Cinco maneiras como Putin apoucou Guterres (e as Nações Unidas)

27 abr, 22:51
António Guterres foi a Moscovo com uma mensagem de paz, mas não conseguiu alterar em um milímetro o discurso de Putin. Foto: Kremlin Pool via AFP

Deu (literalmente) distância, repetiu a narrativa russa, citou artigos truncados da ONU (depois de questionar a sua importância) e até chegou a dizer que Guterres está mal informado. Encontro frio sobre uma paz que não existe.

"Eu vim a Moscovo como um mensageiro da paz”, anunciou António Guterres em Moscovo, antes de reunir com o presidente russo, Vladimir Putin. O encontro entre o secretário-geral das Nações Unidas e o presidente russo durou cerca de  duas horas e foi seguido de uma troca de declarações perante as câmaras da televisão estatal russa.

Na imagem, mas também nos bastidores, os dois estiveram sempre separados por uma longa mesa com seis metros de comprimento, onde já antes se tinham sentado Emmanuel Macron e Olaf Scholz. Apesar da distância, terá Guterres conseguido transmitir a sua “mensagem de paz” a Putin?

1. Há mais do que uma mesa a separar Putin e o Ocidente 

Nada é deixado ao acaso no Kremlin, e a mesa não é apenas um pormenor. Putin já a tinha desencantado antes para a conversa com o presidente francês, Emmanuel Macron, a 7 de Fevereiro,  e com o chanceler alemão, Olaf Scholz, uma semana depois. Os chefes de Estado francês e alemão recusaram fazer um teste conduzido pelas autoridades russas de rastreio à covid-19, com receio de entregar o seu ADN a Moscovo, e por isso foram obrigados a manter a distância em relação a Vladimir Putin.

Guterres recebeu o mesmo tratamento do que Macron e Scholz. Perante as câmaras, o presidente russo acenou, de longe, para o secretário-geral da ONU. Sem se preocupar com qualquer protocolo, Putin sentou-se antes do convidado e iniciou a sua declaração de cerca de dez minutos, onde repetiu a mesma narrativa que tem vindo a debitar desde o início da invasão da Ucrânia.

A distância é calculada, mas Putin não tem mantido esta distância em todos os seus encontros. Nessa manhã, Putin tinha recebido no Kremlin os atletas russos medalhados nos Jogos Olímpicos de Pequim. Condecorou-os e até brindou com eles. Por causa da guerra na Ucrânia, os atletas russos têm enfrentado várias sanções e têm sido excluídos das competições internacionais. “Nas atuais circunstâncias - a pressão que a Rússia e os seus cidadãos estão a enfrentar - é fundamental manter a atividade competitiva dos atletas”, disse Putin. 

 

No mesmo dia em que se sentou longe de António Guterres, Putin brindou com atletas olímpicos russos. Foto: Mikhail Klimentyev/Sputnik/AFP via Getty Images

2. O papel fundador das Nações Unidas

O presidente russo foi o primeiro a falar, num monólogo que durou cerca de dez minutos, e onde repetiu tudo o que tem vindo a dizer sobre a guerra na Ucrânia: que se trata de uma “operação militar especial”, que a Rússia apenas entrou no território russo depois de ter sido chamada pelas autoproclamadas Repúblicas de Donetsk e de Lugansk

Putin disse ainda “estranhar” as declarações de alguns dos seus “parceiros” nas Nações Unidas, que “reivindicam para si direitos exclusivos”. Putin lembrou que é um país fundador da organização e que sempre apoio o seu documento fundador, a Carta das Nações Unidas. 

“Nós vivemos um período difícil, complicado”, continuou. “Há alguns anos que ouvimos dizer que a ONU está obsoleta, que não é necessária. Ouvimos isso quando alguns países querem conquistar algo na arena mundial”. A Rússia não é um desses países, salientou.

O chefe de Estado russo justificou a “operação militar especial” na Ucrânia com a necessidade de defender os povos de Donetsk e de Lugansk, sujeitos a “agressões militares” por parte de Kiev. Sublinhou que a Rússia tentou todas as vias para procurar a paz, incluindo os acordos de Minsk, mas que as autoridades ucranianas não tiveram a mesma postura.

Depois de ouvir Putin, António Guterres sublinhou que olha para os acontecimentos na Ucrânia de uma forma diferente: "acreditamos que há uma invasão do território ucraniano". Uma visão apoiada por uma larga maioria dos estados-membro presentes na Assembleia-Geral das Nações Unidas (140 países em 193) que, um mês depois do início da guerra, aprovou uma resolução responsabilizando a Rússia pela crise humanitária na Ucrânia devido à guerra.

3. Meio artigo da Carta das Nações Unidas 

Um dos pontos sublinhados por Putin durante a conversa pública com António Guterres foi a comparação com a situação do Kosovo. O país autoproclamou a independência da Sérvia em 2008 e, dois anos depois, o Tribunal Internacional de Justiça considerou que esta declaração não violou o direito internacional geral. 

