De 25 padres suspeitos de abuso de menores, 19 continuam em funções - só seis foram suspensos

10 mar 2023, 22:00
Membros da igreja garantem que "padres podem ser suspensos"

Perante as suspeitas, há dioceses a afastar padres de forma preventiva e outras a mantê-los em funções. O argumento usado é o mesmo nos dois lados: a falta de provas sólidas

Cada diocese está a tomar o seu próprio caminho na hora de decidir se suspende os padres que foram identificados como abusadores de menores na lista da comissão independente e que continuam no ativo.

Até agora, as dioceses de Angra, Évora, Guarda e Braga decidiram afastar os visados, de forma preventiva, argumentando que vão aguardar por mais informações para uma decisão definitiva.

O mesmo argumento, da falta de provas, é usado por Porto, Aveiro e Lisboa, que não suspenderam os padres no ativo identificados na lista.

Já as dioceses de Lamego e Viseu decidiram manter uns e afastar outros.

Contas feitas, depois de conhecido o relatório da comissão independente, há 19 padres que, apesar das suspeitas, continuam em atividade. E outros seis onde essas mesmas suspeitas os afastaram de funções.

Os que não afastaram

Porto: é nesta diocese que se encontra, até agora, o maior número de padres identificados como suspeitos que se mantêm no ativo. Sete, no total. O argumento é de que foi dado início a uma “investigação prévia a respeito dos sete clérigos vivos”, sem qualquer pista que confirme as suspeitas até ao momento.

Lisboa: também a diocese da capital defende que não vai suspender nenhum padre até que haja certezas, tendo pedido mais informação à comissão independente acerca dos padres suspeitos. São, assim, mais cinco que se mantêm em funções.

Aveiro: aqui há um caso identificado pela comissão independente que se mantém no ativo. Este padre, aliás, vai manter-se em funções, com a diocese a argumentar que o caso foi investigado e arquivado pelo Ministério Público.

Dois caminhos distintos

Lamego: a esta diocese chegaram da comissão independente os nomes de dois alegados abusadores de menores ainda no ativo, sobre os quais já foram pedidas mais informações. Mas, ao contrário do que aconteceu em outubro, quando Lamego tinha já afastado dois padres suspeitos, os agora identificados pela comissão vão manter-se em funções.

Viseu: foram cinco os casos identificados pela comissão independente de membros do clero que terão abusado de menores e que ainda estão no ativo nesta diocese. Todos os casos eram do conhecimento do bispo. Quatro deles não foram afastados, por não existirem indícios suficientes. O quinto sim.

Os que afastaram

Évora: a diocese alentejana foi a primeira a avançar com a decisão de suspender um padre identificado como suspeito pela comissão, com o argumento de uma ação preventiva até que os factos sejam devidamente confirmados.

Angra: na diocese dos Açores são dois os membros do clero suspensos “até ao final do processo de investigação prévia". Este processo, explicaram, "já foi iniciado na diocese".

Guarda: também aqui, enquanto se desenrola o processo de investigação prévia, “o sacerdote em causa fica temporariamente afastado das suas atividades pastorais, sem que isso possa ser entendido como uma assunção de culpa”, esclareceu a diocese.

Braga: a diocese está a tomar diligências, tendo suspendido um padre identificado pela comissão e que se encontrava no ativo.

Igreja dividida

A decisão de afastar ou não os padres suspeitos de abuso de menores, que ainda se encontram no ativo, tem dividido a própria Igreja. Para quem defende a continuidade em funções, um dos argumentos está na qualidade das informações recolhidas pela comissão independente quanto aos suspeitos – com nomes de padres que já morreram, que deixaram a Igreja ou que simplesmente não é possível identificar.

Alguns dos nomes mais sonantes da Igreja têm-se mostrado contra o afastamento de padres no ativo, o que tem gerado um coro de críticas, inclusive dos próprios fiéis.

Manuel Clemente, cardeal-patriarca de Lisboa, já se tinha mostrado contra a suspensão preventiva, sem que haja "factos comprovados, sujeitos a contraditório" e um processo canónico feito pela Santa Sé - uma decisão que acabou por se confirmar na diocese da capital.

José Ornelas, presidente da Conferência Episcopal Portuguesa, anunciou que não iria afastar os padres suspeitos por não ter dados suficientes para agir. “Para fazer justiça é preciso saber se há um abusador, quem, quando, em que circunstâncias”, argumentou.

A comissão independente que recebeu as denúncias tem insistido que a Igreja tem todos os dados necessários para afastar ou suspender os membros do clero identificados como potenciais abusadores. Isso mesmo disse Daniel Sampaio à CNN Portugal.

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