«Jorge Gonçalves prometeu-nos um apartamento, depois passou para um carro, no fim deu dinheiro»

11 jan, 08:13
Rui Maside (Facebook pessoal)

«Destinos» encontra Rui Maside, extremo que jogou no Sporting nos anos oitenta, que se tornou companheiro de viagem de Mészáros no V. Setúbal e que foi orientado por Jorge Jesus no início da carreira do treinador. Venha daí nesta conversa cheia de memórias.

DESTINOS é uma rubrica do Maisfutebol: recupera personagens e memórias das décadas de 80, 90 e 00s, marcantes no nosso futebol. Viagens carregadas de nostalgia e saudosismo, sempre com bom humor e imagens inesquecíveis. 

O falecimento do mítico Ferenc Mészaros leva-nos até Rui Maside, um dos últimos colegas de equipa em Portugal com quem o antigo guarda-redes ainda mantinha contacto.

Rui Maside, 59 anos, mais de quatro décadas dedicadas ao futebol, está atualmente a treinar o 1º de Dezembro, em Sintra, depois de ter estado na equipa técnica do brasileiro Paulo Silas (outro antigo companheiro do Sporting) no Qatar e no Brasil.

Em conversa com o Maisfutebol, recorda a amizade com Mészaros, com quem ia todos os dias de carro de Corroios para o Seixal.

Fala de uma estrela do futebol, com duas presenças em Mundiais, que se destacava por ser um líder, um duro, que jogou vários jogos com um dedo partido, às vezes defendendo só com uma mão. Só um acidente de carro, aliás, o tirou da baliza.

De resto, Rui Maside fala da carreira que teve, dos tempos no Sporting, das promessas não cumpridas do «bigodes» Jorge Gonçalves e de um pontapé num jogador da Real Sociedad que lhe mudou a carreira. Quando tudo parecia correr sobre rodas.

Também recorda Jorge Jesus em início de carreira, quando o treinou no Amora, e o louco V. Setúbal de Malcolm Allison e Roger Spry, que ficou para a história como uma equipa de índios.

 

O seu trajeto no futebol começou bem por baixo, não é?

Nasci em Luanda, vim para Portugal muito novo e comecei a jogar no Alferrarede, que era o clube da minha terra. Era júnior e já jogava como sénior na terceira divisão. Depois, como o meu pai era emigrante na Suíça, fui ter com ele para passar aquelas férias grandes que havia antigamente, de dois meses e tal. Acabei por ficar três anos.

E continuou a jogar, não é?

Sim, comecei a jogar no Étoile Carouge. Logo nos seniores, apesar de ser júnior. Cheguei a defrontar o Benfica, que ia muitas vezes fazer a pré-época na Suíça. Tudo começou num torneio de fim de semana, em que eu participei. Fui o melhor marcador e um dirigente que estava lá a ver convidou-me para ficar. Falou com o meu pai e fiquei lá a jogar nesse clube, que na altura estava na II Divisão.

Nessa altura também trabalhava?

Sim, o namorado de uma tia minha era gestor nuns hotéis e eu, que sempre fui bom a inglês, fiquei a fazer noites num hotel. Ganhava-se bem, ganhava-se muito bem para aquela altura. Nós treinávamos ao fim da tarde, por isso eu dormia até às 16 horas, ia treinar às 17 e a seguir ao treino fazia a noite toda no hotel. Era tranquilo. Quando somos novos, não custa.

Mas depois acabou por regressar a Portugal...

O clube não era profissional e eu queria ser profissional. O Servette queria-me para a primeira equipa, mas não foi um bom timing e por isso voltei sozinho para Portugal, para procurar um clube onde pudesse começar a minha carreira. Trazia um dinheiro bom, por isso andei por aí um mês a gastar do meu bolso e a bater a algumas portas. Ainda treinei no Estrela e no Belenenses, mas era meio da época e toda a gente me dizia que não tinha dinheiro.

