«Nos treinos a gente pegava-se, ninguém gostava de perder»

24 mai 2023, 08:10
Milonja Djukic (Arquivo Pessoal)

Destinos encontra Djukic, uma das figuras do memorável Farense dos anos 90. Veio em 1991 e ficou para sempre, no «paraíso» de Faro. Histórias daquele tempo, agora que o clube voltou à Liga

DESTINOS é uma rubrica do Maisfutebol: recupera personagens e memórias de décadas passadas e marcantes no nosso futebol. Viagens carregadas de nostalgia e saudosismo, sempre com bom humor e imagens inesquecíveis. DESTINOS.

Milonja Djukic chegou a Portugal em 1991 e ficou para sempre, no «paraíso» de Faro. Era um dos craques daquele Farense memorável que tinha Peter Rufai, Hassan, Hajry, Miguel Serôdio ou Jorge Soares e no banco o mítico Paco Fortes, que atingiu a melhor classificação de sempre do clube na Liga, o quinto lugar que valeu a presença na Taça UEFA.

Agora que o Farense está de volta à Liga, o Maisfutebol reencontra Djukic e as suas memórias daquelas sete épocas em Faro. O espírito de grupo, a raça de uma equipa que até nos treinos jogava a doer, a energia de Paco Fortes.

Ficam muitas memórias desse tempo. Entre elas, o antigo avançado recorda o golo que valeu um empate em Alvalade, ou a forma como a equipa perdeu vários jogadores depois daquele quinto lugar, na época em que seria eliminado pelo Lyon na primeira ronda da Taça UEFA.

Em 1998, Djukic marcou o golo que manteve o Farense na Liga. Depois pendurou as botas. Viveu de fora os tempos difíceis do clube, mas sempre a torcer pelo seu Farense. Bem de perto, porque ele ficou a viver em Faro, onde se dedica ao seu café e outras atividades no ramo. Agora com 57 anos, já se sente algarvio, sem dúvidas. E fica a torcer para que desta vez o Farense venha para ficar. «Oxalá não desça nunca mais.»

Onde começou a jogar? Foi logo no Partizan?

Não, antes do Partizan comecei a jogar no Montenegro, numa equipa da III Divisão, aos 9, 10 anos. É um clube que forma muitos jogadores para a I Divisão da Jugoslávia. Nesse clube comecei a jogar na seleção do Montenegro, nas camadas jovens. Da seleção do Montenegro fui depois convidado a jogar pela seleção da Jugoslávia.

Havia seleções das várias repúblicas?

Sim. E todos os anos havia um torneio entre repúblicas, da Sérvia, Croácia, Bósnia Herzegovina, Macedónia, Eslovénia, Montenegro, para ver qual era a melhor. E aí selecionavam-se jogadores para a Jugoslávia. Então, selecionaram-me para jogar pela seleção da Jugoslávia. Eu passei pelos escalões da Jugoslávia desde os sub-15 até todas as seleções. Depois, como estava na seleção jugoslava e jogava bem, mais ou menos com 16 anos e meio mudei para o Partizan Belgrado.

Foi para um clube grande…

Sim. O Partizan, o Estrela Vermelha, o Dínamo Zagreb, o Hadjuk Split, eram os quatro grandes. E aí continuei a treinar com a primeira equipa, a jogar com os juniores. Depois, quando tinha 18 ou 19 anos, a tropa era obrigatória e fui um ano à tropa. Era obrigatória 15 meses naquela altura. Mas eu entrei em outubro e saí em novembro, estive pouco mais de um ano. Tinha privilégios por ser atleta de alta competição e das seleções. Treinava sempre na cidade onde estava, que tinha uma equipa da I Divisão, sempre com acompanhamento do Partizan.

Depois da tropa voltou para o Partizan e aí entrou na primeira equipa?

Sim, em 1985 comecei a jogar com a equipa principal. Estava na seleção sub-21, na seleção olímpica. Fiquei no Partizan até 89. Depois saí, joguei um ano no Olimpia Ljubljana e do Olimpia fui para o Trabzonspor.

