A unha, o elefante e o ADN da AD: a noite de todos os medos que deu a vitória a Luís Montenegro
Luís Montenegro: "A minha mais firme expectativa é que o PS e o Chega não constituam uma aliança negativa"
"Os votos na Alternativa Democrática Nacional são puro engano"
"É muito diferente ensaiar um governo minoritário com este resultado tangencial relativamente ao PS"
"Com um milhão de votos, o Chega não pode mesmo ser ignorado", defende Alexandra Leitão
André Ventura é "a figura do dia", mas Luís Montenegro é "o pequeno eleito": Pedro Santos Guerreiro
"Luís Montenegro fez um discurso absolutamente desastroso"
"Dificilmente podíamos ter um pior cenário do que este. A AD venceu o PS mas não venceu a esquerda": Miguel Sousa Tavares
À tangente, a Aliança Democrática cantou vitória na noite em que Montenegro comprometeu-se a não fazer o volte-face. O País virou à direita, mas o "não é não" com o Chega é para manter, mesmo que isso complique as contas para a maioria. Entre aplausos e cânticos há quem critique Montenegro: “Temos de deixar de permitir que o PS e a esquerda decidam com quem se pode ou não falar”
Primeiro veio o susto com os milhares de votos inesperados no ADN. Depois, começou o roer de unhas ao ver o Chega a crescer exponencialmente e a conquistar o distrito de Faro e, mesmo quando Luís Montenegro cantou vitória, dentro do quartel-general da Aliança Democrática continuou-se com o coração nas mãos. “Houve uma clara vontade de mudança, mas isto ainda não está para grandes festas”, diz à CNN Portugal um deputado social-democrata eleito na última noite, apontando para o cordão sanitário que a AD vincou com o Chega. “Vai ser uma arquitetura muito delicada”, sublinha.
Na noite da vitória da Aliança Democrática, a primeira dos sociais-democratas desde 2015, a festa foi pontuada pela ansiedade daquilo que virá a seguir. O país virou à direita, mas Luís Montenegro já fez saber que a política do "não é não" relativamente ao Chega é para manter, o que dificulta as contas para a aritmética governativa. “A minha expectativa é que PS e Chega não constituam uma aliança negativa para impedir o Governo que os portugueses quiseram", declarou o líder da AD no final da noite.
Antes disso, na sede da campanha social-democrata, num hotel no Marquês de Pombal, em Lisboa, os primeiros indícios apontavam para uma noite só de sorrisos. As sondagens à boca das urnas previam que Luís Montenegro se mantivesse constantemente à frente de Pedro Nuno Santos e festejou-se efusivamente quando João Torres, da direção nacional do PS, assumiu pela primeira vez a derrota.
António Russo, 19 anos, membro da juventude social-democrata, foi um dos que mais alto gritava por vitória quando esses primeiros resultados foram conhecidos. “O PS sofreu um rombo”, sublinhava o jovem que passou as últimas duas semanas na estrada com a caravana de Montenegro. Aos outros militantes que o rodeavam, contava a história do encontro que, pela primeira vez, o fez acreditar na vitória da AD.
“Eu entrei para a caravana um pouco desanimado e pessimista, achei genuinamente que não tínhamos hipótese de ganhar, mas em Chaves conheci uma senhora já nos seus 70 anos que, por causa dos impostos elevadíssimos e do aumento da renda do espaço, estava a pensar fechar a loja familiar que tinha há anos.” “Depois de muitos anos sem votar no PSD”, conta o jovem, “essa senhora viu esperança no Luís Montenegro como alguém que seria capaz de ajudar a continuar com o seu negócio de portas abertas”. “A partir daí fiquei mais confiante”, acrescenta.
Dois metros à frente, colado a três ecrãs estava Frederico Pimentel, ex-membro do Conselho Nacional do CDS. Mas, ao contrário de António, o advogado de 39 anos, mostrava algum desânimo. “Acho que não era aquilo que o Luís Montenegro pretendia conseguir, porque não dá para fazer muito sem que haja uma maioria de direita com o Chega”, aponta o centrista, apelando que se façam pontes com o partido de André Ventura. “Não podemos só governar com quem nos apetece e temos de deixar de permitir que o PS e a esquerda decidam com quem se pode ou não falar." "Se eles dialogam com o PCP, qual é o mal de negociar com o Chega?”
Com o evoluir da noite, os ânimos começaram a esfriar. O PS consolidava-se no Alentejo e em Coimbra e, com a vitória no distrito de Setúbal que colocou Pedro Nuno Santos brevemente em igualdade percentual com Montenegro, na sede da campanha da AD olhava-se com frustração para o crescimento do ADN que, de uma eleição para a outra, multiplicou por 10 o número de votos conquistados. “Isto foi horrível, horrível mesmo, quase todos esses votos eram votos para AD”, refere um dirigente social-democrata, acrescentando que com os mais de 90 mil votos que o partido de Bruno Fialho tinha acumulado até então, “a noite eleitoral já ficava resolvida”.
