Como o presidente do Sri Lanka passou de "herói de guerra" a fugitivo

CNN , De Rhea Mogul - Iqbal Athas, da CNN, contribuiu para este relatório
19 jul, 14:15
O ex-presidente do Sri Lanka Mahinda Rajapaksa, à esquerda, com os irmãos, o presidente Gotabaya Rajapaksa, centro, e o ex-ministro do Desenvolvimento Económico Basil Rajapaksa, em Colombo, no Sri Lanka, a 4 de julho de 2018

Outrora eram vistos como heróis da nação, líderes guerreiros quase míticos que derrotaram os separatistas numa guerra civil sangrenta.

No entanto, os últimos dias da dinastia Rajapaksa do Sri Lanka contam uma história muito diferente.

Na madrugada de quarta-feira, o presidente Gotabaya Rajapaksa fez uma saída apressada da nação sul-asiática, dias depois de milhares de manifestantes furiosos terem invadido a sua residência oficial, nadado na sua piscina e exigido que ele finalmente fosse embora.

Esperava-se que se demitisse mais tarde nesse dia, mas Gotabaya Rajapaksa não esperou para que se tornasse oficial. Em vez disso, antes do amanhecer, embarcou num avião militar que saía de Colombo, a capital comercial do país atingida pela crise, e fugiu para as Maldivas.

A sua partida é um momento histórico para a nação insular de 22 milhões de pessoas, que os Rajapaksa governaram com mão de ferro durante grande parte das últimas duas décadas, antes de perderem a confiança dos cidadãos que antes os adoravam.

"A visão de Gotabaya Rajapaksa a fugir do Sri Lanka num avião da força aérea representa (a queda) desta família", disse Ganeshan Wignaraja, investigador sénior do think tank britânico ODI Global.

"Não acho que o legado deles seja positivo. Mas espera-se que o Sri Lanka siga em frente numa nova direção."

Enquanto os jubilantes cingaleses nadavam na piscina presidencial, cantavam na sala de jantar presidencial e dançavam à volta dos opulentos recintos do palácio, era evidente que muitos partilhavam esse otimismo – pelo menos por enquanto.

 

Manifestantes na residência oficial do presidente do Sri Lanka, Gotabaya Rajapaksa, em Colombo, a 12 de julho

A ascensão dos Rajapaksa

À medida que o país dá os primeiros passos na sua admirável nova era, os especialistas dizem que não era má ideia ponderar sobre o que correu mal com a última, a começar pela ascensão e queda dos Rajapaksa.

Gotabaya Rajapaksa não é o primeiro membro da família a ser presidente. O seu irmão Mahinda Rajapaksa que, tal como Gotabaya foi amplamente aclamado de "herói de guerra" entre a maioria da população, foi eleito presidente em 2005 e alcançou um estatuto quase lendário em 2009, quando declarou vitória na guerra civil de 26 anos contra os rebeldes dos Tigres de Libertação do Eelam Tâmil.

 

O ex-presidente do Sri Lanka Mahinda Rajapaksa, à esquerda, e o seu irmão Basil Rajapaksa, à direita, durante uma campanha no subúrbio de Kirillawala, no Sri Lanka, a 4 de abril de 2010

Essa vitória deu a Mahinda Rajapaksa um poço quase inesgotável de capital político para aproveitar e continuar a desfrutar de um domínio de 10 anos no poder durante o qual foi venerado pela maioria budista cingalesa do Sri Lanka. Era popularmente referido como "appachchi", o pai da nação, e as pessoas curvavam-se frequentemente à sua passagem e temiam por ele quando não estava bem.

Durante grande parte do seu mandato, Mahinda Rajapaksa dirigiu o Sri Lanka como uma empresa familiar nomeando os seus irmãos para posições-chave; Gotabaya como Secretário da Defesa, Basil como Ministro do Desenvolvimento Económico e Chamal como presidente do Parlamento.

Mahinda Rajapaksa, à esquerda, com o irmão, Gotabaya Rajapaksa, em Colombo, no Sri Lanka, em 2019

E enquanto a situação do país era favorável, apesar das preocupações com o nepotismo, os irmãos continuaram populares. O país viu anos de crescimento, alimentados pelo vasto empréstimo do governo do exterior para financiar serviços públicos.

Mas os bons tempos não iam perdurar.

Breve pausa e regresso

Apesar de a guerra civil ter contribuído bastante para criar a lenda de Mahinda Rajapaksa, também mostrou os primeiros sinais da sua queda.

Segundo um relatório das Nações Unidas de 2011, as tropas governamentais foram responsáveis por abusos, incluindo bombardeamentos intencionais de civis, execuções sumárias, violações e bloqueios de alimentos e medicamentos para evitar que chegassem às comunidades afetadas. O relatório da ONU diz que "várias fontes credíveis estimam que possa ter havido até 40 mil mortes de civis."

O governo de Mahinda Rajapaksa sempre negou veementemente tais alegações. No entanto, os problemas começaram a aumentar.

