Putin reconheceu Donetsk e Lugansk como independentes há dois meses. Desde então, (quase) tudo mudou

21 abr, 01:00
Putin assina decreto que reconhece independência dos territórios separatistas ucranianos (Alexei Nikolsky, via AP)

O que começou por ser uma missão para “proteger o Donbass” evoluiu para uma guerra total na Ucrânia. A força da resistência ucraniana, contudo, obrigou a Rússia a voltar ao início de tudo.

Esta quinta-feira faz exatamente dois meses desde o reconhecimento das autoproclamadas Repúblicas de Donetsk e Lugansk pela Rússia. A decisão, que precedeu uma invasão que muitos não esperariam, já estava “há muito tempo planeada”, admitiu na altura Vladimir Putin, que considerou “necessária” esta tomada de posição.

Na declaração de 65 minutos ao país, contudo, o reconhecimento, que permitia também à Rússia apoiar militarmente estas repúblicas, não ocupou grande parte. O alvo principal foi a NATO, “uma ameaça direta à segurança da Rússia”, segundo Putin.

"Basta olhar para o mapa para ver como os países ocidentais cumpriram a sua promessa de não permitir que a NATO se expandisse para o leste", vincou. “Simplesmente fomos enganados. Uma após a outra, houve cinco ondas de ampliação da NATO. Se a Ucrânia entrar na NATO, as ameaças militares à Rússia aumentarão várias vezes. E o perigo de um ataque-surpresa contra o nosso país aumentará várias vezes", afirmou o presidente no discurso a 21 de fevereiro deste ano.

A reação ucraniana foi tímida, bem contrastante com a atual energia aplicada no discurso contra a Rússia. Volodymyr Zelensky, que nunca se mostrou muito convencido com os alertas dos EUA de que a invasão iria acontecer, e considerou mesmo que os aliados ocidentais não o estavam a ajudar com tanto “alarmismo”, garantiu no entanto que a Ucrânia “não daria nada a ninguém” e que estaria “preparada para o que desse e viesse” de Moscovo.

"Queremos a paz", afirmou então, sublinhando que a Ucrânia "apoiaria acordos políticos e diplomáticos".

O Ocidente reagiu em uníssono. Os líderes da União Europeia, Ursula von der Leyen, Charles Michel e Josep Borrell, prometeram reagir “com união, firmeza e com determinação em solidariedade com a Ucrânia", enquanto o secretário-geral da NATO fez uma declaração presciente.

"Moscovo continua a alimentar o conflito no leste da Ucrânia ao fornecer apoio financeiro e militar aos separatistas. Também está a tentar encenar mais uma vez um pretexto para invadir a Ucrânia", afirmou Jens Stoltenberg.

Foi também aquando do reconhecimento destas repúblicas que se começaram a debater com mais veemência as sanções à Rússia e o apoio militar aos ucranianos, mas ainda numa escala muito diferente da atual. Vários países, como a Letónia, decidiram prontamente enviar armamento para a Ucrânia. A União Europeia prometeu ações contra os bancos que financiam o exército russo e os que se envolveram nesta “decisão ilegal”, e o Reino Unido decidiu sancionar apenas cinco bancos e três pessoas.

A região no leste da Ucrânia foi mesmo o ponto de partida da invasão. Na comunicação do início da “operação militar especial”, Putin vincou um objetivo principal: “proteger o Donbass”, região controlada por separatistas pró-russos desde 2014. Contudo, um segundo objetivo, o da “desmilitarização e desnazificação da Ucrânia”, deixava a entender que algo mais poderia estar em jogo.

E estava. A invasão a partir do Norte, levada a cabo pelas tropas estacionadas na Bielorrússia, a conquista de Chernobyl e a tentativa de cerco a Kiev demonstravam uma intenção: o derrube do regime ucraniano.

Ainda que não o tenha dito explicitamente, e até o tenha negado, o Kremlin fez tudo para provocar a queda do executivo de Zelensky. Mas esbarrou numa resistência ucraniana feroz, que permitiu mesmo que o presidente ucraniano permanecesse na capital durante toda a guerra.

No final de março, um desenvolvimento algo surpreendente: a Rússia anuncia uma redução “significativa” da atividade militar nas regiões de Kiev e Chernihiv, como forma de “demonstrar confiança” nas negociações de paz, informou na altura o Ministério da Defesa da Rússia.

Certo é que, num comunicado posterior, a mesma instituição desmentiu-se a si própria, referindo que “todas as principais tarefas das Forças Armadas russas nas direções de Kiev e Chernihiv foram concluídas” e que esta retirada era um simples “reagrupamento planeado” destinado a "intensificar ações em áreas prioritárias e, acima de tudo, completar a operação para libertar completamente o Donbass".

O que começou por ser uma missão para “proteger o Donbass” evoluiu para uma guerra total na Ucrânia. A força da resistência ucraniana, contudo, obrigou a Rússia a voltar ao início de tudo. Mudou quase tudo desde 21 de fevereiro para os dois países. Quase tudo, menos os motivos russos para a invasão.

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