Passos Coelho: "Para a minha campanha não vem um tostão de lado nenhum. Mas é de lado nenhum"
O mistério de corrupção do “Príncipe” || Capítulo 1 de 5 || A investigação do caso da barragem do Baixo Sabor passou a abranger suspeitas de um alegado financiamento ilegal da campanha do PSD em 2015. Ouvido pelo Ministério Público, Pedro Passos Coelho negou conhecer qualquer ilegalidade relacionada com verbas da construtora brasileira Odebrecht e garantiu que nem ele nem o partido aceitariam esse tipo de apoio. Passos revelou ainda que André Gustavo, antigo diretor de marketing do PSD, lhe transmitiu um convite para ir ao Brasil, ao casamento da filha de um empresário, numa viagem que serviria também para angariar financiamento para o partido, proposta que recusou de imediato. Miguel Relvas, igualmente ouvido, disse confiar plenamente no antigo líder. Os testemunhos, revelados pela TVI/CNN Portugal, integram uma investigação complexa que se arrasta há mais de nove anos
Eram exatamente 16h39, do dia 11 de abril de 2025, quando a gravação da sessão arrancou numa das salas do Departamento Central de Investigação e Ação Penal (DCIAP), em Lisboa. De um lado estavam o procurador Hugo Neto e o oficial de justiça Fernando Mateus, do outro um antigo primeiro-ministro convertido há uma década em professor universitário à espera do regresso à política. “Boa tarde, novamente, vamos iniciar a sua inquirição no âmbito do processo 1441/17.0 JFLSB (…), Pedro Manuel Mamede Passos Coelho está aqui como testemunha. Jura que vai falar com verdade?”
“Juro, com certeza”, respondeu Passos Coelho, que já sabia alguns pormenores do que ali iria ser tratado. O caso já tinha dado origem a muitas notícias e, 15 dias antes, o amigo Miguel Relvas tinha testemunhado no processo, mas ficou naturalmente à espera das explicações iniciais do procurador. “Muito bem, este processo respeita a uma matéria com alguns anos, os pagamentos da Odebrecht, isto já foi noticiado por diversas vezes. Aliás, as investigações novas tornaram esta matéria conhecida e depois foi reproduzida em jornais portugueses”, disse Hugo Neto, explicando de forma algo confusa que a investigação que tinha ali em mãos já era conhecida porque estivera integrada durante algum tempo num outro longo processo mediático, as tais “investigações novas”, o caso principal que visara desde 2012 os negócios da EDP, os seus antigos administradores António Mexia, João Manso Neto e também, entre outros, Ricardo Salgado e o ex-ministro Manuel Pinho.
“Portanto, fazendo esta referência e como o senhor não está acompanhado por advogado, tem de estar informado que pode fazer-se acompanhar por advogado. Prescinde de advogado?”, questionou o procurador, que já sabia qual era a resposta que veio de imediato: “Prescindo”. Mas o formalismo habitual deste tipo de atos continuou com o representante do Ministério Público (MP) a lembrar a Passos Coelho que não podia mentir como testemunha, pois incorreria em responsabilidade criminal. Obviamente podia recusar responder a perguntas que eventualmente o pudessem incriminar. “Não será o caso, seguramente”, respondeu com convicção o antigo líder do PSD.
O procurador poderia ter logo avançado para as perguntas concretas, mas o prólogo não se fechou naquele instante. Hugo Neto avisou que estava ali para falarem sobre “uma hipótese aventada pelos colegas do Brasil”, referindo-se aos documentos e ilações chegados há muito tempo a Portugal pela mão dos procuradores brasileiros que investigaram as maiores empresas de construção civil, a maior de todas a Odebrecht, no caso da Lava Jato. Uma rede gigante de corrupção que atingiu com estrondo centenas de altos quadros de empresas públicas e privadas e também muitos políticos no Brasil. E que deu origem ou ajudou investigações em outros países, como sucedeu em Portugal em diversos processos cruzados centrados no muito dinheiro suspeito da Odebrecht detetados em inquéritos como o caso Monte Branco e, depois, os casos sobre as redes de lavagem de dinheiro de offshores no banco Banif e a construção da Barragem do Baixo Sabor, no distrito de Bragança.
