"Estamos a passar um limiar" no apoio do Ocidente à Ucrânia. Riscos: "reação desproporcionada da Rússia", "eliminação das forças francesas"

31 mai, 13:15
Um HIMARS do exército ucraniano é disparado perto da linha da frente na região norte de Kherson, na Ucrânia, a 5 de novembro. Hannibal Hanschke/EPA/Shutterstock/FILE

Envio de instrutores militares ocidentais para a Ucrânia; uso de armas ocidentais em território russo: a guerra torna a mudar, "a UE tem andado a subir de patamar lentamente". E a Rússia, que anda com dificuldades em destruir uma determinada arma americana, também fez subir o seu tom de ameaça - e se essa ameaça se transformar em atos, o Ocidente tem de se preparar para algo "desproporcional"

“Esta decisão de permitir o uso de armas ocidentais para se atacar alvos militares em solo russo responde a uma preocupação legítima da Ucrânia. E pode fazer diferença no plano táctico. Os russos não estão a conseguir neutralizar todos os ATACMS americanos”, considera o major-general Agostinho Costa. Em causa estão as novas armas enviadas nos mais recentes pacotes de apoio militar norte-americano, em particular os mísseis balísticos ATACAMS, que conseguem atingir alvos a uma distância de 300 quilómetros com uma grande precisão.

A decisão norte-americana de permitir o uso das suas armas para atacar alvos em território russo surge após uma forte insistência de Kiev, que apelava a uma mudança de política, depois de Moscovo ter aberto uma nova frente de batalha na região de Kharkiv, a 10 de maio. As forças russas foram capazes de avançar dez quilómetros logo nos primeiros dias, até encontrarem uma forte resistência por parte dos militares ucranianos.

Volodymyr Zelensky argumentava que as forças ucranianas eram capazes de detetar aglomerações de soldados e blindados do outro lado da fronteira. Apesar dos vários milhares de milhões de euros enviados pelos membros da NATO para apoiar a Ucrânia, muitos destes países fizeram-no com a imposição de que estas armas seriam utilizadas exclusivamente em território ucraniano ocupado pelas forças russas. Devido a estas limitações, a Ucrânia pouco conseguiu fazer perante a ameaça russa do outro lado da fronteira. 

“Era uma questão de tempo até esta decisão de Biden surgir. Desde que Blinken foi a Kiev há duas semanas e disse que tinha ficado sensibilizado com a argumentação da Ucrânia, havia um forte debate dentro do Departamento de Estado norte-americano sobre essa questão”, diz Diana Soller.

Dias antes da mudança de posição norte-americana, Vladimir Putin voltou a fazer ameaças ao Ocidente e aos membros da NATO, alertando que a utilização de armas ocidentes em solo russo pode levar a uma reação russa capaz de desencadear um conflito global. “A constante escalada pode levar a sérias consequências”, afirmou o Presidente russo.

"Reação desproporcional", "eliminação das forças francesas"

Quase todos os países europeus, incluindo Portugal, França e Alemanha, apoiam a capacidade ucraniana de conduzir estes ataques – exclusivamente contra alvos militares -, algo que está previsto no artigo 51 da Carta da Nações Unidas. Para alguns analistas, a medida acarreta algum perigo e torna o Ocidente mais próximo de sofrer uma reação da Rússia.

“Estamos a passar um limiar. Até agora a UE tem andado a subir de patamar lentamente. A certa altura pode criar-se uma ambiguidade estratégica que pode causar uma reação desproporcionada da Rússia”, sublinha o embaixador Seixas da Costa.

A agravar a tensão está a possível decisão francesa de enviar instrutores militares para território ucraniano, para ajudar a formar o exército ucraniano e as suas forças de segurança. De acordo com a Reuters, o Presidente francês, Emmanuel Macron, pode anunciar a notícia já na próxima semana, durante a visita de Zelensky a Paris. Vários diplomatas garantem que França está a tentar convencer outros parceiros europeus a entrarem numa coligação de instrutores militares.

Um desses países é a Lituânia. A primeira-ministra, Ingrida ,Simonyte afirmou esta sexta-feira que, se for necessário, a Lituânia está disposta a enviar instrutores para a Ucrânia em conjunto com outros Estados-membros da NATO. Mas esta decisão pode ser alvo de uma retaliação ainda mais violenta por parte do Kremlin - alguns especialistas admitem que os soldados europeus podem ser considerados alvos prioritários para o Kremlin.

“A linha da frente está a aproximar-se de nós. A resposta russa poderá passar pela eliminação das forças francesas que estão prestes a entrar na Ucrânia”, conclui Agostinho Costa.

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