Quando visitou Itália pela primeira vez, em 24 horas tinha comprado uma casa

CNN , Silvia Marchetti
5 mai, 15:00
Ruínas de casa de praia com 2000 anos descobertas em Itália (CNN Internacional)

A compra de uma casa corresponde muitas veze a uma das experiências de vida mais complicadas de negociar, que requer grandes deliberações quanto à localização antes de se passarem semanas em busca da propriedade certa. Encontrar uma casa num outro país é um processo ainda mais repleto de decisões difíceis.

A menos, claro, que sejamos Paul Millet.

No caso, aterrou em Itália pela primeira vez e, antes de o primeiro dia ter acabado, já tinha comprado uma casa própria linda com vistas incríveis no meio da região de Basilicata, no sul de Itália.

Contudo, Millet, um editor de televisão sediado em Los Angeles, sabia exatamente o que estava a fazer. O homem de 54 anos foi atraído até Itália pelas casas postas à venda por um euro, ou pouco mais de um dólar. Mas rapidamente se apercebeu de que vinham com um senão – a necessidade de gastar milhares de euros para as tornar habitáveis.

“Li um artigo na CNN em 2015 sobre propriedades à venda por um euro e o meu interesse foi definitivamente despertado”, diz. “Já tinha visitado vários países da União Europeia em várias ocasiões mas nunca Itália, apesar de estar na minha lista.” 

“Não consigo bem expressar o que é que realmente me atraiu na ideia de comprar uma propriedade de um euro e renová-la, mas foi algo que capturou a minha imaginação.”

Em vez disso, Millet focou a sua atenção noutras propriedades que, apesar de serem mais caras por estarem essencialmente prontas a habitar, também estavam à venda por preços de pechincha.

Para ele, Latronico, uma deslumbrante vila no topo de um penhasco em Basilicata, era o destino perfeito. Apenas duas casas tinham sido vendidas naquele destino por um euro, pelo que concentrou os seus esforços em casas que foram alvo de renovações baratas em barda na tentativa de reavivar a população cada vez menor da vila.

Após ter listado propriedades vazias online no website https://casalatronico.eu/, fazendo a ligação entre antigos e potenciais novos proprietários, vendeu até agora 50 propriedades, na sua maioria a compradores norte-americanos.

Millet diz que começou a planear viajar até Itália para comprar uma casa em 2019, mas que foi fintado pela Covid-19. Finalmente conseguiu concretizar a visita em 2022 após ter rumado à Irlanda para o casamento de um amigo.

Escolheu Latronico porque os locais responsáveis pelo programa de venda de casas pareciam extremamente solícitos face às suas questões em comparação com outras vilas com casas baratas que tinha contactado antes da sua viagem.

“Os preços das casas eram super atrativos, especialmente vindo da área de Los Angeles, e as propriedades de Latronico, na sua maioria, encontravam-se em bom estado.”

“Ao contrário dos programas de um euro, não tinha qualquer obrigação de fazer nada com qualquer casa que comprasse. Obviamente, renovar e tornar as propriedades viáveis era o objetivo, mas enquanto comprador estrangeiro podia fazer o que eu quisesse”, diz Millet. “Gostei disso.”

Ponto de apoio para o futuro

Paul Millet diz que vai gastar cerca de 33 mil euros a renovar a propriedade (Vincenzo Castellano)

A visita à medida pela propriedade, organizada pelas autoridades em Latronico, fê-lo apaixonar-se pela vila e ficou completamente estarrecido com a sua beleza e calorosa receção pelos locais, diz.

“No final do dia, comprei a minha casa e comecei a pensar nas renovações e no futuro”, adianta.

Millet não tem quaisquer planos de se mudar permanentemente para Latronico. Por agora, vê a casa como um refúgio onde pode desacelerar e desconectar-se.

“Pretendo vir pelo menos uma vez por ano para fugir de tudo”, diz. “A casa vai servir de ponto de apoio para futuras viagens pela UE. Provavelmente vou pô-la a arrendar como casa de férias quando não estiver aqui, para a manter com vida, e partilhá-la com família e amigos.”

A casa de um quarto com 60 metros quadrados foi comprada por 12 mil euros e espera gastar até 35 mil dólares (menos de 33 mil euros) a remodelá-la.

A propriedade tem uma varanda, um sótão de arrumos e um terraço na cobertura com “uma vista de morrer”, diz Millet, descrevendo a vista como “a cereja no topo do bolo”.

Apesar de ser pequena, a casa tem duas caves que estão a ser reaproveitadas, uma que outrora servia para abrigar gado, a outra com um antigo forno de pão embutido na parede e que ainda funciona.

Os trabalhos de renovação estão quase concluídos.

“Foi preciso fazer obras na fundação da maior das duas caves”, diz Millet. “Optei pela instalação de um chão de cimento reforçado e o sistema elétrico foi completamente substituído.”

“Dado que a maior cave tem um tamanho considerável, decidi transformá-la numa área de estar que vai incluir um quarto adicional com uma pequena sala de estar contígua e que terá também uma pequena casa de banho e uma lavandaria a servir a casa toda.”

As paredes antigas de pedra áspera da casa foram caiadas de branco para iluminar o espaço. O novo piso de microcimento foi tingido e selado.”