E como é que acabou no Amora?

Eu ia fazer lá um treino à experiência e encontrei o mister António Medeiros, que estava de saída para o Estoril. Ele viu-me e foi falar com o presidente Fernando Paixão. ‘Este miúdo não precisa de treinar. É para assinar já, que eu conheço-o bem’.

Após dois anos saltou para um histórico como é o V. Setúbal?

Isso mesmo. Estive quatro anos no Vitória. A equipa tinha descida à II Divisão e o presidente Fernando Oliveira falou comigo para ir para lá. O treinador era o Malcolm Allison e tinha uma super-equipa: Ferenc Mészáros, Eurico, Jordão, Manuel Fernandes, Hernâni, Ademar, Zezinho, enfim. Subimos de divisão, com nove pontos de avanço sobre o Estrela da Amadora, que ficou em segundo. Depois estreei-me na primeira divisão e fui para o Sporting.

A propósito do Mészáros, ele numa das últimas entrevistas que deu disse que o Rui Maside era das poucas pessoas com quem ainda falava em Portugal...

É verdade.

Ainda mantinham muito contacto?

Cheguei a ele através do filho Daniel. Quando joguei com o Mészáros no V. Setúbal o filho já por lá andava. Ele levava-o aos sábados para treinar connosco. Então eu consegui o contacto do filho e através dele cheguei ao pai. Nós íamos todos os dias juntos para Setúbal. Ele morava na Charneca da Caparica e eu morava em Corroios, então íamos sempre juntos, às vezes levava ele o carro e às vezes levava eu. Mas era mais ele, porque gostava de ser ele a conduzir. Por isso falávamos várias vezes, desde que arranjei o contacto dele. Era uma pessoa que me ficou sempre no coração. Uma pessoa espetacular.

O que se recorda do Mészáros dessa altura?

Tinha uma personalidade muito forte, era um líder, e desportivamente estava à frente de toda a gente. Naquele tempo, com aquelas bolas pesadonas, ele lançava a bola com a mão para o outro lado do campo. Nós até comentamos agora que com as bolas de hoje chegava à grande área adversária. Com a mão, atenção. O Neno tinha vindo do Benfica para o Vitória e só jogou três jogos porque o Mészáros teve um acidente e ficou ferido numa vista. De resto, nem com o dedo partido o Mészáros perdeu o lugar para o Neno.

Mas o dedo partido foi também nesse acidente?

Não, não. Foi num treino. Jogava com o dedo ligado, defendia com uma mão, mas não dava hipóteses. Era fenomenal. E ele chegou ao Vitória já no fim da carreira, com 36, 37, 38 anos.

E essas viagens de todos os dias com ele?

Ele falava aquele português meio atrapalhado, mas vínhamos sempre a conversar. Fumava muito, às vezes acendia um cigarro no outro, mas naquela altura era mesmo assim. Ele não comia muito, sempre foi um homem esguio, mas fumava imenso. De resto, gostava muito de ensinar e dava muitos conselhos. Era gente boa, amigo do amigo, mas fazia-se muito respeitar. Tinha um carácter fortíssimo.

Havia um respeito muito grande por essas figuras, não é?

Sim, claro. Eles eram as referências, nós os aprendizes e a coisa funcionava. Aliás, por isso é que funcionava, porque havia um respeito muito grande.

Tratavam esses jogadores de que já falámos por ‘senhor’?

Não, nessa altura não. Só por brincadeira. Mas se aparecesse um miúdo dos juniores que subisse aos seniores, aí já era diferente. Ainda não estava no grupo. Havia muito aquela coisa dos miúdos terem de ser aceites no grupo. Tinha de mostrar, em primeiro lugar e principalmente, que era bom jogador, e depois tinha de ter uma disciplina rigorosa. Quando era aceite no grupo já podia brincar. Era assim que funcionava.

