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Parlamento espanhol converteu-se num "labirinto político". E agora? A solução pode estar nas mãos de Puigdemont (que pode ser alvo de um mandado de captura internacional)

24 jul 2023, 13:04
 Pedro Sanchéz (AP Photo/Emilio Morenatti)

A imprensa espanhola recorreu a uma “calculadora de alianças” para encontrar uma solução governativa para o país

Os resultados eleitorais das legislativas deste domingo converteram o Parlamento espanhol num autêntico “labirinto político”, tal como descreve o jornal El País. É que, apesar da vitória dos conservadores do Partido Popular (PP), a esquerda fintou as projeções das sondagens e conseguiu impedir uma maioria absoluta de direita.

Emilio Rubio, diretor do Centro de Estudos de Espanhol do Porto, resume a última noite eleitoral numa frase: "Estas são umas eleições paradoxais, porque aqueles que ganharam perdem e aqueles que perderam ganham."

O atual cenário do parlamento espanhol não podia ser mais divisivo: o PP, liderado por Alberto Núñez Feijóo, elegeu 136 deputados, enquanto o Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE), de Pedro Sánchez, conseguiu 122 mandatos parlamentares. Já o Vox, que surgia nas sondagens como o aliado mais provável do PP para com ele formar uma possível maioria absoluta, ficou aquém das projeções, elegendo apenas 33 deputados (perdeu 19), o que não permite alcançar os 176 deputados necessários para formar um bloco de direita. O cenário da esquerda não é mais favorável, uma vez que o Somar, que tem sustentado a coligação governamental liderada pelo PSOE, só elegeu 31 deputados.

O “labirinto” é de tal forma desafiante que é mesmo necessário resolver a equação através de uma “calculadora de alianças”, como fez o El País. Sendo que nenhum dos blocos consegue uma maioria absoluta, as soluções que estão agora em cima da mesa implicam um acordo entre as várias forças políticas. E é neste contexto que Emilio Rubio entende que "quem tem a chave na mão são os partidos da Catalunha e do País Basco", referindo-se ao ERC e ao EH Bildu, respetivamente.

"Temos uma situação de bloqueio e tudo indica que provavelmente se chegue a outras eleições", avalia o especialista, em declarações à CNN Portugal. Para perceber esta análise, é necessário perceber o que está em jogo - e há várias peças em jogo. Vamos por partes.

O que é preciso para a esquerda se manter no Governo?

Apesar de superar as expectativas das sondagens, Pedro Sánchez tem de ir além do apoio do Somar se quiser manter a esquerda no poder. Os sete partidos que nos últimos quatro anos têm apoiado o governo de coligação liderado pelo PSOE conseguiram reunir, no total, 172 assentos parlamentares - ficando, assim, aquém dos 176 necessários para formar uma maioria absoluta.

Neste cenário, não está descartada a possibilidade de novas eleições por maioria simples, cujos resultados dependeriam do voto dos deputados. Ou seja, para formar governo, Pedro Sánchez só precisaria de mais votos a favor do que contra. É aqui que entram os partidos nacionalistas, nomeadamente o ERC e EH Bildu, que, segundo os analistas, vão aproveitar o trunfo do bloqueio para reforçar as exigências que há muito reivindicam, como a independência da Catalunha de Espanha.

Este não é terreno desconhecido para Sánchez, que ainda há quatro anos conseguiu a maioria absoluta com uma diferença de dois votos e a abstenção do ERC e do EH Bildu. Desta vez, porém, precisa que aqueles dois partidos votem a seu favor - um cenário que os analistas até assumem como possível tendo em conta a evolução desta última legislatura. 

Mas a equação não termina aqui: Sánchez precisaria também da abstenção do Junts, de Puigdemont. E é aqui que as coisas começam a complicar para o lado do atual primeiro-ministro. É que, nos últimos quatro anos, o Junts assumiu-se como um partido da oposição tão contundente quanto os partidos de direita nacionais. E não é agora que vai mudar de postura, a avaliar pelas palavras da porta-voz, Míriam Nogueras, que, numa primeira reação aos resultados de domingo, garantiu aos espanhóis: “Não faremos de Sánchez presidente [do governo] a troco de nada.”

Será possível um acordo de direita apesar do 'deslize' do Vox?

O 'deslize' da extrema-direita confundiu as contas dos espanhóis, que já davam como certa uma vitória à direita, tendo em conta as projeções das últimas sondagens. Só que, em conjunto, PP e o Vox reúnem 169 assentos parlamentares, ficando assim sete lugares aquém do necessário para formar governo.

Até agora, de acordo com a imprensa espanhola, só há uma certeza entre os partidos que podem jogar a seu favor para formar um bloco de direita - o União de Povo Navarro (UPN). Os analistas também não descartam o apoio da Coligação Canária, que governa aquele arquipélago em conjunto com o PP, pese embora aquela força política sempre se tenha manifestado contra acordos com a extrema-direita. 

Mas esta coligação de forças só seria possível com o apoio do Partido Nacionalista Basco, que nunca descartou acordos com o PP. A não ser num acordo que inclua a extrema-direita. E, num cenário de novas eleições, o bloco de direita precisaria mesmo de um voto favorável dos nacionalistas bascos e não de apenas uma abstenção - o que os analistas entendem como pouco provável, tendo em conta o peso do Vox.

É possível um acordo entre Feijóo e Sánchez?

Alberto Núñez Feijóo reagiu aos resultados eleitorais deste domingo com um apelo dirigido a Sánchez para que dê primazia à primeira força e não procure bloquear a formação de um governo à direita: “Peço expressamente ao Partido Socialista e às restantes forças políticas para que não bloqueiem o governo de Espanha mais uma vez.”

Mas, de acordo com a imprensa espanhola, dificilmente o atual primeiro-ministro vai conceder a vitória ao PP, “pelo menos por agora”. É que Sánchez rejeitou por várias vezes esta possibilidade durante a campanha eleitoral, argumentando que o PP faz este pedido a troco de nada para um projeto que, no seu entender, não ambiciona nada mais do que “derrotar o sanchismo”.

Em todo o caso, os analistas deixam todos os cenários em aberto, até porque os tempos são de incerteza. Mas uma coisa é certa: o Junts, de Puigdemont, pode jogar a favor tanto de um lado, como do outro. É que, se contar com o apoio do ex-presidente do governo catalão, a esquerda angaria 179 assentos parlamentares (além dos 122 do PSOE, 31 do Somar, 7 do ERC e 7 do Junts, 5 do PNV, 6 do EH-Bildu e 1 do PNV [partido do País Basco[), superando o limiar da maioria absoluto com três deputados.

A direita também ficaria a ganhar, somando 178 deputados, com o apoio de cinco partidos (136 do PP, 33 do Vox, 7 do Junts e um de cada um dos partidos da Catalunha [ERC] e do País Basco [PNV]).

Daí que esta segunda-feira, Puigdemont tenha ironizado com o facto de ser alvo de um novo mandado de captura internacional numa altura em que é "decisivo" para o futuro político do país.

“Um dia és decisivo para formar um governo espanhol, no dia seguinte Espanha pede que sejas detido", escreveu Puigdemont.

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