“Por mim, até acho muito interessante esta inquirição, porque pode ser que eu tenha alguma noção mais realista do que é que pode estar aqui envolvido, porque, lendo pela comunicação social, nem sequer entendo bem o que é que pode estar... nem sequer tenho uma noção, digamos, consistente do que é que pode estar associado a isto…… ou porque é que sequer esta questão possa ter relevância”, interrompeu Pedro Passos Coelho. “Irá perceber, com certeza, com mais elementos ... com mais elementos e...”, avançou aos soluços explicativos o procurador até chegar ao que estava em causa: “É feita uma referência ao seu nome, como uma hipótese, pelos colegas do Brasil, de que os pagamentos que a Odebrecht fez em 2015, atendendo à coincidência e à proximidade dos valores pagos pelo PSD, pela coligação [a AD], também no ano de 2015, poderiam ter como destinatário o primeiro-ministro de então, o sr. Pedro Passos Coelho”.
“Muito bem”, disse Passos de forma mecânica antes do procurador do DCIAP retomar o fio à meada dos acontecimentos: “Este processo inicia-se por suspeitas de corrupção da Odebrecht relativamente a uma série de obras. A Odebrecht [a multinacional brasileira instalou-se em Portugal em 1988 depois da aquisição da construtora Bento Pedroso, mas só adotou oficialmente o nome de Odebrecht Portugal entre 2013/19], que em consórcio com o grupo Lena, ganhou e executou obras em Portugal. Depois, porque os indícios foram sendo reforçados, a investigação centrou-se na adjudicação da barragem de Baixo Sabor, que é muito anterior ao seu governo”.
Pedro Passos Coelho (PPC): “Isso é o que veio nas notícias de jornal, daí eu não perceber sequer porque é que o meu nome ou o PSD vêm associados a esta matéria.”
Hugo Neto (HN): “Por aquilo que referi, mas já vou repetir e até...”
PPC: “Não, mas quer dizer, para mim não faz sentido.”
HN: “Se calhar outras pessoas poderiam decidir não o ouvir já porque a investigação não terminou. Nós entendemos que, considerando que já passou algum tempo desde essas notícias, não tendo indícios que justifiquem a sua constituição como arguido, também é uma oportunidade para que possa contribuir para a investigação (…) A barragem do Baixo Sabor, a adjudicação foi no governo do engenheiro José Sócrates, em 2008, o anúncio é 2007, 2008, e claro que o senhor não esteve envolvido, a menos que me escape alguma coisa. Estava noutras funções, obviamente, não integrava a Bento Pedroso, não integrava o grupo Lena, não concorreu. Só mais tarde veio o processo, é de 2017 e (…) apareceram os pagamentos de 2015 da Odebrecht, digamos, as requisições, os levantamentos para depois serem entregues a alguém, em que há uma referência à barragem de Baixo Sabor e ao tal nome de código, que é abreviado no Brasil. É o Príncipe.”
PPC: “Foi isso que eu li.”
HN: “(…) até essa altura era isso que estava em cima da mesa, tudo referências à adjudicação da barragem de Baixo Sabor. Mas os colegas do Brasil, do Ministério Público Federal, na sequência de pedidos nossos, enviaram mais elementos e fizeram, então, alusão a André Gustavo [brasileiro que foi diretor de marketing das campanhas legislativas do PSD e da AD em que foi candidato Passos Coelho em 2011 e 2015], que já tinha sido intermediário para outras pessoas…”
PPC: “Pois, ele esteve preso lá, no Brasil, por causa da operação qualquer coisa.”
