Porque a Ucrânia uniu os europeus quando foi invadida e o conflito no Médio Oriente está a dividi-los?

6 nov 2023, 08:00
Tropas israelitas na fronteira com Gaza (EPA/ATEF SAFADI)

Ao contrário do conflito entre a Rússia e a Ucrânia, a guerra no Médio Oriente está hoje muito "politizada" e, por isso, “gera muitas paixões, nomeadamente fora das suas fronteiras”

No início da invasão russa da Ucrânia, eclodiram pelo mundo - sobretudo na Europa - várias demonstrações de apoio aos ucranianos, com milhares de manifestantes a apelar à condenação de Moscovo e ao fim do conflito. Em contraste, desde o ataque do Hamas a Israel, no passado dia 7 de outubro, e da consequente resposta armada de Telavive sobre Gaza, os ânimos entre os europeus exaltaram-se, com protestos pró-Palestina em vários países, incluindo em Portugal, mas também ataques violentos a sinagogas, como aconteceu em Berlim, a invasão do aeroporto no Daguestão e vários países a reforçarem medidas de segurança junto a instituições judaicas.

O contraste nas reações estende-se aos líderes políticos ocidentais, assinala Tiago André Lopes, professor de Relações Internacionais, lembrando que "o norte global rapidamente aceitou a culpabilidade da Rússia e proibiu-a de participar em eventos internacionais, nomeadamente do Mundial de futebol, dos Jogos Olímpicos e da Eurovisão".

A reação do Ocidente - e da Europa, em concreto - não foi a mesma perante o ataque do Hamas em Israel e a retaliação israelita. "A Rússia tinha de jogar a guerra em conformidade com as regras internacionais. Já Israel não tem regras, não tem limites, pode fazer o que lhe apetecer", compara o especialista, salientando assim a "incoerência" dos líderes políticos ocidentais em ambas as situações.

De acordo com Diana Soller, investigadora em relações internacionais, isto acontece por várias razões, desde logo o facto de a Rússia ser vista como "um agressor da própria Europa", o que motiva um certo "receio" entre os europeus e até mesmo entre os líderes políticos, que olham para Moscovo como "um inimigo com força nuclear" e, portanto, "perigoso". Em contraste, "a Ucrânia está a transformar-se num país muito mais próximo dos valores ocidentais", assinala a especialista em relações internacionais.

Israel-Palestina: um conflito "politizado" que gera "muitas paixões"

Mas, segundo os dois especialistas, o conflito no Médio Oriente vai muito além do ataque do Hamas, pelo que as diferentes reações devem ser entendidas à luz do contexto histórico israelo-palestiniano, não sendo, por isso, comparável à invasão da Ucrânia.

O conflito entre os dois povos está hoje muito "politizado”, teoriza Diana Soller, explicando que o ataque do Hamas foi percecionado pela opinião pública e pelos líderes ocidentais com lentes ideológicas. “A esquerda, nomeadamente a esquerda mais radical, tende a ser muito pró-palestiniana, enquanto a direita tende a ser mais pró-israelita”, observa, em declarações à CNN Portugal.

Esta divisão não se verificava até aqui nos Estados Unidos, mas, segundo a investigadora, tudo mudou desde 7 de outubro - um dado que a especialista considera "curioso". "Com o crescimento da agenda identitária à esquerda mais radical, esta divisão começa a verificar-se também nos Estados Unidos, com uma pequena - mas barulhenta - parte da população a manifestar-se a favor da Palestina. Isso está relacionado com o facto de, por um lado, as universidades norte-americanas terem adotado posições da esquerda identitária e, por outro, este tipo de ideologia estar a disseminar-se pela população", nota.

Para se entender esta dicotomia, é preciso voltar atrás no tempo, nomeadamente ao ano de 1948, aquando da criação do Estado de Israel, que implicou o êxodo de cerca de 700 mil palestinianos - conhecido como Nakba -, que se sentiram obrigados ou foram forçados a deixar a sua terra-natal. Desde então, a região não voltou a ter paz. Se, por um lado, Israel tem assumido uma “posição profundamente agressiva” em relação aos palestinianos, “com a construção de colonatos e violações dos direitos dos palestinianos”, à medida que vai “engolindo o território da Palestina”, por outro, “a Palestina tem sido igualmente agressiva com Israel, nomeadamente através de ataques terroristas”, compara Diana Soller.