“Está espetacular. Só preciso de lhe acrescentar a casa de banho pequena, fazer algum trabalho de cosmética, arranjar mobiliário e está pronto”, acrescenta Millet.

Cocktails ao pôr do sol

A casa que Millet comprou só tem um quarto, mas traz consigo duas caves grandes (Vincenzo Castellano)

Millet manteve todos os azulejos originais vintage e vai acrescentar alguns detalhes com azulejos mais modernos para ficar mais apresentável. O exterior da casa vai ser pintado de fresco e tanto o terraço da cobertura como os degraus que levam à porta de entrada principal vão ser revestidos com azulejo.

Ele diz que mal pode esperar para ter amigos a saborear cocktails ao pôr do sol no terraço e depois jantar na cozinha mais abaixo.

Millet diz que foi capturado pela tranquilidade de Latronico, em forte contraste com a agitação de LA.

“O estilo de vida é simplesmente mais lento aqui”, diz. “A minha vida em Los Angeles acontece de forma muito mais rápida – com os prazos e obrigações no trabalho, e muitas coisas sociais a acontecer. Gosto da minha vida aqui, mas tirar um tempo para me retirar desse ambiente é muito refrescante. Latronico vai definitivamente ajudar-me a relaxar.”

A vila é tão remota e tão fora do comum que nem sequer aparece em algumas aplicações de navegação. Millet diz que a app de mapas no seu telemóvel não faz ideia de como é que uma pessoa se desloca em Latronico.

“Das duas vezes que vim, a app dos mapas não conseguiu guiar-me com sucesso até ao Airbnb em que estava a ficar. Mas eu orientei-me, obviamente.”

Quando a tecnologia falha, os locais assumem a tarefa de o fazerem sentir-se em casa.

“Durante a minha primeira visita, a anfitriã de Airbnb encontrou-se comigo no sítio onde eu estava a ficar e levou-me a tomar café a um um dos bares locais”, diz. “Apresentou-me ao empregado do bar e depois um cavalheiro mais velho reformado veio falar comigo e ofereceu-me um cappuccino com um grande sorriso.

“Franca, a minha anfitriã, disse que era a forma dele de me dizer que sou bem-vindo aqui. Foi muito cativante. Isso descreve a minha primeira hora em Latronico.”

Millet está entusiasmado por já ter adquirido hábitos locais como os típicos almoços lânguidos e extensos do sul de Itália – bem distantes das saladas rápidas e frugais de Los Angeles.

Mas diz que não tem qualquer problema em comer e exercitar a cintura.

“Não é muito difícil uma pessoa acostumar-se a isso. Simplesmente adoro fazer uma pausa durante o dia. Mesmo que o dia esteja a ser relaxante. É tão diferente de LA.”

Apoio local

Millet (ao centro) com o ex-vice-autarca de Latronico, Vincenzo Castellano (Vincenzo Castellano)

No entanto, há desvantagens em ficar numa pacata vila italiana, diz Milet, embora isso dependa da perspetiva.

“Uma vila remota é apenas isso… remota. Isso é uma vantagem para alguém que procura fugir de tudo para um cenário lindo, mas uma desvantagem para quem quer a ação de uma cidade grande.”

“O mesmo se aplica a atividades. Se alguém quer ficar num sítio onde há uma panóplia de coisas para ver e fazer, então uma aldeia remota não é necessariamente o seu destino. Mas para alguém que quer fugir dos aborrecimentos do dia a dia, então uma pequena vila como Latronico é perfeita.”

Dito isto, acrescenta, Latronico está estrategicamente localizada numa parte de Itália onde é possível ficar numa aldeia pacata e conduzir até outras áreas com locais e coisas interessantes para visitar e fazer, como ruínas gregas e praias.

Enfrentar o processo de compra e venda sem ajuda no terreno é um bico de obra, avisa Millet, que também detém um apartamento num condomínio na ilha havaiana de Maui.

“Navegar a logística de comprar uma casa foi provavelmente o maior desafio. Visto que não vivo em Itália, descortinar as negociações e depois, assim que o preço estava acertado, concluir a transação foi potencialmente um obstáculo.”

Millet foi apoiado durante todo o processo pelo fundador da plataforma habitacional da aldeia, o ex-vice-autarca de Latronico, Vincenzo Castellano, que atua como um intermediário entre compradores estrangeiros e vendedores locais.

Contas feitas, a negociação acabou por ser bastante indolor assim que se chegou a um acordo sobre o preço. Millet assinou uma procuração nos Estados Unidos para permitir que Castellano o representasse no preenchimento da papelada e na gestão do projeto de renovação.

Millet tem um conselho para os estrangeiros que desejem comprar propriedade em pequenas aldeias. “Façam o vosso trabalho de casa” e em primeiro lugar façam uma visita, vivam como um local – mesmo que apenas por um dia.

“Sou o tipo de pessoa que realmente se afunda em qualquer coisa que esteja a considerar, portanto aconteceu de forma natural comigo. Todas as autarquias têm diferentes programas, portanto tenham uma ideia do que envolve cada uma. Saibam que vai custar algum dinheiro ter a casa pronta a habitar, mas que pode ser incrivelmente acessível e depois podem usá-la como vos aprouver.”

Acima de tudo, diz: “Garantam que o sítio vos diz alguma coisa pessoalmente, garantam que o adoram.”

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