O procurador desculpou-se com a falta de memória, ainda disse que não tinha ali os apontamentos, mas que achava que André Gustavo tinha estado detido com alguém da família num dos casos da Lava Jato. Passos desvalorizou a situação porque a desconhecia e Hugo Neto voltou à explicação, salientando que tinham sido os procuradores brasileiros a encontrarem uma coincidência temporal e de valores, entre os cerca de 880 mil euros da Odebrecht alegadamente entregues a André Gustavo para fazer chegar a alguém em Portugal e os pagamentos ao empresário brasileiro e à sua empresa Arcos Propaganda feitos pelo PSD e a Coligação Portugal à Frente. “É isso que estamos, neste momento, também a tentar apurar: o que é que aconteceu em 2015? São estas as duas hipóteses e…”, mas antes que pudesse concluir, Passos Coelho completou a frase do magistrado do DCIAP e riu-se: “… que eu possa ter ficado com o dinheiro…”
HN: “(…) mas nós entendemos que não há, neste momento, justificação suficiente para ser constituído arguido (…). Também estamos com este processo há muitos anos, a barragem do Baixo Sabor é de 2008. E conhecemos elementos que reforçam a nossa convicção de que estes pagamentos têm a ver também com 2008. Agora, não podemos descartar a hipótese de ser alguém, se calhar inventando um pedido de alguém do PSD para a Odebrecht pensar que estava a fazer - com um código que já tinha sido usado no passado – o financiamento da campanha do PSD. Se não estou enganado, o PSD e a coligação eleitoral pagaram pela campanha, no ano 2015, cerca de 868 mil euros, e a Entidade para a Transparência refere num relatório que não está devidamente justificado o valor que foi pago à Arcos. É um outro indício.”
PPC: “Não está especificado o valor do pagamento pelo PSD?”
HN: “É uma das irregularidades que foram apontadas e é aquela que chama mais a atenção. E o valor que dizem ter sido entregue a André Gustavo no Brasil, nessa época, em março e abril de 2015, é muito semelhante aos valores que, durante o ano 2015, o PSD e a coligação pagaram pela campanha [os registos da Odebrecht identificam um total de 3 milhões de reais, à época cerca de 880 mil euros pagos em seis prestações iguais, entre 25 de março e 8 de abril de 2015]. Como o senhor certamente já tinha lido sobre isto, por isso é que, ao contrário do que habitual numa inquirição, partimos destes pressupostos. Não partimos de uma pergunta, não começámos como se não soubesse da situação. O que é que tem a dizer sobre isto?”
PPC: “Olhe, eu só posso, enfim, dizer que acho tudo isso muito bizarro, porque não tenho presente, agora, qual foi o orçamento de campanha do PSD. Mas, enfim, isso é relativamente público, pode ser consultado. Mas se tivesse de me inteirar sobre isso, provavelmente, perguntaria ao secretário-geral do PSD da altura.”
“Vender o primeiro-ministro Passos Coelho ou vender o primeiro-ministro Sócrates não é a mesma coisa”
Pedro Passos Coelho confirmou que o nome a quem o MP devia ir bater à porta era o de José Matos Rosa, que foi deputado em várias legislaturas e secretário-geral do PSD entre junho de 2011 e fevereiro de 2018. Ainda assim Passos Coelho entrou nos custos da campanha eleitoral de 2015, considerando que tinham sido valores “relativamente modestos” e explicou como eram normalmente pagas as contas. “Entre as disponibilidades financeiras que o PSD tinha ou costumava ter e aquilo que são as necessidades de financiamento da campanha até que haja lugar à compensação que é transferida depois pela Assembleia da República para os partidos em função dos resultados eleitorais, normalmente recorre-se a instituições de crédito para avançar esse financiamento. E depois paga-se isso posteriormente. Foi isso que, seguramente, se passou em 2015 (…), mas serei incapaz de responder a qualquer pormenor sobre essas operações porque elas não passaram por mim. Não sei, eu perguntaria ao Matos Rosa que é uma pessoa em quem tenho confiança e que tenho a certeza que sempre se comportou bem, quer dizer, nunca tive...”
Hugo Neto interrompeu Passos Coelho com mais uma pergunta: “E também não desconfia que, atendendo a esta coincidência de valores e ao facto de ter sido...” -, mas o antigo primeiro-ministro não o deixou acabar e a resposta foi longa: “Ponha-se na minha posição. Eu não sei o que é que uma empresa brasileira pagou ou não pagou. Isso, para mim, é tudo matéria, digamos, que me transcende. O que eu sei é qual foi o nosso orçamento de campanha. Não sei o valor exato, mas admito que seja uma coisa muito parecida com essa. Ele é público, com certeza. O Matos Rosa era uma pessoa muito minuciosa e não creio que tenha aí cometido sequer imprudências formais. Haveria um contrato seguramente com o André Gustavo. De resto, ele já tinha estado a colaborar connosco desde a campanha de 2011 e manteve sempre, mesmo fora do período da campanha, uma colaboração connosco.”
