Cinco histórias sobre as vitórias e os fracassos da diplomacia (incluindo o momento em que Kissinger sugeriu atacar Portugal)

30 abr, 09:30
Neville Chamberlain e Adolf Hitler após o Acordo de Munique (AP)

Da criação da ONU a uma sugestão de atacar Portugal, momentos-chave na história em que a diplomacia assumiu um papel de destaque. Alguns não resultaram, outros foram essenciais para se evitarem desastres maiores

Quando o primeiro-ministro britânico Neville Chamberlain regressou ao Reino Unido no dia 30 de setembro de 1938 trazia consigo o papel que ia trazer a "paz para o nosso tempo". Essa foi a promessa que saiu de um encontro em Munique que juntou os primeiros-ministros do Reino Unido, França e Itália com o chanceler alemão, Adolf Hitler. Já depois de a Alemanha ter ocupado a Áustria, aquelas três potências europeias cederam ainda a ocupação dos sudetas (território entre a atual Alemanha, República Checa e Polónia) e o controlo de toda a Checoslováquia ao Führer.

Neville Chamberlain segura o "papel da paz" (Getty Images)

Do Acordo de Munique saía a promessa de Hitler de que não seriam feitas mais reivindicações territoriais por parte da Alemanha, o que explicava o triunfal regresso a casa de Chamberlain, que agitou fervorosamente um papel no ar ao sair do avião no aeroporto de Heston, em Londres. "Acredito que é a paz para o nosso tempo", disse. Mas estava enganado. Menos de um ano depois, a Alemanha invade a Polónia, e o Reino Unido viu-se obrigado a declarar guerra ao Terceiro Reich.

Neville Chamberlain, Édouárd Daladier, Adolf Hitler e Benito Mussolini (AP)

Seguiram-se quase seis anos de uma das guerras mais sangrentas de todos os tempos, e que envolveu as principais potências europeias, além dos Estados Unidos e do Japão.

O erro de Hitler

Poder-se-à dizer que Chamberlain cometeu um erro, ou até que foi demasiado ingénuo, mas também Hitler terá cometido um erro diplomático anos mais tarde, que acabou por ser decisivo no decurso da guerra. Ainda antes de os aliados declararem guerra à Alemanha, o chanceler tratou de estabelecer um pacto de não-agressão com a União Soviética, em que, em conjunto com Josef Staline, os países se comprometiam a não alinhar um contra o outro nos anos seguintes.

A União Soviética viu a França e o Reino Unido fecharem a porta de um acordo, e acabou por ter de garantir que não seria o próximo país na lista de Hitler, até porque, com a Polónia conquistada, a próxima fronteira seriam os países do Báltico e a Bielorrússia, na altura repúblicas soviéticas. O acordo foi celebrado entre os mais altos diplomatas de cada país, os ministros dos Negócios Estrangeiros, Joachim von Ribbentrop e Vyacheslav Molotov – que deu nome aos conhecidos cocktails utilizados como armas.

Assinatura entre Molotov e Ribbentrop com a presença de Estaline (AP)

Estava garantida a paz entre as duas nações, ou pelo menos assim parecia. Só que a veia imperialista de Hitler haveria de o trair: já com a França e os Países Baixos conquistados, a 18 de dezembro de 1940, Hitler dá ordem para o lançamento da “Operação Barbarossa”, que se efetivou com a invasão à União Soviética em junho do ano seguinte.

Os alemães ainda conseguiram conquistar os países do Báltico, a Bielorrússia e a Ucrânia, mas o avanço ficou às portas de Moscovo e de Leninegrado (atual São Petersburgo). Uma derrota copiosa para a Alemanha e um erro crasso para Hitler, que acabou por desprezar a diplomacia (que evitou uma guerra por quase dois anos) e tentou alargar-se para lá do seu real poder.

Quando os Estados Unidos quiseram “vacinar” Portugal

Em plena Guerra Fria tudo o que cheirava a comunismo colocava os Estados Unidos em alerta. Com uma Europa ocidental livre do perigo, foi com alarme que os norte-americanos receberam a notícia de que Portugal tinha entrado num Processo Revolucionário Em Curso (PREC).

A possibilidade de um Portugal comunista era um perigo em vários sentidos: um aliado soviético na NATO poderia contagiar outros países. Por isso, o secretário de Estado dos Estados Unidos, Henry Kissinger, homem-forte da diplomacia com Richard Nixon e Gerald Ford, admitiu aplicar a sua teoria da “vacina”: se Portugal caísse nas mãos dos comunistas isso poderia alastrar-se a Espanha, Itália ou Grécia. Um ano depois da revolução dos cravos, e numa reunião em plena Casa Branca, o diplomata vaticinou: “Em 1980 podemos ter comunistas a governar Portugal, a Grécia e talvez Itália”.

