Quem é Giorgia Meloni, a provável primeira mulher e mais jovem primeira-ministra da Itália?

CNN , Francesco Galietti
22 set, 19:00
Giorgia Meloni Fratelli d'Italia Irmãos de Itália Getty Images

OPINIÃO. A sua ascensão meteórica é talvez melhor descrita como um audacioso exercício de equilíbrio. E que, depois da morte do pai, parece ter consagrado a sua vida à política- mais como chamamento do que como profissão.

Nota do editor: Francesco Galietti é fundador da Policy Sonar, uma consultora de risco político com sede em Roma. Ocupou cargos superiores em instituições públicas italianas, incluindo o Ministério da Economia e Finanças. Galietti é colunista da revista italiana Panorama. As opiniões expressas neste comentário são exclusivamente as suas.

 

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Perguntam-me frequentemente o que é que Giorgia Meloni - líder do partido conservador nacional Irmãos de Itália [no original, Fratelli d’Italia], e provável próxima primeira-ministra do país - está realmente a querer fazer.

Quais são os elementos de comparação que devemos analisar? Hungria, Polónia, Brasil e mesmo o Reino Unido (para não mencionar os Estados Unidos com Donald Trump) são todos países onde a “destra”, a “ala direita”, tomou o poder, à custa pelo menos em parte de sentimentos nacionalistas.

Mas Meloni, de 45 anos, que é a favorita para se tornar nas eleições do próximo domingo a primeira mulher e também a mais jovem primeira-ministra da Itália, não se enquadra em definições certinhas. A sua ascensão meteórica é talvez melhor descrita como um audacioso exercício de equilíbrio.

Por um lado, Meloni tentou afastar a aura pós-fascista do seu partido, cujo passado inclui operadores políticos que eram assumidamente fascistas ou se sentiam nostálgicos em relação a Benito Mussolini. Por outro lado, ela tem soprado beijos aos mercados de capitais, comprometendo-se a respeitar a disciplina orçamental e as regras orçamentais da União Europeia do primeiro-ministro cessante e firmemente euro-atlântico, Mario Draghi.

Apesar da sua idade jovem, Meloni está na política há já algum tempo. Em 2008, ela recebeu o seu batismo de fogo, servindo como ministra da Juventude com o primeiro-ministro Silvio Berlusconi. O cargo que ocupava na altura era relativamente menor, mas o consenso era que Meloni estava a ser preparada para o poder.

27 de Março de 2008: o líder conservador Silvio Berlusconi e a então membro da Aliança Nacional (Alleanza Nazionale) e vice-presidente das Câmaras dos Deputados Giorgia Meloni num comício eleitoral em Roma. A Forza Italia de Berlusconi e a Aliança Nacional de Fini concorriam sob a bandeira do Partido Popular para as Liberdades às eleições locais. Foto Vincenzo Pinto/AFP via Getty Images)

Na altura, eu era um jovem conselheiro do Tesouro italiano, e senti que talvez houvesse mais sobre Meloni. Ela parecia ter literalmente consagrado a sua vida à política; parecia que para ela era mais uma vocação, um chamamento, do que uma profissão. Por causa disto, ela não me pareceu de todo como mais uma protegida de um líder partidário que tentava a sua sorte no governo.

Anos mais tarde, em 2021, foi publicada a autobiografia de Meloni. Apressei-me a comprar uma cópia. Com detalhes vívidos, o livro explica como foi dolorosa a juventude de Meloni, e como foi importante para ela tornar-se militante partidária. O pai de Meloni tinha abandonado tanto ela como a sua irmã Arianna, e o Movimento Social Italiano, de direita, preenchia esta lacuna. (Mais tarde ela ajudou a fundar o movimento político separatista Irmãos de Itália).

Ao aprender sobre o crescimento de Meloni, pensei que as minhas impressões anteriores tinham sido de alguma forma confirmadas: o trauma de perder um pai colocou Meloni numa missão para procurar um sentido de propósito. De repente, Meloni parecia Bruce Wayne, que embarcou numa viagem para se tornar Batman após o assassinato dos seus pais. E, no entanto, Batman é um vigilante que se propõe livrar as ruas da cidade de Gotham dos seus muitos vilões, enquanto Meloni se insinuou várias vezes com a ideia de tornar-se presidente da câmara da sua cidade, Roma, mas nunca chegou a fazê-lo.