O procurador do DCIAP pareceu concordar, nem que fosse por educação, mas Passos Coelho estava embalado e passou a explicar, com alguma sobranceria, quais eram as funções do especialista brasileiro que dirigiu o marketing do PSD: “Entre 2011 e 2015, haverá seguramente lá contratos com o André Gustavo, porque eu estava no governo e, a cada, não sei, dois meses, recebia-o com uma sondagem. Era uma coisa que era patrocinada pelo PSD, paga pelo PSD. E, apesar de eu nunca ter visto uma utilidade extraordinária nessas colaborações, porque nunca disseram nada que eu não suspeitasse ou não achasse… sempre achei um bocadinho espúrio estar-se a gastar dinheiro para fazer sondagens, que diziam coisas que a gente, da nossa intuição, sabia. Mas, enfim, aceito que os partidos precisam...”
Mais adiante, no testemunho, Passos Coelho seria ainda mais cáustico, não só sobre o trabalho de André Gustavo, mas de todos os que acham que os especialistas de marketing e comunicação podem ser as figuras maiores numa vitória eleitoral. “(…) acho que as pessoas que estão nessa posição tendem a hipervalorizar a sua relevância, está a ver?! É um consultor, não decide nada. Propõe e é o secretário-geral e a direção de campanha e o diretor de campanha que aceitam ou não aceitam. Evidentemente que se paga a um tipo que é profissional para dar boas sugestões e, em regra, deve-se seguir as sugestões dele, mas não é obrigatório. Até surgem os pequenos conflitos, ah, ‘eu queria que o cartaz fosse assim’, ‘não é a mensagem que devia ser’ ou ‘não é porque não sei quem’ e eles depois lá andam a discutir aquilo e eu acho que tudo isso não tem uma relevância maior, mas também não é absolutamente irrelevante, está a ver?!”, disse antes de concluir o raciocínio: “Alguém tem de tratar dessas coisas e os cartazes não podem dizer disparates, mas sempre achei um exagero a malta que acha que se ganhou a campanha porque o cartaz dizia assim ou assado. Mas não quero estar a parecer também soberbo relativamente às pessoas que fazem essa função, alguém tem de a fazer (…) e, portanto, o André Gustavo fez muito bem esse papel e ficarei sempre reconhecido, mas (…) acho que ele exagera um bocadinho a importância que acha que teve no resultado das eleições. Para ele, vender o primeiro-ministro Passos Coelho ou vender o primeiro-ministro Sócrates é tudo a mesma coisa e eu acho que não é bem assim, está a ver?! Mas, enfim, percebo o ponto deles.”
Logo no início desta conversa a dois tempos, o procurador Hugo Neto pareceu mais interessado e avançou nas perguntas para tentar perceber quem seria as pessoas no partido mais próximas de André Gustavo: “Obviamente era com o seu acordo que o André Gustavo lá se mantinha, mas recorda-se de quem mais entusiasta para a manutenção do André Gustavo? Tem essa ideia? Se é que havia alguém, se calhar...” Passos Coelho desviou-se por momentos da pergunta, porque disse que queria corrigir o que tinha dito sobre o especialista brasileiro, insistiu que não queria que parecesse que estava a desprimorar o trabalho de André Gustavo, mas o tom alterou-se pouco no longo monólogo que antecedeu a chegada aos nomes que o MP queria: “Não, quer dizer, ele tinha uma função útil. E, portanto, quer em 2011, quer durante aquele período todo, ele desempenhou uma função que alguém tem de desempenhar e, portanto, se quem está a desempenha bem, não há nenhuma necessidade de ir atrás de coisas novas. Às vezes, até andar à procura de muitas coisas novas, complica. Porque as pessoas, depois, não têm sensibilidade, não conhecem as pessoas, não sabem pedir bem, voltamos aos mesmos erros, a servir os mesmos egos. E, portanto, é mais fácil manter, mesmo com os problemas que sempre há e sempre houve, com as sensibilidades entre um vice-presidente que está em exercício de funções, em meu nome, porque eu desliguei-me um pouco das coisas do PSD enquanto estive no governo. Portanto, primeiro foi o engenheiro Jorge Moreira da Silva [1º vice-presidente da Comissão Política Nacional entre 2012/16 e ministro do Ambiente entre 2013/15), depois foi o dr. Marco António Costa [vice-presidente do PSD entre 2010/18) e havia sempre pequenos atritos entre eles e o André Gustavo, porque uns achavam que deviam fazer mais de uma maneira, mas eu confesso, eu não tenho muita paciência para gerir esse tipo de...”
