Dois meses de guerra depois, ainda existe espaço para a diplomacia? O diálogo ainda é uma arma

30 abr, 09:00
Apesar de dizer o contrário, Vladimir Putin não se tem mostrado disponível para negociar a paz, mas o cenário pode vir a alterar-se. Foto: Evgeny Biyatov/ Sputnik/ Kremlin Pool Photo via AP

Poderio militar e diplomacia não são caminhos alternativos num conflito, mas complementares

"Jamais devemos negociar por medo, mas jamais devemos ter medo de negociar". A frase é de John F. Kennedy, no seu discurso de tomada de posse, a 20 de janeiro de 1961. Nessa altura, os Estados Unidos viviam o drama da guerra do Vietname e a possibilidade de um outro conflito armado pairava no ar com a Guerra Fria.

Kennedy acreditava que o uso do poderio militar devia ser o último recurso e foi a sua determinação que impediu uma guerra nuclear com a crise dos mísseis de Cuba, no ano seguinte. Confrontado com informações de que a Rússia estaria a juntar um armamento de mísseis nucleares no país das Caraíbas, em vez de atacar, o então presidente norte-americano decidiu antes mostrar a sua capacidade militar ao mesmo tempo que mantinha aberta a via diplomática para evitar um conflito. Seguiram-se dias de intensas negociações que culminariam com a União Soviética a retirar os mísseis da ilha.

Desta vez, a diplomacia não conseguiu evitar uma guerra. Apesar dos avisos dos Estados Unidos, das deslocações de Emmanuel Macron e de Olaf Scholz a Moscovo, a Rússia acabaria mesmo por invadir a Ucrânia no dia 24 de Fevereiro. Dois meses de guerra depois, a ida de António Guterres ao Kremlin e as expetativas que o encontro do secretário-geral das Nações Unidas com o presidente russo geraram, revelaram as fragilidades da diplomacia perante um conflito que continua a matar todos os dias.

Sem fim à vista, e com a ameaça russa de que a Terceira Guerra Mundial é um "perigo real", coloca-se a questão: ainda existe espaço para a diplomacia?

O general Leonel de Carvalho explica à CNN Portugal (do mesmo grupo da TVI) que nesta altura o jogo diplomático entre Ucrânia, Rússia e Ocidente se faz apenas numa direção: só o Ocidente está interessado em resolver o conflito por via do diálogo. "Os russos têm objetivos que não passam, para já, pela diplomacia. Eles só pretendem a diplomacia quando tiverem conseguido determinado número de objetivos, mesmo que sejam mínimos."

Em causa está a garantia de não adesão da Ucrânia à NATO e a independência das regiões separatistas de Donetsk e Lugansk, além do reconhecimento da Crimeia como território russo.

"A diplomacia iria levar a uma paz que tem que ver com cedências de ambas as partes e neste momento não existem essas condições", afirma o militar, que ressalva que "a diplomacia vale sempre a pena".

Para António Monteiro a diplomacia será sempre uma solução viável, e que deve ser sempre seguida. O antigo embaixador de Portugal na Organização das Nações Unidas (ONU) admite que o diálogo ocupa atualmente um "papel secundário", mas considera que "existe sempre maneira de chegar à paz".

A esperança passa por concessões de uma das partes, que algum dia terão de acontecer.

Tiago Ferreira Lopes, especialista em diplomacia, distingue a diplomacia nas vertentes política e técnica. A primeira está "parada", mas a segunda decorre diariamente: "É aquela que nunca parou, que decorre via digital, e que permite corredores humanitários".

Já "a diplomacia onde deviam entrar os ministros dos Negócios Estrangeiros e Putin e Zelensky está parada", afirma.

O momento certo para dialogar

Para Leonel de Carvalho, a Rússia só se virará para a via diplomática em dois cenários: conquista dos objetivos ou chegada àquilo que no meio militar se chama "impasse".

"A Rússia só estará interessada em diplomacia quando for para a mesa com vitórias asseguradas, e neste momento ainda não as tem", acrescenta, dizendo que se a própria Rússia disser que quer conversações é para "desconversar".

Tiago Ferreira Lopes concorda, e lembra que a diplomacia só faz sentido quando existem conflitos. "Não fazemos acordos nem negociamos com amigos, não precisamos de o fazer", aponta. Mas, para existir via negocial, ambas as partes devem reconhecer-se como iguais e estar dispostas a uma conversa, algo que o especialista argumenta que não acontece.

"As duas partes têm de se reconhecer como iguais para irem para a mesa negocial com apetite negocial", explica, lembrando que existem diferentes perceções do conflito de ambas as partes. "O problema aqui é de fundo".

O também professor universitário diz que o facto de as duas partes estarem convictas de que vão conseguir vencer a guerra está a atrasar o diálogo. "Nenhuma das partes que possa vencer um conflito em sede militar vai vencê-lo em sede negocial".

"A Ucrânia quer nivelar a sua posição negocial. A Rússia, que está a ver vitórias no terreno, também não tem vontade de ir à mesa enquanto não reforçar a sua posição", acrescenta, dando como exemplo algo que aconteceu anteriormente, e que pode passar pela conquista russa de algumas cidades, para depois as utilizar como uma vantagem em negociações futuras.

Esforço do Ocidente será em vão?

"Não é bem assim, mas também não é bem o contrário". É com esta frase enigmática que Leonel de Carvalho responde à questão, insistindo que "o esforço existe sempre", até porque "todos estamos a perder e com receio de uma Terceira Guerra Mundial". Apesar disso, e referindo-se em concreto à ida de António Guterres a Moscovo, diz ser algo "indispensável", sobretudo por causa das críticas que já iam surgindo.