“A decisão [de reconhecer a independência do Kosovo] foi apoiada por todos”, insistiu Putin, “se é assim, então a República do Donetsk e de Lugansk, têm os mesmos direitos. Concorda com isso?”. O presidente russo invocou o artigo 51 da Carta das Nações Unidas que prevê o direito de legítima defesa individual ou coletiva no caso de ocorrer um ataque contra um estado-membro.

O que Putin não referiu é que o mesmo artigo defende que as ações levadas a cabo em legítima defesa não devem atingir a autoridade do Conselho de Segurança (de que a Rússia também faz parte) para restabelecer a paz e a segurança internacionais.  

Na resposta, o secretário-geral da ONU invocou outro princípio da Carta das Nações Unidas: o quarto ponto do artigo 2, que diz que todos os estados-membro devem evitar o uso de força contra a integridade territorial de qualquer estado.

Guterres sublinhou ainda que a ONU não reconhece o Kosovo como um país independente, apesar de 113 dos 193 estados-membros da organização (incluindo Portugal) já o terem feito. 

4. A “provocação de Bucha” e a realidade alternativa de Vladimir Putin

Depois de invocar os esforços para alcançar a paz por parte da Rússia e de citar o direito das províncias separatistas ucranianas a proclamarem a sua independência, Putin disse que houve um acontecimento que abalou as boas intenções de Moscovo: chamou-lhe a “provocação em Bucha”. 

Veja o vídeo:

A cidade, nos arredores de Kiev, tinha sido tomada pelas tropas russas, mas foi reconquistada por Kiev no início de abril. As primeiras imagens depois da reconquista revelaram que tinha sido palco de um massacre indiscriminado de civis. O governador da cidade disse que pelo menos 300 pessoas teriam sido mortas. A Rússia alega não ter nada a ver com as mortes, culpando antes o exército ucraniano. Putin fez o mesmo perante Guterres. 

“O exército russo não teve nada a ver com isso. Nós sabemos quem encenou isso e quem esteve envolvido nessa provocação. A posição dos nossos negociadores mudou radicalmente depois disso”, argumentou o presidente russo. 

Uma investigação da CNN Internacional revelou novas imagens que provam que as mortes de Bucha ocorreram durante a ocupação russa

5. Um "humilde" mensageiro

Depois de ouvir Putin durante dez minutos, foi a vez António Guterres tomar a palavra. Começou por sublinhar a posição diferente que assume perante as atrocidades na Ucrânia. “Nós consideramos que houve uma invasão do território da Ucrânia”, sublinhou, acrescentando que, mesmo assim, decidiu adoptar uma “postura pragmática” em Moscovo, com o objetivo de atenuar a crise humanitária vivida por milhões de ucranianos.

O secretário-geral lamentou que os corredores humanitários não estejam a funcionar na Ucrânia, e sublinhou a situação dramática vivida em Mariupol, ao que Putin respondeu que Guterres "foi enganado". "Eles estão a funcionar e [os refugiados] podem ir para onde quiserem. Estão a funcionar, com a nossa assistência mais de 100.000 pessoas saíram de Mariupol".

António Guterres foi a Moscovo com a intenção de apresentar duas propostas a Putin: uma primeira sobre a criação grupo de contacto humanitário com representantes russos, ucranianos e das Nações Unidas de forma a garantir que os corredores humanitários são cumpridos; e uma segunda, que tem em vista a situação específica na fábrica metalúrgica de Azovstal, em Mariupol. As Nações Unidas dizem estar preparadas para montar um corredor humanitário para a retirada dos cerca de mil civis que ali estão encurralados.

Para já, sabe-se que a segunda proposta foi aceite pelo Kremlin, está a ser negociada com as autoridades russas e ucranianas e as Nações Unidas esperam concluir até ao final da semana a retirada dos civis.

A ONU não tem participado nas negociações políticas em busca da paz na Ucrânia, nem nas mais recentes que estão a ser intermediadas pela Turquia, nem nos mais antigos acordos de Minsk.

O papel de António Guterres à frente das Nações Unidas tem sido posto em causa nos últimos dias. No dia 18 de abril, mais de 200 antigos dirigentes da ONU assinaram uma carta endereçada ao secretário-geral pedindo-lhe que fosse mais proativo em relação ao conflito na Ucrânia. 24 horas depois, Guterres anunciou o envio de duas cartas, a Kiev e a Moscovo, a pedir para ser recebido pelos chefes de Estado.

Esta quarta-feira, já em Kiev onde vai ser recebido pelo presidente Zelensky, Guterres reconheceu a dificuldade do momento e sublinhou o seu papel "humilde" como mensageiro da paz. 

“Quantas e quantas pessoas visitaram o Presidente Putin? Eu tenho a humildade de entender que posso dar um contributo, mas tenho também a humildade de entender que não consigo chegar a uma sala e convencer de repente o presidente Putin de tudo aquilo em que eu acredito, mas que não corresponde de todo à posição que a Federação Russa tem desta questão”.

Um dia depois de ter recebido António Guterres, Vladimir Putin voltou à retórica inflamada: acusou o Ocidente de querer fragmentar a Rússia e ameaçou responder de forma rápida, "com meios que os adversários ainda não têm", a quem ameace o país ou intervenha na Ucrânia.

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