Quem é Yahya Sinouar, o radical e pragmático líder do Hamas em fuga há 3 meses?

Agência Lusa
7 jan, 08:24
Yahya Sinwar, líder do Hamas (AP)

Com 61 anos, o líder do movimento islamita palestiniano de Gaza é considerado o ‘arquiteto’ do 7 de outubro

Alvo principal de Israel há três meses, Yahya Sinouar fez carreira na sombra, incluindo 23 anos nas prisões israelitas, e no aparelho de segurança do Hamas, onde foi responsável pelas purgas até ascender à liderança em Gaza.

O líder do movimento islamita palestiniano de Gaza, de 61 anos, é considerado o ‘arquiteto’ do 7 de outubro: nesse dia, centenas de comandos do Hamas atacaram ‘kibutzes’, bases militares e um festival de música em Israel, no pior ataque contra civis desde a criação do Estado israelita, em 1948.

Segundo Israel, 1.200 pessoas foram mortas e cerca de 240 foram feitas reféns.

"A estratégia era dele, foi ele quem montou a operação", provavelmente ao longo de um ano ou dois, disse à agência France-Presse (AFP) Leila Seurat, investigadora do Centro Árabe de Investigação e Estudos Políticos (CAREP), em Paris.

O homem ascético de cabelos brancos, mas com as sobrancelhas cheias e ainda muito pretas, "impôs o seu ritmo para alterar o equilíbrio de forças no terreno e apanhou toda a gente de surpresa", adiantou Seurat.

O líder do Hamas - que é agora "o rosto do diabo" ou "o homem com um alvo nas costas", nas palavras do exército israelita - não aparece em público desde outubro.

"É o homem de segurança por excelência", que como um "líder carismático", "toma decisões com a maior calma", disse à AFP Abu Abdallah, um ex-prisioneiro do Hamas, quando Sinouar assumiu a liderança do Hamas em 2017.

Em 1987, a primeira Intifada, a revolta contra a ocupação israelita conhecida como "A Guerra das Pedras", eclodiu num campo de refugiados no norte da Faixa de Gaza. O rapaz, nascido em Khan Younis, um campo no sul do território, juntou-se ao recém-fundado Hamas.

Aos 25 anos, já era chefe da Organização da Jihad e da Pregação, a unidade de informação do Hamas que castiga os "colaboradores", os palestinianos punidos por conspirarem com o inimigo israelita.

Em 1988, fundou o Majd, o serviço de segurança interna do Hamas. Preso no ano seguinte, em 1989, tornou-se o líder dos prisioneiros. Condenado várias vezes a prisão perpétua, foi libertado em 2011 com um milhar de prisioneiros em troca do soldado Gilad Shalit, refém do Hamas durante cinco anos. Ainda hoje, o trauma permanece na sociedade israelita e no aparelho de Estado israelita.

Sinouar viu Israel eliminar os seus mentores, entre os quais o xeque Ahmed Yassin e Salah Chehadé, fundador das brigadas Ezzedine al-Qassam, a ala armada do Hamas, da qual é considerado o ‘braço direito’. Incluído na lista norte-americana de "terroristas internacionais", foi alvo de numerosas tentativas de assassínio.

Eleito chefe do Hamas em Gaza em 2017, tem uma estratégia "radical em termos militares e pragmática em termos políticos", explica Seurat. "Não defende a força pela força, mas a força para levar [os israelitas] às negociações".

Os meios de comunicação israelitas publicaram extratos dos seus interrogatórios. Neles, conta ter raptado um traidor. "Levámo-lo para o cemitério de Khan Younis [...], coloquei-o numa sepultura e estrangulei-o com um keffiyeh [lenço palestiniano]. Tinha a certeza de que ele sabia que merecia morrer".

Politicamente, sonha com uma liderança palestiniana unida para todos os Territórios Ocupados: a Faixa de Gaza, atualmente detida pelo Hamas no sul, a Cisjordânia, da qual a Fatah de Mahmoud Abbas detém secções inteiras no norte, e Jerusalém Oriental.

"[Yahya Sinouar] deixou claro que punirá todos os que tentarem impedir a reconciliação com a Fatah", afirma o Conselho Europeu de Relações Externas (ECFR).

No ano em que foi eleito chefe do Hamas, o movimento aceitou o princípio de um Estado palestiniano dentro das fronteiras de 1967, mas manteve como objetivo final a "libertação" de todo o território da Palestina em 1948, incluindo o atual território israelita.

O ataque do Hamas a 7 de outubro começou com a destruição do posto de controlo na fronteira com a Faixa de Gaza, que se encontra sob bloqueio desde 2007. De acordo com o Ministério da Saúde do Hamas, a reação israelita já provocou mais de 22.000 mortos, em que dois terços das vítimas são mulheres e crianças.

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