Ainda assim, o militar admite que possa existir alguma frustração do lado ocidental. "Os esforços são feitos, mas muitos deles começam a ser feitos já na expectativa de que não vão dar em nada". Ainda assim, figuras como Emmanuel Macron ou Olaf Scholz têm-se desdobrado em esforços para falar com Vladimir Putin, deixando sempre uma porta aberta para as relações com a Rússia.

Tiago Ferreira Lopes lembra que "o Ocidente não está a jogar sozinho", e que outros atores internacionais, como Israel, China ou Índia também têm uma palavra no assunto, em iniciativas diferentes da abordagem ocidental.

O especialista em diplomacia refere que a Rússia age perante o Ocidente, em particular sobre a ONU, com alguma desconfiança, dizendo que aquela organização escolheu um lado desde o início, sendo "vista como enviesada".

Quanto à União Europeia, Tiago Ferreira Lopes argumenta que "não tem capacidade negocial". Os 27 Estados-membros adotaram uma posição pró-Ucrânia mas as sanções aplicadas contra a Rússia, que já vão no quinto pacote, não foram adotadas de forma concertada por todos os países. "A União Europeia quer muito uma ideia de união, mas ela não existe", completa, referindo-se à eventual adoção de países como Áustria, Eslováquia, Hungria e República Checa do pagamento pelo gás natural em euros convertíveis em rublos.

Sobre o papel do Ocidente, António Monteiro afirma que "não há ninguém que não queira assumir um papel de mediador", mas diz que um entendimento, a acontecer, deve sempre envolver as duas partes, a Rússia e a Ucrânia. "É preciso perceber como Moscovo vai aceitar discutir de forma mais honesta um eventual entendimento para cessar-fogo".

"O que tem acontecido é que a Rússia tem utilizado a pretensa abertura para negociação de uma forma manipuladora", acrescenta o ex-diplomata, que se diz convicto de que a Rússia entrou para a guerra com ideias claras, com "factos consumados".

Para o especialista, o Ocidente tem de equilibrar a balança: "Se para a Rússia a questão fundamental é a guerra, para nós também deve ser", diz, referindo que o esforço principal se deve concentrar agora na situação militar e na ajuda à Ucrânia.

As frentes onde a diplomacia é eficaz

Se parece não haver fim à vista para a guerra, António Monteiro lembra que a diplomacia pode atuar noutras frentes, nomeadamente na questão humanitária. Tem sido esse um dos grandes papéis da ONU, e que o embaixador que falou com a CNN Portugal lembrou ter estado em cima da mesa na conversa entre Putin e Guterres.

A saída de pessoas de cidades cercadas, como é o caso de Mariupol, é um dos grandes objetivos da ONU e de outras organizações, tal como é a ajuda a essas pessoas, não só as deslocadas, que ficam no país, mas as refugiadas, que acabam por passar a fronteira. "Dar apoio à Ucrânia e alimentar a ideia de que é possível uma via negocial, tanto para a questão humanitária como para um cessar-fogo, é importante também do ponto de vista mediático", conclui.

Leonel de Carvalho releva esse como o principal papel da ONU, e sublinha que a visita de Guterres a Moscovo é importante, nomeadamente como forma de "gerir a crise".

Mas Tiago Ferreira Lopes sublinha a questão do gás natural, combustível fóssil do qual a União Europeia é altamente dependente da Rússia, e que pode aqui ser uma arma diplomática. O especialista diz que essa pode vir a ser uma vantagem russa, uma vez que já se começam a fazer contas nos 27: a Bulgária, por exemplo, termina as suas reservas daqui a dois meses. E depois?

"Se isto chegar a um ponto em que a população começa a ter água fria no banho, isto vai mexer com a opinião pública interna, e os governos podem mudar de posição. E essa é a ideia da Rússia", acrescenta.

Por outro lado, e "num jogo que se joga dos dois lados", não se percebe quais as verdadeiras consequências das sanções na economia russa, o que pode deixar uma vantagem decisiva para Putin. "Estamos a repetir os mesmos erros, achar que podemos passar linhas imaginárias e que a Rússia não reage e não responde", alerta Tiago Ferreira Lopes, mas a Rússia pode não estar a ser tão afetada, como indica a valorização do rublo nos mercados financeiros.

A guerra pode acabar sem vencedor?

A Ucrânia tem resistido de forma inesperada à ofensiva russa, o que levanta a hipótese de a guerra se poder arrastar ao longo tempo. O tal "impasse militar" referido por Leonel de Carvalho pode ser, então, a porta que abre a via diplomática.

"Um impasse não se pode prolongar muito, porque há baixas muito grandes de ambas as partes, e por isso podem chegar a um acordo", refere, lembrando situações em que isso aconteceu, incluindo em Portugal. Foi o caso da Guerra Civil de 1832 e 1834. Apesar de uma superioridade militar dos liberais, os absolutistas nunca reconheceram de forma oficial uma derrota, sendo que D. Miguel acabou por ser obrigado a declarar derrota, dizendo-se forçado a fazê-lo.

Nessa altura, Leonel de Carvalho explica que o objetivo passa por encontrar um "intermediário", algo que a Turquia já se disponibilizou para fazer, chegando-se depois a um acordo de paz em que ambas as partes cedem nas suas pretensões.

No caso em concreto, e lembrando a dimensão da propaganda russa, o general não acredita que a diplomacia possa existir de forma efetiva antes de 9 de maio, o dia em que os russos celebram a vitória em 1945 sobre a Alemanha Nazi, e que estará a ser preparado pelo exército russo como o dia da vitória na Ucrânia.

Relacionados

Europa

Mais Europa

Patrocinados