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A “nota 10” para Pepe, o “Rei do Espaço”, e a importância do respeito (não é, Cristiano?) como a base essencial para a renovação

23 jun, 08:01

Rui Santos salienta os exemplos de Pepe e Cristiano Ronaldo e recorda outra nota máxima (também 10) que atribuiu há 30 anos no inesquecível 3-6 do Sporting-Benfica, no qual João (Vieira) Pinto, o “Príncipe Perfeito”, fez um hat-trick e uma exibição memorável

Estes exercícios magazinescos, agora tão em voga nas nossas televisões, de atribuição de notas ao desempenho dos protagonistas fazem-me recuar mais de 40 anos e recordar-me do tempo em que, em A Bola, naquela velha “Bola” dos grandes cronistas, atribuíamos notas de 0 a 3 para pontuar as exibições dos jogadores nos jogos da então chamada “I Divisão”.

Era uma dinâmica mais fechada e coisa para os jornalistas e havia os mais exigentes e os mais condescendentes.

As coisas, a este nível, mudaram muito, com a democratização da opinião, e, se houve muitas coisas que foram perdendo valor, como por exemplo a sustentação das carreiras (hoje é tudo mais fácil), ganhou-se em pluralidade - e ainda bem, porque não há nada mais importante em democracia do que - sem ironia - saber selecionar o pluralismo.

Nas emissões dos pós-jogos de Portugal na CNN Pt, os convidados em estúdio, basicamente ex-jogadores, (ex) treinadores e jornalistas, vêm sendo desafiados a atribuir notas (0 a 10) não apenas aos atletas mas também ao seleccionador-treinador.

Nesta partida com a Turquia (3-0), atribuí “nota 10” (nota máxima) à exibição de Pepe, para mim, aos 41 anos, o “Homem do Jogo”. 

E não pude deixar de recordar uma outra nota máxima (também 10) que atribuí a João (Vieira) Pinto, autor de um hat-trick em Alvalade, num jogo que ficou na memória dos portugueses - o célebre 3-6 do Sporting-Benfica, há 30 anos (Maio de 1994).

Apelidei João Pinto de o “Príncipe Perfeito” e creio que ainda hoje essa nota 10 (máxima) não foi repetida em jogos da I Liga. 

Voltando a Pepe: que exibição frente aos turcos! Autoridade, posicionamento, sentido de antecipação, reação perfeita no 1x1. Ou ainda nos movimentos mais verticais, como agora se diz, ou na largura, impondo-se como o “rei do espaço”.

Foi pelo que já demonstrou neste Europeu que sempre defendi a sua titularidade, desde que estivesse “apto”, clínica e fisicamente, depois de uma época, a esse nível, atribulada.

É bom recordar que, à data da convocatória para o Euro, Pepe estava lesionado e em recuperação, o que não apenas atesta a importância dada ao jogador como realça o bom entendimento entre a FPF e o FC Porto, uma vez que a gestão da utilização de Pepe foi muito bem articulada, numa situação de excepcionalidade que ambas as partes entenderam justificar-se, acima da questão médica. 

Portugal tem dois casos de longevidade extraordinária, este de Pepe, mas também o de Cristiano Ronaldo, que é um verdadeiro fenómeno, porque no caso de Cristiano estamos a falar de um avançado, agora ponta-de-lança, que ao longo da carreira se deu sempre ao desgaste, com arranques, com dribles, em explosão e em elevação, num desafio permanente à sua capacidade muscular, qualquer coisa absolutamente extraordinária.

Mesmo neste jogo com a Turquia, durante o qual nem sempre esteve ligado à equipa na plenitude, Cristiano teve apontamentos de classe, como um drible na direita que partiu um adversário numa jogada individual perto da linha de fundo e como assistiu Bruno Fernandes para golo, num lance em que poderia ter sido tentado, ele próprio, e egoisticamente, a finalizar.

Posso estar enganado, mas quando agora se fala dos “perigos” que se correm, em termos de perda de coesão e de “balneário”, se a Cristiano Ronaldo lhe for tirado o estatuto de “intocável” (nos 90 minutos), não creio que seja assim.

Cristiano só precisa de sentir que é respeitado. Se for respeitado - e isso não significa utilização nos 90 minutos - não há crise alguma. 

O problema é quando surgem “iluminados” que não respeitam o passado e o presente das pessoas, seja em que área for… 

É preciso ter calma e consagrar Cristiano Ronaldo e Pepe. 

Todos os outros terão tempo para se afirmarem (sem passarem por cima), o que não significa a consagração da “tese do apodrecimento”. Estamos a falar de jogadores capazes de grandes coisas. E isso merece respeito. Porque o respeito deveria ser - deve ser - a base da evolução e da renovação. 

O futebol pode dar grandes lições. 

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