Carreira de jogador:

2003/04: Eléctrico
2002/03: Eléctrico
2001/02: Eléctrico
2000/01: Eléctrico
1999/00: Estrela Vendas Novas
1998/99: Amora
1997/98: Seixal
1996/97: Freamunde
1995/96: Lixa
1994/95: Amora
1993/94: Amora
1992/93: Amora
1991/92: Amora
1990/91: V. Setúbal
1989/90: Sp. Braga
1988/89: Sporting
1987/88: V. Setúbal
1986/87: V. Setúbal
1985/86: V. Setúbal
1984/85: Amora
1983/84: Amora
1982/83: Etoile Carouge
1981/82: Etoile Carouge
1980/81: Etoile Carouge
1979/80: CDR Alferrarede (juniores)
1978/79: CDR Alferrarede (juniores)

Esse Vitória tinha o Roger Spry na equipa técnica do Malcolm Allison, não era?

Sim, o preparador-físico era Roger Spry, que esteve no Sporting e no FC Porto. Com ele era tudo uma novidade. Por exemplo, levava uma aparelhagem para o campo e treinávamos com música. Fazíamos exercícios impensáveis para a altura, movimentos de karaté e tal. Um dia convidou três instrutores de ginásio para treinar, para ver se aguentavam. Aos 40 minutos nós continuávamos lá e eles já tinham saído disparados. Nunca corríamos à volta do campo. Subíamos para o relvado descalços e fazíamos exercícios específicos de velocidade, força e resistência.

E isso notava-se nos jogos?

Tínhamos uma preparação fora do normal. antes dos jogos aquecíamos sempre no balneário, só o Mészáros é que fazia o aquecimento no relvado. Um dia, antes de um jogo com o V. Guimarães, disse-nos que não iríamos aquecer. ‘Equipem-se, que eu já venho’. Mandou ligar a sauna, estivemos quatro ou cinco minutos dentro da sauna todos equipados e saímos de lá diretamente para o campo para jogar. Ganhámos 4-2. Isto era impensável.

Completamente inovador...

Sim, sim, veio inovar EM tudo. Ele vinha do futebol americano, no qual os jogadores jogam com capacete, e às vezes a luz a bater nos aros encandeia os jogadores. Então ele aprendeu que pintar os olhos ajuda nestas alturas. Quando estava sol, mandava-nos pintar um retângulo por debaixo dos olhos, para conseguirmos manter os olhos abertos quando olhávamos para cima. Depois até começaram a chamar-nos de índios.

E como é que se deu a mudança para o Sporting?

O presidente era o Jorge Gonçalves e o treinador ia ser o Manuel José. Foi ele que me contratou. Só que houve uma Assembleia-Geral e os sócios criaram uns problemas, porque ele já tinha estado lá e não sei quê. Por isso não chegou a ir e acabou por vir depois o uruguaio Pedro Rocha. Estava a fazer uma boa temporada, mas depois cometi um erro e borrei a pintura toda.

O episódio na Taça UEFA, não é?

Sim, pontapeei um jogador da Real Sociedad. Depois fiquei um ano suspenso da UEFA e fui emprestado ao Sp. Braga. Curiosamente foi o Manuel José que me emprestou. Ele na época a seguir voltou mesmo ao Sporting e emprestou-me. Podia ter feito uma carreira diferente.

Antes disso ainda teve aquele momento alto com o golo ao Ajax...

Sim, sim. Nessa altura até se falava que podia ir para a Real Sociedad. Fiz o golo ao Ajax fora, nós seguimos em frente e havia notícias de que a Real Sociedad me queria. Mas depois com aquele erro deitei tudo a perder. Eles vieram buscar o Oceano e o Carlos Xavier.

E foi verdade que o Jorge Gonçalves prometeu oferecer um apartamento no Algarve a cada jogador se afastassem o Ajax?

