"Sabemos que sempre que chove, a direita se esconde". Chiado dos guarda-chuvas socialistas encharcados de vontade de contrariar tempos difíceis

8 mar, 20:18

O PS quer mostrar força, quer mostrar que está unido para contrariar as adversidades. No derradeiro esforço, ao fazer a tradicional descida do Chiado à chuva, Pedro Nuno Santos vinca a diferença em relação ao adversário, que cancelou o mesmo plano na véspera. Quer mostrar que está pronto para tempos difíceis. António Costa, que lhe segura várias vezes o guarda-chuva, aponta-o como o nome certo para "chegar ao Cabo da Boa Esperança". Para isso, para a vitória no domingo, o apelo é repetido à exaustão: não é possível "desperdiçar votos", há que concentrá-los nos PS. Só assim, avisa o candidato, é que "a esquerda vence"

Pedro Nuno Santos e António Costa saem para o exterior. Alinham-se. Começam por se abrigar debaixo do mesmo guarda-chuva, com Costa a segurar. A imagem fez lembrar a de um outro guarda-chuva, segurado por Costa a Marcelo Rebelo de Sousa, num 10 de junho em Paris. É interpretado no local como um sinal de boas relações em construção. A descida do Chiado, a tradicional descida do Chiado, é mesmo para fazer à chuva.“Faça sol ou faça chuva, o PS está na rua”, atira Mariana Vieira da Silva, cabeça de lista por Lisboa.

Pedro Nuno e Costa debaixo do mesmo guarda-chuva (Lusa)

Mesmo sabendo que o tempo é inimigo, o PS não desmarca a arruada, ao contrário do principal adversário, a AD, que alterou os planos na véspera. É o partido a querer força e mobilização. A descer o Chiado na adversidade, na tentativa de fazer subir os resultados poucos animadores previstos pelas sondagens.

À noite, em Almada, Pedro Nuno Santos confirma esta interpretação: "Todos sabiam que ia chover em Lisboa. Mas nós não alterámos o nosso plano. somos gente de fibra, resiliente". E continua: "Não temos medo da chuva. Sabemos que sempre que chove, a direita se esconde. Mas já chove tantas vezes na vida da gente". Para concluir: "não precisamos de partidos nem de líderes que se escondem da chuva, precisamos é de partidos, de homens e mulheres, que enfrentem a chuva".

Maria Fernanda Lopes vê a multidão passar já junto à Brasileira. "Já lhe dei um beijinho lá em cima ao almoço". São 82 anos de vida. Por isso, também não arrisca cruzar o cordão socialista para um novo cumprimento ao líder do PS. No domingo, se o dia também for de chuva, ela promete não ficar em casa. "Se pudesse, andava a votar de manhã à noite".

Maria Fernanda agradece o direito ao voto (CNN Portugal)

É esse apelo que Pedro Nuno Santos repete uma e outra vez nas declarações aos jornalistas: que "ninguém fique em casa" no dia de votar. A chuva, desvaloriza, "faz parte das campanhas". "À chuva, mas com força, com entusiasmo, com ânimo. Vamos caminhar até 10 de março para ganharmos as eleições. Cada um de nós vai levar um indeciso a votar e vamos ganhar". O destino é claro: "até à vitória".

Nesta tarde, pelo menos, é até ao arco da Rua Augusta. Mas até lá chegar, há muito apoio para receber. É ver Pedro Nuno a furar a bolha, a tornar realidade o desejo de muitas idosas que, sem medir os perigos de uma multidão em movimento, se vão atirando para o meio. "Fui lá, fui lá", reage Isabel Antas. "Ai, que alegria", confessa Maria do Céu Rodrigues. Outros tentam a 'selfie'.

No meio da festa, os socialistas abdicam do guarda-chuva (Lusa)

Costa, lado a lado com o sucessor, cede o protagonismo. Embora haja muitos que o procuram para lhe agradecer o trabalho feito. Neste ponto do percurso, na Rua Garrett, já Pedro Nuno abdicou do guarda-chuva. O cabelo molhado cola-se à cabeça. É assim para Mariana Vieira da Silva, Fernando Medina, Augusto Santos Silva ou Ana Catarina Mendes. Outros notáveis do PS seguem mais à frente, fora da confusão, abrigados nos seus guarda-chuvas.