Mas antes disso, a 27 de março, tinha deixado bem claro o caminho a seguir: "O que vamos fazer se este tipo de Governo quiser manter o país na NATO? Quais os efeitos disso em Itália? E em França? Provavelmente, temos de atacar Portugal, qualquer que seja o resultado, e expulsá-lo da NATO", disse a Gerald Ford.

A pressão internacional, decorrida de afirmações como as de Henry Kissinger, que voltaram a ser explicadas numa audiência com o Papa Paulo VI, foi mais uma acha para a fogueira diplomática que ardia em Portugal, onde se temia uma guerra civil. E isso mesmo esteve perto de acontecer a 25 de novembro de 1975, quando um movimento militar se juntou para evitar a ocupação comunista do poder. A intervenção do Grupo dos Nove, constituído por oficiais das Forças Armadas, foi decisiva para evitar um confronto militar, nomeadamente entre fações das Forças Armadas. A diplomacia, com a ajuda da dissuasão, funcionou neste caso.

Autoridades retiram católicos presos no Patriarcado, em Lisboa, durante o PREC (Getty Images)

Da Primeira Guerra Mundial à ONU

Depois de vários anos de paz na Europa, uma sucessão de acontecimentos levou à Primeira Guerra Mundial, a maior guerra até então, que durou entre 1914 e 1918. Todos os esforços de diplomacia falharam, mas os erros cometidos alertaram para a necessidade de criar uma organização que pudesse prevenir novos confrontos.

Nascia, em 1919, a Sociedade das Nações, uma organização formada pelos países que saíram vencedores da guerra, e que tinha como objetivo manter a paz no mundo. 

Vinte anos mais tarde, a Alemanha Nazi pôs fim ao clima de paz, mas a Sociedade das Nações era uma ideia que vingaria mais tarde, resultando, em 1945, na formação da Organização das Nações Unidas (ONU), que hoje em dia conta com 193 membros, entre os quais a Rússia e a Ucrânia.

Votação do Conselho de Segurança da ONU, 1950 (AP)

Desde o início da guerra em solo ucraniano que a postura da ONU tem sido fulcral para a diplomacia. É através de agências daquela organização que se organizam várias evacuações de cidades, sendo também através dela que chega ajuda humanitária a muitos locais na Ucrânia, mas também na Polónia ou na Roménia.

Recentemente, naquele que foi o esforço diplomático mais visível, o secretário-geral da ONU, o português António Guterres, visitou a Rússia, onde falou com Vladimir Putin. Dali seguiu para Kiev, para se encontrar com Volodymyr Zelensky.

Na Síria, na Etiópia, no Iraque e em tantos outros locais, a ONU tem mantido a sua esfera de influência, transitando a sua função diplomática além da esfera militar.

Israel, um caso de (in)sucesso duradouro

Criar um país do zero nunca seria tarefa fácil, mas fazê-lo para dar lar a um grupo étnico-religioso ainda mais, com a agravante de que a zona em questão era tumultuosa. Em Israel, país criado em 1948, a diplomacia nunca deixou de estar presente de forma intensa, evitando por várias vezes a guerra, mas não o conseguindo fazer noutras alturas.

A diplomacia surgiu em força logo no início. É que os Estados Unidos apoiaram, logo em 1917, a criação de uma casa para os judeus na Palestina. No entanto, com fim da Segunda Guerra Mundial, e com os milhões de refugiados que dela resultaram, os Estados Unidos, pelo presidente Franklin D. Roosevelt, garantiram aos países árabes que iriam adotar uma posição neutra, não intervindo na questão sem antes ouvir judeus e árabes.

Em sentido contrário vinha o Reino Unido, que tinha um mandato colonial para a zona até maio de 1948, e se opunha à criação de um Estado, fosse ele judeu ou árabe, na Palestina.

Foi precisamente a ONU quem veio, em 1947, ter uma intervenção decisiva, definindo a partilha do território entre um Estado hebraico e um Estado palestiniano, sendo que Jerusalém, com estatuto de cidade neutral, seria administrada pela própria ONU.

Judeus celebram em Tel Aviv após ONU anunciar divisão da Palestina (AP)

Com ambos os lados descontentes, semeou-se um cenário em que, de forma regular, o conflito armado regressa à zona. É comum ouvir, de quando em vez, que uma bomba explodiu em Jerusalém ou na Faixa de Gaza. De acordo com o projeto Biblioteca Judaica Virtual, quase 25 mil judeus/israelitas morreram desde 1948, sendo que do lado árabe/palestiniano as baixas já ultrapassaram os 78 mil.

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