Foi um mês antes da eliminatória. O Ajax tinha uma equipa fabulosa, nos dois anos anteriores tinha ido à final da Taça das Taças. Então o Jorge Gonçalves disse que dava um apartamento no Algarve a cada jogador se passássemos a eliminatória. Nós começámos logo a ver que era demais. Mais tarde, passou o prémio para um carro. O Sporting era patrocinado pela Renault e disse então que todos os jogadores receberiam um Laguna. Quando chegou o jogo, o prémio acabou por ser dinheiro. De um apartamento passou para um prémio normal.

O Sporting dessa altura era algo instável, não era?

Era um Sporting que falava muito. Estávamos alguns meses sem receber, o presidente dizia que já estava tudo pago, íamos a ver e não estava nada. Havia o fantasma do Natal, nós chegámos ao Natal em primeiro, ele entra no balneário a dizer que vai pagar tudo e nada: ninguém recebia nem mil escudos. Enfim, foi uma fase difícil.

Acabou por ficar só um ano.

Sim, eu tinha contrato por três anos. Na segunda época fui emprestado ao Sp. Braga, depois voltei ao Sporting, mas fizeram-me aquilo que na altura era muito normal: ou rescindes contrato ou colocamos-te a treinar sozinho. Fui falar com o José Romão e com o presidente Fernando Oliveira, rescindi contrato e voltei ao V. Setúbal. Perdi muito dinheiro, mas foi melhor assim.

Esse V. Setúbal também tem grandes nomes, vários internacionais.

Eu, Diamantino, Dito, Jaime Pacheco, Jorge Martins, Nunes, Yekini, Makukula, Mladenov. Mas não deu certo e descemos de divisão. Foi pena porque era um grande clube e pagava sempre certinho.

Depois regressa ao Amora e encontra o Jorge Jesus.

Eu saio do Vitória sem perceber porquê. O que os diretores me disseram é que não atendi o telefone, enfim. O Amora tinha subido à II Divisão com o mister Jorge Jesus e então veio falar comigo. Fizemos uma grande época e subimos à Divisão de Honra. Tínhamos uma grande equipa, também. Era para ficar dois anos, fiquei quatro. Depois o Jorge Jesus foi para o Felgueiras e arranjou-me a ir para o Lixa, que era lá ao lado.

Como é que ele era nesse início de carreira?

Como era agora. Precisamente igual. Vivia para o futebol, respirava futebol de manhã à noite, exigia muito dos jogadores e valorizava muito atletas. Um jogador que entendesse que tudo o que o mister Jesus fazia era para o bem desse jogador, saía sempre valorizado. Acho que ele exige muito dos jogadores porque também exige muito dele. Para ele só existe futebol, não há mais nada à volta. É a maneira de estar dele.

Acabou como jogador-treinador no Eléctrico, virou treinador e passou por vários países, não é?

Sim, Qatar, Brasil, enfim. Nós, portugueses, temos uma capacidade de adaptação que outros povos não têm. Estamos muito mais à frente, somos mais exigentes, damos mais de nós. O Qatar é uma cultura completamente diferente, só agora com o Mundial é capaz de se abrir um pouco mais, mas levei sempre a minha família comigo e eles adaptaram-se muito bem ao Qatar. É um país muito seguro, que paga salários fora do normal, enfim.

Foi no Qatar que reencontrou o Silas, que depois o levou para o Brasil?

Sim, tinha sido colega do Silas no Sporting e fui para o Qatar como adjunto do Jorge Paixão. O contrato acabou, eu estava para regressar e encontrei-o. Disse-lhe que na semana a seguir ia regressar a Portugal e ele disse-me para ficar com ele. Depois fomos para o Brasil, onde em dois anos passámos por quatro clubes: Náutico, América Mineiro, Portuguesa dos Desportos e Ceará. Criámos uma grande relação, ao ponto de sermos até colegas de quarto nos estágios.

 

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