Porque chove, chove com força, mais do que no dia anterior na arruada em Santa Catarina, no Porto. Também chovem confetis rosas e brancos, que rapidamente se colam às roupas encharcadas. Ermelinda Brito vê-os cair com espanto. Foi presidente da junta desta zona durante sete mandatos. "Não estou aqui para encher, é para dar apoio". Estão todos aqui para dar apoio, para mostrar que estão juntos, mesmo quando o tempo (ou os tempos) é díficil.

Também chovem confetis no Chiado (CNN Portugal)

Nos Armazéns do Chiado, no primeiro andar, os turistas colam-se aos vidros que dão para a rua. Afinal, a imagem que estão a testemunhar vai entrar para a história. Tal como Pedro Nuno Santos quer entrar para a história com uma vitória no domingo. "Espero que isto seja demonstrativo do que se vai passar no domingo", diz uma apoiante, notando a adesão.

Arruada vista do primeiro piso dos Armazéns do Chiado

À chegada ao Rossio, Pedro Nuno é desafiado a saltar. A saltar na calçada escorregadia. Dois momentos de festa concluídos com sucesso, sem tropeções. "Cuidado com a poça, cuidado com a poça", vão alertando na comitiva. Lídia Viamonte segue a poucos metros. "Não podemos deixar mais nenhum ganhar", diz esta antiga empregada de mesa, agora desempregado. A mulher garante que não culpa os oitos anos de PS pela sua situação. É antes culpa da saúde frágil, que não a impede de estar aqui, neste dia, debaixo de chuva.

Lídia também encharcou a camisola para apoiar o PS (CNN Portugal)

Chuva, bom presságio para a vitória? Costa acredita que sim

Arruada termina no arco da Rua Augusta

António Costa faz questão de lembrar uma outra vitória do PS conseguida à chuva, com Jorge Sampaio, nas presidenciais de 1996. “Toda a campanha do Dr. Sampaio, em 1996, quando derrotou o professor Cavaco Silva, foi uma campanha toda à chuva, e acabou muitíssimo bem”.

É o convidado de honra no derradeiro esforço para chamar os indecisos para o voto no PS. É a terceira aparição na campanha do sucessor. O primeiro-ministro demissionário admite que "ninguém gosta de deixar as coisas é meio" mas acredita que "tudo se encaminha para que este mandato seja bem continuado".

"Será sobretudo uma maioria visível no próximo domingo", reage Costa, depois de Pedro Nuno ter apelado a todos aqueles que deram a maioria absoluta ao PS em 2022, considerando que existe no país uma "maioria invisível" que "não está representada nas televisões ou nas sondagens".

Muitos notáveis no tradicional almoço na Cervejaria Trindade (Lusa)

No último dia, Costa vem também para apontar a necessidade de o país ter "um primeiro-ministro que decida". Esse primeiro-ministro, aponta ainda no tradicional almoço da Cervejaria Trindade, é Pedro Nuno Santos, que considera estar "melhor" preparado para aplicar o Plano de Recuperação e Resiliência que ajudou a desenhar. Aproveita ainda para acusar a direita de Luís Montenegro de preparar "um rombo nas contas públicas" se quiser cumprir todas as promessas eleitorais.

No almoço, o ainda primeiro-ministro parece antever o mau tempo que aí vem para cruzar o Chiado, com uma metáfora no mesmo universo de tempestade: se o país conseguiu “dobrar o Cabo das Tormentas”, tem agora oportunidade de chegar “ao Cabo da Boa Esperança”. Com Pedro Nuno Santos.

Abraço a António Costa antes da descida do Chiado (Lusa)

Um incidente em Moscavide

O almoço na Trindade acontece depois de o PS honrar uma outra tradição de fecho de campanha: a arruada de Moscavide, Loures. Forte mobilização. E um ligeiro incidente: quando Rui Garcia, o professor que vive dentro de um carro em Elvas, insiste para falar “um minuto” com Pedro Nuno Santos. O líder do PS é apanhado de surpresa, não sabe como reagir. Há dedos levantados e empurrões. O homem é de imediato afastado pelos seguranças da comitiva.

Abordagem deste professor apanha Pedro Nuno de surpresa (Lusa)

E, no final, a mensagem que Pedro Nuno repete ao longo de todo o dia: “esta eleição é demasiado importante para desperdiçar votos”. É o apelo ao voto útil, à concentração do voto no PS. "Temos de conseguir que a esquerda vença as eleições, mas isso só acontece se o PS vencer as eleições", diz já na Trindade. Porque "os avanços que muitos partidos querem só vão acontecer se o PS vencer as eleições".

Forte mobilização na arruada em Moscavide, de manhã (Lusa)

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