HN: “E tinha muitas interações com o André Gustavo?”
PPC: Não, eu tinha essas que eram correntes e ele mantinha uma correspondência comigo, que estará documentada em emails. À maior parte deles eu nem sequer respondia, lia, para saber o que ele pensava, ‘’Pedro, eu acho que o governo, assim e assado, vê lá, se isto e aquilo’, enfim, estas coisas dos homens que dirigem campanhas, mas eu tinha mais que fazer e com que me coçar. Portanto, às vezes, lá o recebia, lá o ouvia e lá me trazia as sondagens, que diziam aquilo que eu supunha que dissessem. Mas, enfim, quando se pôs a questão da campanha de 2015, não havia nenhuma necessidade de ir contratar outro tipo e, portanto, manteve-se o André Gustavo (…). Portanto, isso tinha um contrato específico para as eleições. Uma coisa é um contrato normal…”
HN: “Nas campanhas é mais intenso…”
PPC: “…aquilo envolve equipas próprias, já não é só ele, está a ver, tem de vir gente.”
HN: “Tem ideia de ter existido o reforço da equipa dele para a campanha?”
PPC: “Durante o tempo normal, que eu saiba, ele não tinha equipa nenhuma. Havia uma empresa de sondagens que trabalhava com ele, com quem o PSD tinha um contrato próprio, na altura até acho que era... era a Pitagórica. Fazia não apenas sondagens, fazia focos-grupos quando o André Gustavo entendia que era preciso, o que acontecia às vezes em períodos de maior sensibilidade governativa, que era preciso avaliar melhor, enfim, eu envolvia-me pouco nisso, está a ver, deixava correr um bocadinho. As pessoas têm de andar ocupadas, têm de fazer as suas funções e a gente vai seguindo isso da melhor maneira possível. E sempre achei que é preferível ter mais informação de que ter menos, nunca vi nenhum problema nisso. Como digo, a espaços que não seriam de relógio, mas a cada dois meses, três meses talvez, eu recebia o André Gustavo com uma senhora da Pitagórica, depois pedia à senhora para sair, para ele dizer o que pensava sobre o clima político, o que se pensava e tal, e por aí fora.”
HN: “Manteve depois o contacto com o André Gustavo?”
Pedro Passos Coelho confirmou que sim, até porque o especialista em marketing quis fazer um livro sobre os acontecimentos eleitorais de 2015. Se o chegou a publicar, Passos disse que não sabia, apenas revelou que André Gustavo lhe tinha mandado “algo escrito” que não lhe agradara: “(…) lá lhe dei a entender que não gostava muito daquilo, acho que não tinha o direito de lhe dizer que ele não devia escrever livro nenhum, enfim, seria com ele. Mas acho que não lhe ficava bem”. Até à data da inquirição do DCIAP em 2025, Passos Coelho não soube mais nada sobre o livro que recusou prefaciar.
“Para a minha campanha, não vem um tostão de lado nenhum. Mas é de lado nenhum”
“Mas falou que esteve com ele, que já esteve mais vezes...”, insistiu o procurador, que recebeu uma resposta imediata: “(…) ele às vezes pedia para falar comigo e eu recebia-o. Já depois de sair do governo, sei que ele teve muitos problemas lá com a justiça brasileira, esteve até preso, uma temporada. Depois de ter saído dessa circunstância, esteve muito tempo sem vir cá, depois veio e quis encontrar-se comigo e eu já me encontrei com ele duas vezes depois disso”.
HN: “E foi tema de conversa as notícias que surgiram ligando André Gustavo e a Odebrecht a pagamentos ao PSD, ele tentou justificar-se para dar uma...”
PPC: “Não, ele não justificou coisa nenhuma, porque, em primeiro lugar, não houve coisa nenhuma, portanto ele não tem de me justificar coisas que não existem. Agora...”
HN: “Isto quanto ao PSD?”
PPC: “Sim, sim.”
HN: “Ele não negou, nem confirmou os pagamentos no Brasil?”
