue o que quer depois de morto: Putin 'limpa' ministério da Defesa e mais cabeças estão prestes a rolar

CNN , Sebastian Shukla
3 jun, 12:43
Vladimir Putin e Yevgeny Prigozhin (AP)

Retirar um ministro da Defesa de longa data do seu cargo não é nada de extraordinário. No entanto, a detenção de cinco dos seus altos funcionários é claramente mais do que uma simples procura de sangue fresco - especialmente na Rússia de Vladimir Putin.

Após a surpreendente demissão, há duas semanas, de Sergei Shoigu do cargo de ministro da Defesa, uma vaga de detenções tem esventrado os quadros superiores do Ministério da Defesa, sob o pretexto de uma campanha anticorrupção.

O momento é tão intrigante como as detenções e a remodelação. Após quase três anos de fracasso nos campos de batalha na Ucrânia, a Rússia acaba de ganhar vantagem. Nas últimas semanas, lançou uma ofensiva muito bem sucedida no norte, em direção a Kharkiv, a que se juntaram vitórias na região do Donbass, também no leste.

A incapacitante falta de mão de obra ucraniana e a escassez de munições - exacerbada por meses de impasse no Congresso dos EUA para aprovar um pacote de apoio militar - também ajudaram a inverter a sorte da Rússia.

Assim, a questão que se coloca é: porquê abalar agora o ministério responsável por ganhar a guerra?

Os analistas que falaram com a CNN descreveram o Ministério da Defesa como um dos mais corruptos do país. Os meios de comunicação social estatais russos têm revelado contratos militares no valor de somas avultadas e envergonhado publicamente os altos funcionários do ministério e os seus estilos de vida luxuosos. Mas, como disse um analista à CNN, aquilo a que estamos a assistir é um “jogo policêntrico muito complexo”, que está relacionado com o timing e a busca existencial de Putin pela vitória contra o Ocidente.

Mensagem de Prigozhin desde o túmulo

A pairar sobre este abalo está o fantasma de Yevgeny Prigozhin, líder do grupo de mercenários Wagner, que também era conhecido como “o chefe de Putin”.

Antes da sua morte, manifestou o seu ódio por Shoigu e pelo general Valery Gerasimov, através de tiradas carregadas de palavrões, acusando-os a eles e ao ministério de corrupção e incompetência.

Prigozhin liderou um motim em Moscovo que deveria terminar com o derrube de Shoigu e Gerasimov. Em vez disso, colocou o presidente numa posição difícil e desafiou a sua autoridade. Putin respondeu descrevendo Prigozhin como um traidor e despojando-o dos seus bens, tudo isto antes de este morrer num acidente de avião suspeito, juntamente com os seus conselheiros mais graduados.

Desde então, Putin tem mantido as ineficiências da aquisição de armas pelo ministério, bem como a invasão falhada da Ucrânia e as alegações de corrupção, fora do alcance do público, para mostrar que não faria reações automáticas na sequência do motim. Se o fizesse, poderia pôr em causa a sua autoridade e força perante o povo russo.

É provável que Putin estivesse à espera da sua reeleição pelo povo russo, em março, antes de avançar para o Ministério da Defesa. As mudanças ocorreram pouco depois das celebrações do Dia da Vitória, a 9 de maio, às quais Putin e Shoigu assistiram, lado a lado, numa aparição aparentemente amigável.

Apesar do seu afastamento do cargo de ministro da Defesa, Shoigu permanecerá na órbita de Putin, depois de ter sido transferido para um novo cargo de secretário do Conselho de Segurança.

Os interesses de Putin: Ucrânia

Tatiyana Stanovaya, membro sénior do Carnegie Russia Eurasia Center, disse à CNN que o facto de Prigozhin estar certo sobre a corrupção dos funcionários não é o mais importante. Na Rússia, disse, “o certo e o errado não existem na política - apenas os interesses importam”.

O interesse de Putin é manter a sua casa em ordem, mas, mais importante ainda, conseguir a vitória na Ucrânia. O Ministério da Defesa é fundamental para o desfecho dessa guerra.

Com Putin a nomear um economista civil, Andrey Belousov, como novo ministro da Defesa, deu a entender que quer que o ministério, com o seu vasto orçamento, adquira armas de forma mais rápida e económica.