As preocupações com os direitos humanos foram além da guerra. Os opositores políticos acusaram Mahinda Rajapaksa de dar aprovação a grupos budistas de extrema-direita e as minorias muçulmanas e tâmil do Sri Lanka receavam uma repressão mais ampla sobre as suas comunidades.

Ao mesmo tempo, a raiva pelo aparente compadrio de Mahinda crescia à medida que surgiam sinais de problemas económicos e tornou-se claro que haveria um preço a pagar pela anterior grandeza do governo.

Em 2015, o Sri Lanka devia à China 8 mil milhões de dólares e os funcionários do governo previram que a dívida externa acumulada – tanto à China como a outros países – iria consumir 94% do PIB do país.

Nesse ano, Mahinda Rajapaksa perdeu uma eleição presidencial renhida para o seu antigo ministro da Saúde.

"O Sri Lanka é um país democrático e as pessoas ficaram chocadas com a extensão da tentativa de compadrio", afirmou Wignaraja. "Esta combinação de (nepotismo) e má gestão da economia... as pessoas ficaram zangadas por terem eleito aquelas figuras."

Isso podia ter sido suficiente para acabar com uma dinastia menor, mas não com os Rajapaksa.

Gotabaya Rajapaksa com a mulher Ayoma, nos arredores de Colombo, no Sri Lanka, em 2019

Em abril de 2019, militantes islâmicos mataram pelo menos 290 pessoas numa série de atentados a igrejas e hotéis de luxo. Um país em pânico voltou-se para a única família que sabiam que tinha um registo comprovado de segurança nacional.

Em novembro desse ano, Gotabaya Rajapaksa foi eleito o novo presidente do país. E, tal como o irmão, via a governação como um assunto de família.

"As pessoas depositaram, mais uma vez, a sua plena confiança em nós", disse Mahinda Rajapaksa após uma vitória esmagadora nas eleições legislativas, um ano depois.

"Cumpriremos as suas aspirações e vamos sempre valorizar a confiança que depositaram em nós."

Gotabaya nomeou Mahinda Rajapaksa pouco depois.

'Cair em desgraça'

Ainda assim, tal como tinha acontecido ao irmão, começaram a surgir fissuras na presidência de Gotabaya Rajapaksa, à medida que as dúvidas sobre a gestão económica do seu governo continuavam a aumentar.

Os peritos dizem que os problemas económicos do Sri Lanka não foram inteiramente culpa do governo, mas os problemas foram agravadas por uma série de más decisões.

Murtaza Jafferjee, presidente do think tank sediado em Colombo, o Instituto Advocata, disse que a vasta onda de empréstimos que o Sri Lanka contraiu para financiar o seu serviço público coincidiu com uma série de golpes profundos na economia do Sri Lanka, desde os desastres naturais, às fortes monções pesadas e aos que tiveram mão humana.

Perante um enorme défice, Rajapaksa reduziu os impostos numa tentativa vã de estimular a economia.

Mas o tiro saiu pela culatra, e acabou por atingir as receitas do governo. As agências de rating desvalorizaram então o Sri Lanka para níveis próximos do incumprimento, o que significa que o país perdeu o acesso aos mercados externos. O Sri Lanka teve então de utilizar as suas reservas cambiais para pagar a dívida pública. Isso afetou as importações de combustíveis e outros bens essenciais, o que fez disparar os preços.

Nas ruas, o público que outrora venerava os Rajapaksa viu-se incapaz de alimentar as suas famílias ou de abastecer os veículos. As pessoas tinham de esperar horas por combustível, muitas vezes em confrontos com a polícia e os militares enquanto esperavam. As prateleiras dos supermercados estavam vazias. A reserva de medicamentos estava em perigo de esgotar.

E culparam os Rajapaksa. Durante meses, os furiosos cingaleses saíram às ruas, acusando Gotabaya e Mahinda Rajapaksa de má gestão da economia.

Multidão na residência oficial do presidente Gotabaya Rajapaksa, três dias depois de ter sido invadida por manifestantes antigovernamentais em Colombo, no Sri Lanka, a 12 de julho

Os protestos começaram pacificamente, mas tornaram-se violentos em maio, levando Mahinda Rajapaksa a demitir-se do cargo de primeiro-ministro. Mas a sua decisão pouco fez para atenuar as frustrações e o seu irmão manteve-se no poder como presidente.

Durante semanas, Gotabaya aguentou, aparentemente sem vontade de deixar a dinastia cair. Mas acabou por não ter escolha, já que a luxuosa casa que outrora usou para entreter os poderosos foi invadida por multidões que fugiam ao calor e saltavam para a majestosa piscina cintilante ou faziam piqueniques no relvado.

Como Wignaraja salientou, a imagem era um final adequado para uma era.

"Temos aquela ideia de que a elite dominante está a viver em grande luxo, apesar de muito corrupta, e o cidadão comum vive em graves dificuldades", disse Wignaraja.

"Passar de serem vistos como heróis para ser expulso da própria casa é impensável. É um cair verdadeiramente em desgraça."

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