Os números divulgados por dois grupos de piratas informáticos apontam para um número de vítimas muito superior ao reconhecido oficialmente por Moscovo. As estimativas surgem nas vésperas do regresso das negociações de paz, numa altura em que a Rússia estará a perder mais de 50 mil militares por mês entre mortos e feridos
Um grupo de piratas informáticos estima que quase 400 mil militares russos morreram na guerra na Ucrânia, depois de ter conseguido aceder aos sistemas do serviço federal de estatísticas da Rússia, o Rosstat.
O grupo Kiberpartizani BY contabilizou 393.881 militares mortos desde o início da invasão russa, em fevereiro de 2022. O número corresponde às pessoas que o Rosstat terá classificado como vítimas mortais de operações militares ou das suas consequências.
Outro grupo de hackers, denominado Silent Crow, aponta para 450.100 mortos, uma vez que inclui também as vítimas de atentados terroristas, os militares que morreram por causas não diretamente relacionadas com os combates e os cidadãos russos mortos na Ucrânia e nos territórios ocupados.
Segundo os dados divulgados, 54,9% das mortes ocorreram na região ucraniana de Donetsk, onde se têm travado alguns dos combates mais intensos desde o início da guerra. Mantendo-se a atual média de 18.280 mortos por mês, o número de vítimas mortais russas poderá ultrapassar o meio milhão até ao final de 2026, estimam os piratas informáticos.
Os dados não foram confirmados de forma independente. O Rosstat tem dificultado o acesso da imprensa às estatísticas de mortalidade desde os primeiros meses da invasão, deixando de publicar grande parte da informação sobre os óbitos no país. O Ministério da Defesa russo, por sua vez, não divulga um balanço atualizado dos militares mortos na Ucrânia. A última contagem oficial, apresentada em setembro de 2022, reconhecia apenas 5.937 mortos.
A BBC em russo e o portal independente Mediazona, que desde o início da guerra identificam os soldados russos mortos através de fontes abertas, já conseguiram confirmar quase 286 mil vítimas mortais, com nomes e apelidos. Cerca de 35% eram voluntários. A contagem ainda não inclui todos os militares mortos nos últimos meses, pelo que os dois órgãos de comunicação social admitem que as estimativas divulgadas pelos hackers possam aproximar-se dos números reais.
Os serviços de informações militares britânicos calculam que a Rússia já tenha sofrido cerca de 1,5 milhões de baixas, incluindo mortos e feridos, dos quais aproximadamente meio milhão terão morrido. A Ucrânia apresenta uma estimativa ainda mais elevada, apontando para mais de 1,6 milhões de baixas russas.
Segundo as autoridades ucranianas e os serviços de informações ocidentais, as baixas mensais do Exército russo passaram de cerca de 30 mil para mais de 50 mil nos últimos meses, tendo atingido as 54 mil em outubro. As perdas estão a dificultar a substituição dos militares nas unidades de combate, apesar de os avanços territoriais russos continuarem limitados.
Do lado ucraniano, a escassez de efetivos permanece um dos principais problemas das Forças Armadas. Para reduzir as perdas humanas, Kyiv procura evitar, sempre que possível, confrontos diretos, privilegiando operações de surpresa e o recurso a drones.
As novas estimativas sobre as perdas russas foram divulgadas nas vésperas da retoma das negociações trilaterais entre a Ucrânia, a Rússia e os Estados Unidos, marcadas para terça-feira, em Abu Dhabi. As conversações, mediadas por Washington, estavam interrompidas há nove meses, na sequência da guerra com o Irão.