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Guerra no Médio Oriente. "A solução de dois Estados é uma questão de quanto roubo legalizar"

31 mai, 21:07

Quase oito meses depois do início da ofensiva de Israel na Faixa de Gaza, a CNN Portugal entrevistou Sami Hamdi, especialista em assuntos do Médio Oriente e analista de risco para a região. Hamdi diz que a União Europeia mudou de posição quanto ao que se passa em Gaza, mas não acredita que seja possível a existência de dois Estados independentes, pelo menos, a curto ou médio prazo. E é particularmente crítico com a Administração Biden, afirmando que os Democratas estão com medo de perder as eleições se abandonarem Israel

Passam quase oito meses desde o início da ofensiva militar do exército de Israel no território palestiniano da Faixa de Gaza, num conflito que fez com que vários países europeus decidissem que era tempo de reconhecer o Estado da Palestina, dentro das fronteiras de 1967 - que resultam, elas também, de outro conflito, a chamada Guerra dos Seis Dias.

Espanha, Irlanda e Noruega reconheceram a Palestina dia 28 de maio, a Eslovénia parece ir pelo mesmo caminho. O governo de Benjamin Netanyahu reagiu prontamente, chamando os embaixadores dos três primeiros países a testemunhar "os horrores do Hamas em território de Israel". 

Telavive insiste que a operação na Faixa de Gaza tem como objetivo a eliminação do Hamas, tanto do movimento político quanto do braço armado, mas as autoridades sanitárias do território relatam bombardeamentos indiscriminados que, até agora, contribuíram para a morte de mais de 36 mil palestinianos, a maioria mulheres e crianças, quase todos civis. 

Seja como for, Israel admite que a ideia de uma guerra rápida parece ultrapassada, mesmo que possa contar com o apoio inquebrantável do país com o maior exército do mundo. Joe Biden já o disse muitas vezes e a Administração Biden já o repetiu, mesmo depois dos massacres do fim de maio em Rafah: os Estados Unidos têm em Israel o principal aliado na região. 

"Biden não quer arriscar e abandonar Netanyahu em ano de eleições"

Sami Hamdi é analista de risco especializado no Médio Oriente. Com formação em Direito Internacional pela Escola de Estudos Africanos e Orientais da Universidade de Londres (SOAS), é editor executivo do site International Interest.

Em entrevista à CNN Portugal, Sami Hamdi diz que, no que respeita à relação entre Washington e Israel, as coisas não devem mudar tão cedo. Os Democratas arriscam-se a perder o apoio de muitos eleitores caso abandonem o governo de Benjamin Netanyahu.

"Biden acredita que, nas eleições de novembro, vai ser mais punido por abandonar a ofensiva de Israel do que é por vir a abandonar a ofensiva em Israel", afirma Hamdi.

"Por isso, quando ouvimos Biden falar numa linha vermelha e Biden passa essa linha vermelha, o que acontece é que vemos que há mais armas a serem enviadas a Netanyahu para continuar com essa ofensiva."

No fim de maio, o New York Times revelou que as bombas usadas nos ataques do exército de Israel em Rafah eram de fabrico norte-americano. Sami Hamdi considera no mínimo contraditório que os Estados Unidos continuem a insistir em fazer o papel de mediador num conflito no qual vende armas a um dos lados. 

"Acho que os Estados Unidos destruíram essa ideia de que são, de alguma forma, um mediador neutro em qualquer questão que se relacione com os israelitas e os palestinianos," explica. "Quando nos referimos a este tema do New York Times ter revelado o facto de terem sido enviadas armas para os Estados Unidos, acho que Biden está mais preocupado com a gestão estratégica da sua imagem do que com a ideia de apoiar os israelitas," continua Hamdi.

Bruxelas "foi mudando de posição" em relação ao conflito

Hamdi diz que, ao contrário dos Estados Unidos, a União Europeia foi mudando de posição em relação a Israel, à medida que se foi agravando o nível de destruição e aumentando o número de mortos - que o analista classifica como genocídio em Gaza. 

"Acho que a expressão de apoio da União Europeia aos palestinianos foi algo lenta, em posicionar-se contra este genocídio que está a acontecer. Mas acho que essa posição foi progredindo ao longo do tempo à medida que imagens das atrocidades chegaram aos telemóveis de todo o mundo. Acho que a UE se está a portar de forma apropriada."

Mas esta evolução do bloco explica-se por motivos muito claros para Hamdi. Além disso, defende o editor executivo do International Interest, não é realista pensar que Berlim e Madrid ou Paris e Bruxelas falam a uma só voz:

"As instituições internacionais estão realmente ameaçadas quando Israel se recusa a obedecer às ordens do Tribunal Internacional de Justiça e ameaça de forma aberta o procurador do TIJ," explica Sami Hamdi. 

"E há várias eleições a acontecer em toda a Europa. É óbvio que a situação em Gaza está a contar para essas eleições, incluindo no Reino Unido", aponta. 

Um futuro com dois Estados "muito difícil"

A questão que se coloca, quando as hostilidades continuam, e a morte indiscriminada de civis palestinianos também, é saber o que vai ser de Gaza quando se calarem as armas, seja graças a um cessar-fogo permanente acordado entre Hamas e os israelitas, seja porque, para o exército de Telavive, a vitória foi alcançada.

O reconhecimento do Estado da Palestina por parte de países como Espanha não deixa antever um futuro fácil para os palestinianos num Estado independente, lado a lado com Israel, defende Sami Hamdi. O futuro parece-lhe bastante menos claro do que isso, apesar da boa vontade de alguns governos da União Europeia. 

"Acredito numa realidade em que há um Estado com direitos iguais para todos. A razão pela qual costumo rejeitar uma solução de dois Estados é porque uma solução de dois Estados é uma questão de quanto roubo legalizar. Tendo em conta que foram roubadas terras palestinianas, qual é a proporção que deveríamos permitir que sejam retiradas?", questiona Hamdi. 

Mas a ideia defendida por Sami Hamdi, a de um Estado do mar (Mediterrânico) ao rio (Jordão) é, de longe, a mais impopular em ambos os lados da barricada deste conflito com quase oito décadas. Os israelitas já foram mais a aceitar sequer um Estado independente para os palestinianos. E os palestinianos não acreditam numa convivência pacífica, não só pelos bombardeamentos indiscriminados dos últimos meses, como pela expansão dos colonatos na Cisjordânia ocupada.

Outra possibilidade seria uma confederação com territórios para palestinianos e israelitas, num modelo de Estado que poderia sofrer com as fragilidades de quase um século de violência e de desconfiança mútua. Um modelo de Estado que poderia sofrer as fragilidades de um Líbano, numa região já de si volátil.

Seja como for, estas são decisões que só podem ser tomadas quando a guerra acabar. 

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