Centeno considera que "inflação é mais injusta do que as medidas para a combater"

18 set, 09:24
Mário Centeno ouvido na Comissão de Inquérito Parlamentar da TAP (LUSA)

Governador do Banco de Portugal escusa-se, no entanto, a dizer se defende se o BCE se devia ou não parar agora

Mário Centeno considera que "a inflação é mais injusta do que as medidas para a combater". A conclusão foi feita durante uma entrevista ao El País, em que o governador do Banco de Portugal afirmou ainda que se as taxas de juro forem mantidas a este nível o caminho que está a ser feito é "para que a inflação possa convergir para 2%".

"O mais importante nesta altura era dar alguma previsibilidade para nos podermos adaptar ao que se espera nos próximos meses. O risco de fazer demasiado está sempre presente na política monetária, como aconteceu em 2008 e 2011, quando o BCE teve de recuar porque o aumento das taxas não era compatível com a estabilidade dos preços, financeira e económica. Esse risco é real e temos de estar vigilantes", alerta Centeno.

O governador do BdP escusa-se a dizer se defende se o BCE se devia ou não parar agora, mas adianta que é necessário garantir que "a previsibilidade", ou seja, em Portugal é preciso "baixar a inflação e garantir que os mecanismos económicos estão à altura da tarefa".

"Não nos podemos desviar deste caminho porque a inflação é mais regressiva e socialmente injusta do que as medidas que utilizamos para a combater, que são muitas vezes duras e prejudiciais para a economia. O problema é que a inflação também o é. No Conselho de Governadores [do BCE], tentamos gerir este difícil equilíbrio", reitera.

Questionado sobre as falhas da política monetária do BCE ao longo dos últimos anos, Mário Centeno explica que "a chave para uma inflação ainda mais baixa e para resistir às subidas das taxas é o mercado de trabalho, que se encontra em máximos históricos".

"Desde o segundo trimestre de 2020, criámos quase 10 milhões de empregos e quase metade deles são preenchidos por pessoas que trabalham num país diferente do seu país de origem. Trata-se de uma novidade na Europa, tal como a baixa percentagem de desempregados de longa duração. É quase uma obrigação de todas as políticas, incluindo a política monetária, proteger este novo status quo que nos afasta do estigma da estagflação, que tem três componentes: baixo crescimento, inflação elevada e desemprego elevado. Falta-nos o desemprego e espero que não cheguemos a ele, porque está na base do baixo crescimento económico da Europa. Mas o risco de uma viragem no ciclo económico está à espreita".

No entanto, os bons indicadores de emprego podem ser ameaçados se a Europa entrar em recessão, como lembra o governador do Banco de Portugal, uma vez que "se não cuidarmos do que ganhámos, isso pode facilmente perder-se".

"O mercado de trabalho nunca reage gradualmente, reage sempre com saltos e variações muito grandes. A perda de postos de trabalho, comparada com os atuais máximos, que a Europa nunca viu antes, pode levar a grandes aumentos do desemprego e a problemas sociais que temos de evitar. Para isso, é preciso previsibilidade e coordenação política. Temos de estar mais unidos".

Mário Centeno é ainda questionado se tenciona deixar o cargo de governador para regressar à política em Portugal, com Centeno a explicar que o último artigo que escreveu seguia o príncipio de que "o governador tem a obrigação de se explicar, para que as pessoas saibam o que pensa a pessoa que tem assento no conselho de governadores do BCE e que toma decisões importantes. É esse o objetivo do presente artigo. O futuro está sempre em jogo".

Já sobre à questão se estaria disponível se o PS o incentivasse a candidatar-se à sucessão de António Costa, Centeno é categórico: "Não é uma questão que me passe pela cabeça".

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