Há um mês Montenegro não fez tabu: "Não vejo forma de a AD viabilizar uma governação do PS. Não viabilizamos um governo que é contra aquilo que defendemos"

CNN Portugal , BCE
22 fev, 20:45
Debate entre Pedro Nuno Santos e Luís Montenegro (Lusa/ José Sena Goulão)

E há um mês Pedro Nuno Santos não queria viabilizar um governo minoritário da AD porque, alegou, isso não era "bom para a democracia" e beneficiava o Chega

Em entrevista à CNN Portugal a 30 de janeiro, Luís Montenegro deixou claro que a AD não viabilizaria um governo minoritário do PS, argumentando que o programa de governação dos socialistas "é o contrário" do que a coligação PSD/CDS/PPM defende. 

"Eu não vejo forma de os deputados da AD viabilizarem uma governação do PS tal qual ela está apresentada. Porque ela é o contrário do que nós defendemos. Nós defendemos a baixa de impostos, o PS defende mais carga fiscal, o PS acha que tudo se resolve nos serviços públicos dentro do Estado, nós achamos que é em complementaridade com o setor social e com o setor privado", disse na altura, acrescentando que as diferenças entre o PS e o PSD "são cada vez mais notórias".

Questionado na mesma entrevista sobre se, em caso de vitória do PS sem maioria absoluta, o PSD apresentará uma moção de rejeição a um governo socialista, Luís Montenegro respondeu: "Eu estou concentradíssimo em ganhar e em ganhar com maioria, mas posso dizer, em resultado da relação de confiança, de lealdade com o eleitorado, que não seremos nós, naturalmente, a viabilizar um governo que é contra aquilo que nós defendemos."

Perante a insistência do jornalista Anselmo Crespo sobre se a AD apresentará uma moção de rejeição a um governo do PS, Luís Montenegro disse apenas que a coligação "atuará em conformidade". "Agora, eu não vou estar a teorizar sobre um cenário que não é o meu cenário. O meu cenário é ganhar as eleições", completou.

Na mesma entrevista, o líder da AD quis deixar ainda "muito claro" quais são as suas balizas para assumir a liderança do governo, colocando uma linha vermelha no partido liderado por André Ventura, mas deixando a porta aberta a um entendimento com a Iniciativa Liberal (IL).

"Por um lado, governarei se ganhar as eleições. Por outro lado, governarei na base de um apoio político que não integrará o Chega", começou por dizer. "Se eventualmente vencermos as eleições e não tivermos maioria absoluta nem conseguirmos formá-la com os partidos disponíveis - estaremos a falar da IL -, eu estou disponível para governar com um governo minoritário, como já aconteceu noutros períodos históricos da nossa democracia", declarou.

Ainda sobre esta questão, Luís Montenegro apelou ao voto útil, advertindo que o voto no Chega "ajuda à manutenção do governo do PS", partido que, diz, "tem sido o principal motor da importância política do Chega".

O tabu no frente a frente com Pedro Nuno Santos

Mais recentemente, no frente a frente com Pedro Nuno Santos, na segunda-feira, Montenegro já não foi tão perentório quando Clara de Sousa questionou os dois líderes partidários sobre se, num cenário de maioria relativa, o principal partido da oposição deve ou não deixar passar o primeiro orçamento do governo que sair das eleições de 10 de março.

Pedro Nuno Santos não se comprometeu a viabilizar um orçamento da AD mas disse que não apresentaria nem votaria a favor de uma moção de rejeição de um eventual governo minoritário da AD. Luís Montenegro não se comprometeu: começou por dizer que, se vencer as eleições, quer "formar um governo competente", procurando na "sociedade" pessoas dinâmicas" para integrar o executivo. 

Clara de Sousa interrompeu, afirmando que não tinha sido aquela a questão colocada. "Mas este é o caminho que vou percorrer até chegar à apresentação do orçamento", explicou Luís Montenegro, completando depois o raciocínio com a reforma que pretende fazer no funcionamento do Conselho de Ministros. E disse ainda que "é difícil a AD conseguir por si só a maioria absoluta dos deputados da AR". "Não é impossível, mas é difícil", vincou.

"Os dados que tenho e o sentimento que vou colhendo na rua fazem-me crer que está muito alcancável o objetivo - que seria o meu segundo objetivo - de, juntamente com os deputados da AD e da IL, termos essa maioria absoluta. Se não conseguirmos nem com um nem com outro, naturalmente governaremos com maioria relativa", acrescentou.

Pedro Nuno Santos desafiou o líder da AD a responder sobre se deixava passar um governo minoritário do PS e, perante a ausência de resposta, acusou o líder do PSD de manter um tabu. Mas, refira-se, Pedro Nuno Santos mudou nos dias seguintes o que disse neste debate sobre a viabilização de um governo minoritário da AD. E já tinha dito um mês antes, precisamente em entrevista a Anselmo Crespo, que dificilmente viabilizaria um governo minoritário da AD porque isso não era "bom para a democracia" e porque beneficia o Chega.

Portanto: num mês Luís Montenegro criou um tabu e num mês Pedro Nuno Santos deixou de considerar nefasto o impacto democrático da viabilização de um governo da AD - e os benefícios (ou não) que o Chega tira disso.

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