Que recordações tem desses primeiros tempos como profissional?

Entre jogadores de todas as repúblicas, não era fácil jogar pela Jugoslávia. Os jogadores que estavam na seleção naquela altura eram 99,9 por cento jogadores que eram apostas dos clubes. Eu fui um deles na minha geração. Mas em 1986, 87 tive uma grave lesão. Parti a perna, perónio e tíbia. Praticamente estive em risco de não voltar a jogar. Recuperei, mas fiquei parado praticamente um ano, na melhor altura. Mas pronto, recuperei e voltei outra vez.

Naquela altura a seleção da Jugoslávia tinha grandes jogadores, não era?

Tinha. Stojkovic, Pancev, Savicevic…O Stevanovic, que jogou aqui comigo no Farense. Jogadores de grande qualidade.

Foi a seleção que chegou aos quartos de final do Mundial 1990?

Sim. A mim aquela lesão cortou-me uma época, só voltei no verão de 1987. Na altura também estava no sub-21, mas da minha geração já estavam na seleção dois ou três jogadores. Mas pronto, é assim.

Então e como apareceu a hipótese de vir para Portugal?

Eu voltei da Turquia, estava em Novi Sad, de onde é a minha esposa, e o Curcic, falecido… (Faz uma pausa, comovido) Jogámos juntos. Ele tinha jogado na Bélgica, no Antuérpia, depois o Antuérpia emprestou-o ao Farense. Ele jogou aqui no Farense seis meses, fez uma época fantástica. Só que naquela altura o Farense não podia pagar o passe dele e ele foi para o Belenenses. Depois a direção do Farense foi perguntar à mesma pessoa que levou o Curcic. Ligaram-me e falaram-me sobre o clube. Eu já conhecia a zona e o Algarve, porque em 1985 jogámos aqui com o Portimonense para a Taça UEFA.

Já conhecia o Algarve?

Bom, não conhecia muito. De Belgrado fomos para Faro, depois ficámos dois, três dias em Portimão. Mas era setembro, temperatura boa, clima bom, depois tínhamos aqui vários jogadores da Jugoslávia. Pensei, OK. Tinha também propostas de outros clubes da Alemanha, da França, mas optei por vir para aqui. Já tinha um filho com dois anos, outro com um mês.

Nasceu já em Faro?

Não, os dois mais velhos nasceram em Belgrado. Quando eu regressei da Turquia a minha mulher já estava com sete, oito meses e o meu segundo filho nasceu em julho, um mês antes de eu vir para Faro. Com dois bebés, pensámos: ‘Vamos para o Algarve, tem uma temperatura boa, um clube bom, vamos lá ver. Um, dois anos, depois logo se vê o que vamos fazer.’ O resto já sabes…

Ficou para sempre…

(Risos) Sim, fiquei. Desde 91 que estou aqui, vai fazer 32 anos, neste nosso paraíso. Em 1992, depois da primeira época no Farense, eu e a minha esposa queríamos ir à Sérvia e ao Montenegro ver os meus pais e os dela, mas aquilo começou a complicar-se.

A guerra…

Sim, não fomos. Depois em 1993 o contrato acabava, mas renovei mais três anos com o Farense. Depois da confusão que se passou naquela terra, com os miúdos já habituados aqui à escola, adaptei-me bem e optámos por ficar cá.

Como foram aqueles anos no Farense? Era uma grande equipa, não era?

Sim. Era um futebol diferente do que é agora. Nos anos 90 vivia-se muito melhor, com os escudos, do que agora. Depois a massa associativa. O Farense era um símbolo de Faro. Foram anos muito bons.

Chegaram à Europa em 1994/95…

Sim, fomos à Europa. Foi um grupo muito bom. Desfrutei sete anos no Farense. Tivemos altos e baixos, mas foi um grupo unido a um clube.

O grupo era muito unido? Faziam jantares juntos, não era?