O orçamento russo para 2024 revela que a Rússia pretende gastar 6% do PIB na defesa, o valor mais elevado da história moderna da Rússia, e que ultrapassará as despesas sociais - um sinal da transição do país para uma economia de guerra.

A corrupção em causa - Shamarin e Ivanov

Mikhail Komin, cientista político russo e membro visitante do Conselho Europeu dos Negócios Estrangeiros, com sede em Viena, disse à CNN que “o grupo de Shoigu, entre as elites russas, é um dos que mais procura rendimentos, mais, por exemplo, do que alguns membros do círculo íntimo de Putin”.

Na sexta-feira passada, o tenente-general Vadim Shamarin, chefe da Direção Principal de Comunicação das Forças Armadas russas, foi acusado de “receber um suborno numa escala especialmente grande”, de 36 milhões de rublos (cerca de 362 mil euros) de uma fábrica que fornece equipamento de comunicações ao ministério. Em troca, terá concedido à empresa contratos governamentais lucrativos.

Shamarin declarou-se inocente, de acordo com os media estatais russos.

Os media estatais russos também desempenharam um papel na comunicação da repressão do Kremlin contra o ministério. Após a prisão de Shamarin em maio, a estatal Ria Novosti informou que sua esposa havia comprado um Mercedez-Benz GLE em 2018 por 20 milhões de rublos (cerca de 200 mil euros) numa época em que os seus rendimentos não eram superiores a 31 mil euros. Outra notícias revelou que o rendimento dela nesse ano foi de aproximadamente 9.000 euros.

O mais conhecido dos cinco funcionários detidos foi Timur Ivanov, o vice-ministro da Defesa. Foi colocado em prisão domiciliária no final de abril, também por suspeita de aceitar subornos.

Ivanov tinha-se tornado um dos principais alvos da Fundação Anticorrupção, fundada por Alexey Navalny, que morreu numa prisão russa em fevereiro. Navalny e a sua organização expuseram o estilo de vida luxuoso de que a companheira de Ivanov desfrutava - visitava joalharias só para convidados, vestia roupas de alta costura e possuía um chalé na estância de esqui chique de Courchevel, em França. Questionaram como é que ela podia permitir-se tal estilo de vida quando o salário do marido era oficialmente de 161.000 euros por ano.

A imprensa estatal russa informou que Ivanov mantém a sua inocência.

Para Stanovaya, as razões para a substituição de figuras como Ivanov e Shamarin são simples. “Parte da lógica de Putin é que não se pode colocar alguém neste cargo (de ministro da Defesa) onde há interesses significativos do anterior.”

Para ajudar a limpar o ministério, Putin nomeou Oleg Savelyev, um antigo auditor da Câmara de Contas da Rússia, como vice-ministro da Defesa. Ele estará “ciente da corrupção que já existe no sector da defesa”, disse Komin.

O último desejo de Prigozhin

Dadas as mudanças radicais feitas pelo presidente, surgiram rumores sobre a posição do Chefe do Estado-Maior das Forças Armadas, Valery Gerasimov, o outro alvo das reclamações de Prigozhin.

Há muitos rumores de que ele [Gerasimov] poderá ser demitido em breve", mas o facto de ter sido poupado até agora dá a Gerasimov “uma janela para começar a lutar pelos seus próprios interesses”, acrescentou. “Gerasimov está a lutar contra os seus inimigos, tentando assegurar o seu futuro”, considerou Stanovaya.

Komin concordou que Gerasimov pode manter a sua posição por enquanto, uma vez que Putin afirmou que não tenciona efetuar quaisquer outras alterações.

Para Komin, a sorte de Gerasimov pode ser o facto de não haver uma posição, semelhante à de Shoigu, em que possa ser publicamente afastado sem manchar completamente a sua reputação, “não é um grande problema encontrar o novo homem, é mais importante encontrar o lugar para o anterior”.

Na Rússia, o presidente continua concentrado na vitória na Ucrânia, mas as recentes aberturas mostraram que o elenco de apoio pode mudar e que Putin está pronto para ser implacável na sua busca pela vitória.

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