Durante a campanha, especialmente na reta final, Luís Montenegro aproveitou sempre alguns segundos introdutórios dos discursos que ia fazendo para lançar o pré-aviso de que o seu partido não é o ADN. “Não queremos que ninguém que queira votar no ADN vote na AD, tal como não queremos o contrário”, anunciou uma mão cheia de vezes em comícios ou no final de arruadas. “Aparentemente, foi isso mesmo que aconteceu”, aponta o mesmo dirigente do PSD. “Devíamos ter sido mais incisivos.” “Isto do ADN é muito preocupante, é pior do que eu esperava”, comenta um outro militante do PSD.
Com ou sem a boleia do nome parecido no boletim eleitoral, a verdade é que o ADN conseguiu 340 mil euros de subvenção pública com o resultado obtido nesta noite eleitoral - mesmo não tendo eleito qualquer deputado.
À medida que as horas iam passando, e já com António Costa a prever que a eleição não ficasse resolvida durante a noite, foram surgindo algumas surpresas para os sociais-democratas que já tilintavam de nervos ao ver Montenegro e Pedro Nuno cada vez mais próximos em termos de número de deputados eleitos.“Vai ser por uma unha”, referia um recém-eleito deputado pelo círculo de Lisboa, sublinhando que "não estava à espera" que a luta com Pedro Nuno Santos fosse tão renhida até ao fim".
A primeira e mais óbvia surpresa foi a vitória do Chega em Faro, quebrando um ciclo de 33 anos em que o mapa eleitoral por distritos não tinha mais do que as cores do PSD e da do PS. Ventura teve mais 12 mil votos do que a AD, que apostou no paraquedista Miguel Pinto Luz como cabeça de lista - um dos homens mais próximos de Montenegro, mas que não era natural do Algarve. Antes, a AD tinha também sofrido uma derrota no distrito de Portalegre, onde voltou a não conseguir eleger nenhum deputado, tendo sido ultrapassada por menos de mil votos pelo partido de André Ventura. “Faro e Portalegre foram aqueles resultados que não estávamos a contar, são regiões que vêm de décadas de abandono e que não se reviram na nossa candidatura, vamos ter de trabalhar muito para reverter isso”, destaca o mesmo deputado.
Já com os nervos em alta, a candidatura da Aliança Democrática foi alvo de mais um ataque por ativistas climáticos. Depois de Montenegro ter sido atingido com tinta verde e de, no último dia de campanha, a sede do PSD ter acordado vandalizada, desta vez o foco foi o quartel-general. O cenário foi este: as portas-giratórias do hotel ficaram banhadas de tinta vermelha, enquanto um cheiro a fumo se alastrava pelo interior do edifício.
À medida que dezenas de jotas iam correndo porta-fora para discutir com os quatro ativistas que estavam a ser detidos, iniciou-se uma competição por volume. Por um lado, os membros da Climáximo apelavam à “resistência” e gritavam: “Estamos do lado certo da história”. Por outro, a comitiva social-democrática festejava a detenção. “Prisão, prisão”, bradavam.
A madrugada, que se antecipava longa, acabou por chegar com boas notícias e uma vitória importante no Porto, distrito que não era conquistado pelos sociais-democratas desde os tempos de Passos Coelho e onde Montenegro teve uma das suas primeiras demonstrações de força durante o início campanha - aconteceu na Maia, num almoço-comício de última hora que juntou mais de 600 apoiantes.
“Agora, ninguém pára Montenegro”, ouve-se gritar no momento em que ficou solidificada a vitória da AD no distrito, onde foi cabeça de lista, como independente, o ex-bastonário da Ordem dos Médicos, Miguel Guimarães. Pouco tempo depois, já se cantava oficialmente vitória - primeiro foi Nuno Melo, que deu voz às principais preocupações dos militantes numa altura em que todos sabiam já que só com uma aliança do Chega seria possível a AD formar uma maioria clara no Parlamento. É “muito importante assegurar condições de governabilidade”, salientou, pedindo que “todos os partidos estejam à altura das suas responsabilidades”.
Seguiu-se Luís Montenegro que não hesitou em fazer a festa. Durante a campanha, tinha prometido que formaria Governo caso vencesse em número de deputados nestas eleições e essa realidade veio a concretizar-se. “É minha expectativa fundada que o senhor Presidente da República me possa indigitar para formar Governo", disse perante aplausos pontuados por protestos de cada vez que o nome Chega era referido ao líder do PSD, durante as questões dos jornalistas.
Sobre o partido de André Ventura, Montenegro deixou claro: a política do "não é não" é para manter. “Nunca faria tamanha maldade de não assumir compromissos que assumi de forma clara." Ainda assim, a expectativa anunciada é que “PS e Chega não constituam uma aliança negativa para impedir o Governo que os portugueses quiseram".