Ora, esta situação desencadeia um “conflito existencial” que “gera muitas paixões, nomeadamente fora das suas fronteiras”, argumenta a investigadora, que considera que a ONU “carrega na sua história” o “fracasso” de não ter conseguido criar um Estado da Palestina aquando da criação de Israel. Mas não é só a ONU - “todos nós carregamos um peso relativamente ao conflito israelo-palestino”, salienta. “A Europa carrega o peso da perseguição dos judeus durante séculos e a imposição do Estado judaico sem a proteção da Palestina, a Grã-Bretanha carrega a grande trapalhada que fez quando prometeu as mesmas coisas aos dois lados”, exemplifica.

"Todos os atores relacionados com Israel e com a Palestina, mesmo os externos, carregam o seu próprio passado, o que torna muito mais difícil resolver este conflito", resume Diana Soller.

Por isso, continua a especialista, “apesar de este conflito não ser uma guerra entre a Palestina e Israel, mas sim entre o Hamas e Israel, a sociedade dividiu-se nas linhas pelas quais já se dividia antes deste ataque: por um lado, a linha que considera que Israel é um ‘settler colonialist’, isto é, que vai paulatinamente ocupando o espaço da Palestina, com dor e sofrimento para o povo palestiniano, (...) e, por outro, aqueles que estão do lado de Israel e que acreditam que a Palestina não tem usado meios considerados viáveis para reaver o seu Estado”.

Neste contexto, prossegue, o ataque do Hamas a 7 de outubro veio “reacender uma causa que tem ramificações internacionais, que movimenta imensas paixões internacionais e que inclusive é uma causa emblemática de alguns partidos políticos europeus”, quer da esquerda, quer da direita. E, por consequência, fez “ressurgir o antissemitismo e o radicalismo islâmico, nomeadamente na Europa”.

A "intolerância" espoletada pelas redes sociais

Numa perspetiva mais sociológica, Tiago André Lopes salienta a crescente "intolerância" das pessoas para com opiniões contrárias às suas - característica que nota sobretudo desde a pandemia de covid-19 e que atribui à massificação das redes sociais: "Nós saímos da pandemia todos muito extremados nas nossas opiniões e isso é também o produto das redes sociais, que funcionam como câmaras de eco. Ou seja, seguimos pessoas com quem concordamos e bloqueamos quem tem opiniões contrárias às nossas. E isso é um problema, porque acabamos por criar uma ilusão de que toda a gente concorda connosco."

Para o especialista, mais do que discutir quem tem razão e quem não tem neste conflito, importa sobretudo discutir a solução para a região, defendendo que "esta guerra não pode terminar, uma vez mais, com um empurrar dos problemas para a mesa negocial sem calendário", apontando o dedo à ONU, que, diz, "nos últimos dez, 15 anos, não tem mostrado nem vontade, nem capacidade, nem criatividade para desbloquear os vários impasses espalhados pelo mundo".

"Não é só este conflito [entre Israel e a Palestina]. Temos também o caso da Síria, que está em guerra civil há 11 anos e ainda não há um acordo de paz, nem um cessar-fogo. A Líbia ainda está à espera de realizar as eleições que já deveriam ter sido realizadas em 2019, conforme o plano da ONU. O conflito no Nagorno- Karabakh nunca chegou a ser resolvido e vimos o que é que aconteceu recentemente, com a ofensiva do Azerbaijão. A questão de Caxemira também não foi resolvida e a Índia tomou-a como sua, de forma unilateral, sem perguntar à China ou ao Paquistão o que é que eles queriam", resume o professor.

Neste contexto, diz, "a perceção que as pessoas têm é que a ONU não funciona". E, "se o processo político não se credibilizar a si próprio, nós vamos chegar ao final deste conflito [entre Israel e Palestina] com a abertura de portas para um novo conflito lá à frente", adverte.

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