Sim, uma vez por semana, todas as quintas-feiras, íamos jantar. Depois os mais velhos iam sair mais um pouco e os mais novos à meia-noite era para casa. Era um grande convívio e um grupo muito forte. Às vezes havia três, quatro, cinco meses em falta, mas isso nunca se refletiu no campo.

Quatro, cinco meses em atraso?

Sim. Era uma época com alguns problemas financeiros.

Diz que nunca se refletiu em campo. Como é que lidavam com isso?

Tivemos sempre os nossos truques. Os jogadores mais velhos apoiavam os mais novos e resolvíamos os nossos assuntos dentro de casa. Já sabíamos que íamos receber mais cedo ou mais tarde, que se ia encontrar solução.

Então e nos jantares mandavam os mais novos mais cedo para casa?

Malta nova, tem que descansar um pouco mais. (Risos) Para não se habituarem… Eram tempos diferentes. Hoje acompanho futebol e estou mais ou menos dentro deste mundo, mas não temos jogadores como antigamente. Eram jogadores com alma, com caráter, com personalidade. Hoje são muito artistas de cinema, preocupados com o cabelo, com tatuagens… Nos anos 90 eram jogadores com mais alma, jogavam mais para o clube. Hoje em dia ganham bem e se perdem ou ganham é a mesma coisa. Naquela altura quando perdíamos um jogo todo o mundo ficava aborrecido, ficava com raiva. Eu não gostava de perder nem no treino. Nem contra a minha mulher, imagina um jogo de campeonato.

Ficava mesmo muito zangado quando perdia?

Pff… Ficava bravo. Não gosto mesmo de perder. Nos treinos a gente pegava-se, ninguém gostava de perder. Era uma luta, como se fosse um jogo. Não era bem pegar, mas os treinos eram duros. Até fazíamos apostas. Ninguém queria perder. Quando se entra no treino esquece-se os problemas, tenta-se dar tudo e pronto. O que interessa é dar tudo.

Aquele Farense também era conhecido por essa raça, por essa alma…

Sim, era essa mística. Em Faro mas também fora, a gente era igual.

E no banco estava o Paco Fortes. Também era ele que passava essa mentalidade?

Sim… O Paco era enérgico, era elétrico… Às vezes a gente nem percebia o que ele estava a falar no banco, gritava e não se ouvia nada com o barulho do campo. Só levantava o braço e dizia: ‘Está bom, está bom, Mister’. (Risos) Também tivemos sorte, tivemos grandes direções e um grupo de jogadores que jogaram juntos seis, sete anos. Quando tens aquela espinha dorsal, é mais fácil moldar e adaptar. Fomos cinco ou seis que passámos sete ou oito anos com ele. Depois quando chegava um jogador novo cada um de nós dava o máximo para ele se adaptar, para explicar como funcionava.

Também bateram o pé aos grandes. O Djukic marcou num empate em casa do Sporting, lembra-se disso?

Eles acabaram por empatar. Naquela altura era complicado, equipa pequena contra grandes, os grandes estavam sempre protegidos. Agora a arbitragem é muito melhor. Antigamente os clubes grandes estavam protegidos de tudo. Uma equipa pequena ganhar a uma equipa grande fora… Se empatássemos já era muito, ganhar era impossível. Cartões, penáltis, isto, aquilo… Mas faz parte também. Não foi só em Portugal, foi em todos os lados. Agora é muito mais fácil jogar. Agora qualquer toque é falta, naquela altura valia tudo… Não havia câmaras, nada, era outra coisa.

E lembra-se do golo ao Sporting?

Lembro. Passei ao nosso lado direito, a uns dez metros do meio-campo para a frente, depois vi que o Costinha estava fora e mandei uma trivela. Ele só olhou para cima… Foi o melhor golo do campeonato.

Foi eleito melhor golo?

Foi.

Lembra-se de outros grandes golos que tenha marcado?