Em 2016, Meloni atirou pela primeira vez o seu chapéu para o ringue, mas acabou por sair da corrida para presidente da câmara. Em 2021, Meloni não voltou a chegar-se à frente, apoiando antes o candidato de direita Enrico Michetti, que perdeu para Roberto Gualtieri do Partido Democrático, de centro-esquerda. Assume-se geralmente que, se Meloni tivesse concorrido na eleição de 2021, as hipóteses de sucesso da direita teriam sido muito elevadas. Então, porque é que ela não se candidatou? Afinal de contas, Roma não é como qualquer outro município italiano e goza de visibilidade global como poucas outras cidades do mundo. Será que Meloni decidiu deliberadamente “sacrificar” Roma para jogar a longo prazo?

Matteo Salvini e Giorgia Meloni. Foto Andrea Staccioli Inside Foto Light Rocket, via Getty Images

Há poucas dúvidas de que o crescimento de Meloni nas sondagens reflete a insatisfação generalizada e os votos de protesto, que em Itália temos visto pelo menos desde 2013. De facto, este já era o caso de partidos anti-regime, como o Movimento Cinco Estrelas e a Liga de Matteo Salvini nos últimos anos. Ao contrário destes, o partido Irmãos de Itália de Meloni subiu muito rapidamente nas sondagens, de níveis de um dígito para cerca de 25%.

O timing de Meloni parece melhor do que o das anteriores estrelas ascendentes. Na verdade, se considerarmos as condições gerais da direita italiana por estes dias, Berlusconi, que fará 86 anos na próxima semana, não estará em jogo muito mais tempo. Além disso, os limites de Salvini são claros, e a sua posição de “pivot da Rússia” tornou-o politicamente radioativo após a invasão da Ucrânia pelo Presidente Vladimir Putin. Isto significa que Meloni não só sonha em tornar-se a primeira primeira-ministra feminina de Itália - mas também em consolidar o bloco conservador italiano.

Ambas as tarefas irão provavelmente exigir a manutenção de moderados a bordo, e a introdução de novos moderados. Quão a sério está Meloni em relação a tudo isto? Meloni continua a usar ativamente o seu repertório de narrativas nativista e anti-políticas identitárias. Ela também se associou ao primeiro-ministro húngaro populista, Viktor Orban, no início deste mês, quando o Parlamento Europeu votou para denunciar a “existência de um risco claro de uma violação grave” pela Hungria dos valores fundamentais da UE.

Mas Meloni também não tem medo de normalizar o seu partido, e poderá seguir o exemplo do seu antigo chefe e mentor, Gianfranco Fini. Em 2003, Fini optou por normalizar as relações do seu partido com Israel e ali fez uma visita altamente simbólica. É discutível que, na altura, esta mudança não foi bem acolhida por alguns dos apoiantes de Fini. No entanto, mudou de vez a perceção do partido.

Hoje, Meloni descreve rotineiramente a invasão de Moscovo como um “ato de guerra inaceitável em larga escala da Rússia de Putin contra a Ucrânia”, e defende o envio de armas para o governo de Kiev. De facto, aproveitando o vento que bate nas velas, Meloni está a enviar mensagens a um público maior, tanto para atrair potenciais eleitores como para acalmar eventuais críticos. Na verdade, ela sabe que sem uma forte posição atlanticista será impossível para o seu partido governar o país nos dias de hoje. Meloni, além disso, parece ter um diálogo fluente com o primeiro-ministro cessante e muito respeitado ex-presidente do Banco Central Europeu, ao ponto de já termos visto insinuações de que Draghi se tornou o próprio “consultor de liderança” e fiador de Meloni.

Claro que, como é frequentemente o caso dos políticos que são levados a cargos de topo, Meloni sabe usar o charme - muitos estão convencidos de que têm um diálogo “exclusivo” com ela. Os Draghinistas estão confiantes de que, dado o caos em toda a Itália, têm a atenção de Meloni, e que assim será durante algum tempo.

Steve Bannon e Giorgia Meloni em Roma, em 2018 Foto Tiziana Fabia / AFP via Getty Images

E no entanto, Steve Bannon, o guru da “direita alternativa” global, também conversa regularmente com Meloni. Num esforço para ajudar Meloni a contar a sua história, Bannon acaba de lançar uma versão italiana sem precedentes do seu programa de televisão “War Room”. Inevitavelmente, isto justifica a pergunta: quem é a verdadeira Meloni? Será ela a líder responsável do partido que tem estado num caminho de evolução para transformar os Irmãos de Itália num partido pós-populista? Ou será ela a amiga de Viktor Orban em Roma? Só o tempo o dirá.

Entretanto, o maior teste para compreender se Meloni quer realmente proteger o legado de Draghi será a nomeação do próximo ministro das finanças de Itália. Irá ela propor alguém da velha guarda de Draghi para este trabalho? Os olhos estão todos postos em Meloni.

 

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