O antigo primeiro-ministro começou por dizer que André Gustavo não lhe tinha dito nada, mas depois hesitou e salientou que talvez lhe tivesse abordado o processo de que fora alvo no Brasil, mas garantiu que não se lembrava de grande coisa. “Eu ouço por educação, está a ver, mas não me recordo dos pormenores”, justificou. Apesar disso, o procurador quis saber qual era “a impressão geral” com que tinha ficado. “Foi que ele estava, digamos, magoado. Sentia-se magoado por achar que não tinha feito nada que estivesse errado, tinha feito um favor a um amigo de uma dessas empresas, que de resto não é a Odebrecht, é um...” E, de forma algo inesperada, Passos Coelho passou a contar um episódio caricato que resultou de uma conversa com André Gustavo que o teria tentado convencer, quando ainda estava no governo, a ter um encontro precisamente com o tal empresário brasileiro que depois teria estado envolvido no processo brasileiro: “Era um tipo que ele [André Gustavo] queria que eu fosse ao casamento da filha dele no Brasil”.
O procurador ficou meio perdido, mas não deu o braço a torcer: “Eu costumo errar no nome, mas...” Passos insistiu na conversa, mas também não se recordava do nome: “É um homem que tem muita relevância no agronegócio”. O nome continuou a não lhe vir, mas sabia que tinha voltado a ouvi-lo em conversas posteriores com André Gustavo: “O que ele me disse foi que cortaram relações e tudo, portanto, estava bastante zangado com ele por ter achado que ele se tinha portado mal. Hugo Neto decidiu arriscar e introduziu o nome codificado, o “Príncipe”, que aparecia há muito no processo como o destinatário de alegados pagamentos ilegais da Odebrecht, tanto em 2008 como em 2015. Pagamentos referidos em documentos internos da própria construtora brasileira e também em testemunhos de delatores.
“Não, não era sobre o Príncipe”, respondeu Passos Coelho, que continuou a não conseguir recordar-se do nome e assim deixou a meio o relato do episódio. Voltaria a ele bem mais à frente no testemunho com uma revelação surpreendente. “Repare, eu tenho uma posição muito sólida com o André Gustavo, e sei que ele a respeita. Ele sabe qual é a minha maneira de estar e qual é o meu sistema de vida, portanto, sabe o que é que eu tolero e o que é que eu não tolero. E sobre estas matérias, eu tenho a certeza de que ele sabe muito bem que eu não tolero nada. Porque, por mais do que uma vez, duas, três vezes, havia o tal tipo com quem ele se dava muitíssimo bem, que era uma espécie de irmão dele, e que agora são inimigos, um homem do agronegócio…”
HN: “Certo, certo.”
PPC: “… e ele queria muito que eu fosse ao casamento da filha, não sei onde. Eu disse-lhe, ‘Ó André Gustavo, isso está fora de questão, era o que me faltava, não conheço o homem de lado nenhum, eu vou agora ao casamento da filha para o homem dizer que tem lá um primeiro-ministro, mas isso tem algum sentido ou o quê?! Era o que me faltava ir para o Brasil, nem penses nisso. Isso é uma palermice’”.
HN: “Certo.”
PPC: “Portanto, eu tive várias interações com ele, em que ele percebeu muito bem. (…) disse-me que ele [o milionário brasileiro] gostava muito de contribuir para a minha campanha e eu, nessa altura, disse-lhe mesmo ‘André, vamos aqui ver se a gente se entende com muita clareza sobre isto. Para a minha campanha, não vem um tostão de lado nenhum. Mas é de lado nenhum’”.
HN: “De lado nenhum, está a referir-se ao setor empresarial do Brasil ou de Portugal?”
PPC: “De doadores, de gente interessada, etc. Eu disse-lhe ‘Nenhum, de lado nenhum´”.
HN: “É que isso já é uma informação que assume maior relevo face àquilo que está aqui em causa.”
PPC: “Ele está muito ciente de como é que essas coisas se passam comigo.”
HN: “Mas não deixou de o fazer, de atirar o barro à parede. Não deixou de lhe perguntar, de o convidar e depois referir…”
PPC: “Sim, mas ouviu uma resposta muito clara. Essas coisas não deixo mesmo passar subentendidas, está a ver?! E reforcei dizendo-lhe ‘André, espero que tenhas ouvido bem o que eu te estou a dizer. Não quero nunca ouvir dizer que tenha vindo um tostão de ninguém do Brasil para a campanha do PSD’. E ele disse-me ‘com certeza, isso está fora de questão. Pronto, o não sei quantos queria dar porque sabe que eu estou muito envolvido nisto e gostava de ajudar e tal, mas tu não queres, não queres’. ‘Mas é que é mesmo assim, não quero um tostão de lado nenhum’. Portanto, isso para ele era muito claro.”
