Dizer olá aos vizinhos pode aumentar o seu bem-estar. E há um número ideal de saudações

CNN , Sandee LaMotte
23 dez 2023, 09:00
Habitação (Manuel de Almeida/Lusa)

O que é que define uma saudação? Um grunhido, um aceno, um gesto com a mão, um toque de punho, uma palmadinha nas costas ou apenas um olá educado? Também é preciso parar para conversar? Explicamos tudo

É difícil ser-se simpático com os vizinhos quando se está a criar dois filhos sozinha e a trabalhar longas horas. Foi aí que o meu sheltie (diminutivo de "Shetland Sheepdog", ou, cão pastor de Shetland), Dancer, veio em meu auxílio. A fofura do meu querido menino (da qual ele estava bem ciente) fez com que muitas pessoas parassem para conversar connosco durante os nossos passeios pelo meu bairro em Atlanta, Estados Unidos.

Quando o Dancer já estava velhinho para um longo passeio, colocávamo-lo num carrinho de mão, onde ele se sentava a cumprimentar os seus admiradores - caninos e humanos - como um pequeno rei. Perdemos o nosso querido em 2018, mas ele está sempre comigo nos meus passeios. Sandee LaMotte/CNN

Mal eu sabia que cumprimentar as pessoas que vivem perto de mim seria a chave para aumentar o meu bem-estar depois da morte do meu marido - mas esta é a conclusão de uma nova pesquisa da Gallup, empresa norte-americana de estudos de opinião. A sondagem revelou que os adultos que cumprimentam regularmente várias pessoas do seu bairro têm um bem-estar mais elevado do que aqueles que falam com poucos ou nenhum vizinho.

Os números foram significativos: sendo 100 a pontuação perfeita, o bem-estar aumentou de 51,5 entre as pessoas que não cumprimentam nenhum vizinho para mais de 64 entre as pessoas que cumprimentam regularmente seis vizinhos.

"O número ideal, no que diz respeito ao bem-estar, são seis saudações", afirma Dan Witters, diretor da pesquisa do Índice Nacional de Saúde e Bem-Estar da Gallup, uma sondagem nacional abrangente sobre carreira, finanças, bem-estar social, físico e comunitário, realizada trimestralmente nos Estados Unidos desde 2008.

"Depois de seis, não se observam benefícios adicionais significativos em saudar os vizinhos. No entanto, cumprimentar seis é mais vantajoso do que cinco, cinco é melhor do que quatro, e assim sucessivamente até chegar a zero."

O que é que define uma saudação? Um grunhido, um aceno, um gesto com a mão, um toque de punho, uma palmadinha nas costas ou apenas um olá educado? Também é preciso parar para conversar?

"Não é necessário que conheça bem a pessoa, pare para conversar, ou saiba o seu nome", diz Witters, acrescentando que, "presumivelmente, quanto mais pessoas cumprimentarmos, maior é a probabilidade de iniciarmos uma conversa com elas, em vez de nos limitarmos a acenar".

E qual é a frequência regular? Todos os dias, dia sim, dia não, uma vez por semana?

"Deixamos isso ao critério do entrevistado, mas a nossa intenção era que isso significasse todas as pessoas que cumprimenta sempre que as vê", explica Witters. "Alguns dias podem ser zero, outros podem incluir todas as interações."

Mais do que apenas um benefício social

De acordo com a análise dos dados, cumprimentar uma pessoa não contribui apenas para o seu sucesso social. Cumprimentar regularmente também melhora a saúde física, financeira, profissional e comunitária de uma pessoa.

O bem-estar da comunidade foi definido como sentir-se seguro, ter um vínculo emocional e contribuir para um bairro, indica Witters. "Se o bem-estar da comunidade for muito forte, isso vai aumentar as hipóteses de cumprimentar os vizinhos e cumprimentar os vizinhos vai melhorar o seu bem-estar na comunidade."

O bem-estar profissional mede o sentimento de satisfação de uma pessoa, que Witters diz incluir o facto de alguém se adaptar bem e utilizar os seus pontos fortes. No que se refere ao bem-estar físico, a Gallup definiu-o como "ter a energia necessária para realizar as tarefas da vida".

"Eu acredito que ser amigável com os vizinhos definitivamente vai aumentar as probabilidades de estarmos mais presentes e ativos no nosso bairro", considera Witters.

O bem-estar financeiro é definido na pesquisa não pelo dinheiro que se ganha, mas por ter hábitos de gastos responsáveis e trabalhar para alcançar segurança financeira, acrescenta Witters.

"É provavelmente justo presumir que o aumento do bem-estar financeiro, devido à saudação dos vizinhos, se deve ao facto de as pessoas com níveis mais elevados de bem-estar financeiro terem mais probabilidades de viverem numa zona mais segura, onde se sentem mais confortáveis para sair e passear."

O estudo também comparou o número de saudações com o grau de "prosperidade" de uma pessoa, conforme definido no Índice de Avaliação de Vida da Gallup. Para medir a prosperidade, a Gallup utiliza a Escala de Autoavaliação de Cantril, que pede às pessoas que se imaginem numa escada de realização, onde 10 representa a melhor vida possível e zero a pior vida possível, tanto no presente como daqui a cinco anos.

"As pessoas que se classificam com 7 ou mais na sua vida atual e com 8 ou mais na sua vida futura são consideradas prósperas", observa Witters.

Segundo a pesquisa, a probabilidade de ser considerado próspero era de apenas 38,1% para as pessoas que não se cumprimentavam, aumentando para 60,5% entre os que cumprimentavam cinco vizinhos.

Quem é que diz olá mais vezes?

A maioria dos americanos cumprimenta regularmente uma média de cinco vizinhos, sendo que 27% referem cumprimentar seis ou mais pessoas no seu bairro. No entanto, este número varia bastante consoante a idade. Os adultos com menos de 30 anos cumprimentam, em média, 2,9 vizinhos e apenas 14% cumprimentam seis ou mais pessoas regularmente.

"É provável que isto esteja associado ao bem-estar financeiro e à densidade urbana - é muito mais provável que os jovens vivam nos centros das cidades num apartamento ou condomínio", aponta Witters. "Muitas vezes, nem sabemos quem são os nossos vizinhos, quanto mais dizer olá a um deles."

A tendência das gerações mais jovens para usarem smartphones também pode ter um papel importante, na sua análise. "As pessoas não olham para cima para dizer olá, olham para baixo para o seu dispositivo. Acredito que esta possibilidade seja um fator."

Em comparação, o estudo descobriu que 41% dos adultos com 65 anos ou mais falavam normalmente com uma média de 6,5 vizinhos ou mais.

"As saudações aumentam de forma bastante constante com a idade", sublinha Witters. "Os americanos mais velhos têm mais probabilidades de se mudarem, após a reforma, para uma cidade de média ou pequena dimensão ou até para uma zona rural, onde as oportunidades de conhecer os vizinhos seriam maiores."

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