Eu aqui no Farense, quando cheguei, mudei. Na Sérvia era mesmo avançado, o que chamam primeiro ponta de lança. Aqui o Farense jogava de maneira diferente, eu descaía mais ao lado esquerdo ou direito, procurava a bola … No início era complicado, porque praticamente a tática era defender bem e tentar o contra-ataque. E eu olhava e estava sozinho. No primeiro ano tive o Pitico comigo. Quando o Hassan chegou ele ficou mais junto dos centrais e eu fiquei mais liberto, a abrir, a procurar, a receber a bola, cruzar. Ofereci muitos golos. A minha função era mais de trabalho para a equipa, era um avançado mais móvel.

E como foi aquela eliminatória de Taça UEFA com o Lyon?

No primeiro jogo o Lyon rematou duas vezes e marcou um golo. Eu tive azar, fiquei lesionado. No segundo jogo não joguei. Lá também foi 1-0, de penálti. Mas vamos dizer uma coisa. Se tivesse sido a equipa que chegou à UEFA a jogar contra o Lyon a gente eliminava o Lyon.

A equipa mudou muito, não foi?

Sim, metade da equipa saiu. Saiu o Hassan, o Jorge Soares e o King para o Benfica, o Miguel Seródio, o Sérgio Duarte e o Raúl para o Boavista. Seis jogadores. Em 1995/96 chegaram sete ou oito jogadores novos. Para se adaptarem não é a mesma coisa.

Perdeu competitividade?

Depois de sair o Hassan e esses jogadores, sobretudo em 196/97 e 97/98, a equipa caiu muito. Em 97/98 safámo-nos no último jogo aqui contra o Rio Ave e eu marquei um golo.

Foi o golo que salvou o Farense…

Sim, ficámos na I Divisão e eu parei. Esse jogo contra o Rio Ave foi o meu último jogo pelo Farense.

Achou que já não tinha condições para continuar?

Já estava um pouco cansado e saturado. Já estava muito desgastado, com lesões… Era melhor acabar do que ficar a arrastar-me e a não jogar como eu queria. Foi a melhor altura para parar. O Farense ficou na I Divisão, eu já tinha dado o que tinha a dar. Depois o Farense sofreu muito, nos anos 2000 foi sempre a baixar…

Foram tempos difíceis para o clube e para a cidade, não foram? Como é que acompanhou esses tempos?

Fui acompanhando e até me dispus a ajudar o António Boronha e o Luís Baptista, mas eles voltaram numa altura em que o Farense já estava mesmo cheio de problemas e de dívidas. O que eles precisassem, eu estava disposto a ajudar. Não queria ficar dentro do clube, porque estava saturado de futebol e tinha outros projetos. Mas fui acompanhando e sou sempre do Farense. É sempre o meu clube, independentemente de quem está lá.

Costuma ir ao futebol?

Sim. Vou quando estou cá, porque viajo muito.

E como é que viveu este regresso à Liga?

O Farense nem mereceu descer. Tiveram muito azar…

Não mereceu descer em 2021?

Não. A quantidade de jogos que perderam em que sofreram golos nos descontos, é mesmo azar. Quando desceu, o Farense perdeu sete ou oito pontos depois dos 90 minutos. Não mereciam descer naquela altura. Vamos ver como vai correr agora, como vão preparar. O Farense é um clube sério, agora desde que está o presidente Jorge Rodrigues não tem problemas de financiamento, paga bem, agora os jogadores têm de puxar…

Acha que desta vez o Farense tem condições para ficar na Liga?

Espero que sim. Oxalá prepare uma boa equipa e acerte nos reforços. O Farense agora tem tudo. Tem que se reforçar a equipa para a I Divisão, claro, isso o presidente e o treinador sabem. O que interessa é que o Farense está na I Divisão e oxalá não desça nunca mais. Porque Faro merece uma equipa de I Divisão. E os sócios do Farense. É um clube e uma cidade que merece.

É do Farense e já se sente algarvio também?

Sim. A minha filha tem 25 anos e nasceu cá, depois tenho mais um com 16 anos que nasceu cá. Agora tenho uma neta algarvia também. Somos todos algarvios. Estamos aqui bem no nosso paraíso.

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