O magistrado do MP insistiu com Passos que era importante chegarem ao nome do empresário milionário brasileiro, disponibilizou-se até a receber a informação nos dias seguintes se o antigo primeiro-ministro se lembrasse ou encontrasse mais algum dado inclusive em comunicações no telemóvel. Mas Passos pareceu não querer deixar o assunto para depois e colocou a hipótese de se ver “o nome do homem na internet”, dizendo que era alguém muito importante no agronegócio, porventura “o maior exportador”. E quando Hugo Neto já estava de novo a remeter o desenlace do enigma para data posterior, Passos Coelho consultou o telemóvel e apareceu-lhe quase de imediato umas iniciais. “Deixe-me lá ver, as maiores empresas...” e continuou a soltar mais algumas expressões e palavras soltas - “Ora, cá está, JBS. É o tipo da JBS, agora... como é que o tipo se chama…”
O procurador pareceu hesitante, ainda disse que depois também ele faria uma pesquisa, mas Passos Coelho já nem o ouvia e chegou rapidamente a mais informação - “Pronto, era o tipo da JBS, eram dois irmãos, eu vi isso e sei” -, referindo-se aos irmãos Joesley e Wesley Batista, que a revista Forbes destacou este ano como sendo a 2ª e a 3ª maiores fortunas nos agronegócios brasileiros. Cada um dos irmãos terá um património avaliado em quase 22 biliões de reais, o equivalente a cerca de 3,75 mil milhões de euros. Os dois irmãos estão até no 17º lugar das maiores fortunas brasileiras.
Hugo Neto destacou que “já é mais qualquer coisa e agora já não será difícil completar isso”, mas Pedro Passos Coelho continuou a teimar na identificação final que surgiu pouco depois: “Joesley, cá está”. Hugo Neto pediu-lhe para repetir e Passos insistiu: “Joesley. Era o Joesley Batista”. O magistrado do MP prometeu que ia obter mais informação, mas Passos Coelho insistiu no nome ligando-o de novo aos problemas que o antigo responsável do marketing do PSD lhe tinha confidenciado num dos encontros: “Ele depois zangou-se muito com o Joesley, não é?! (…) Lá por causa desse processo no Brasil, mas eu isso não sei. (…) Do Joesley, lembro-me, porque se colocou essa questão, eles eram muito amigos, queria que eu fosse ao casamento da filha, eu não fui, depois disse que o Joesley queria apoiar a campanha do PSD e proibi-o em absoluto”.
HN: “Isso foi público? Essa manifestação…”
PPC: “Não, não foi público, foi uma conversa que eu tive com ele, mas isso ficou muito claro. E não tenho nenhuma razão para supor que ele não tenha percebido exatamente aquilo que ele disse. Nenhuma razão.”
HN: “Tem ideia, e já falou em campanha, que isto foi no ano de 2015. (…) Não seria a de 2011?”
O antigo líder do PSD reafirmou que tinha a certeza de que o episódio ocorrera na campanha para as legislativas de 2015, afirmando que se recordava de ter avisado o próprio André Gustavo quando, e vincou, “estava no meu gabinete, era eu primeiro-ministro, tenho a certeza disso”. Hugo Neto fez questão de referir que tudo aquilo que ouvira era uma “situação nova” que nem sequer constava no processo. “Ninguém a pode ter referido, porque só a posso referir eu ou ele”, disse Passos Coelho a rir, mas depois corrigiu revelando outro nome que também sabia daquilo: Miguel Relvas, “porque no contexto destas coisas todas, eu disse-lhe isso”.
“Ponho as minhas mãos no fogo por ele, conheço Passos Coelho há 50 anos”
Quando Miguel Relvas testemunhou no DCIAP na manhã de 27 de março de 2025, 15 dias antes da inquirição de Passos Coelho, o procurador Hugo Neto não lhe colocou obviamente nenhuma questão sobre o episódio da alegada proposta de 2015 quanto a um possível financiamento brasileiro ao PSD. E também Relvas não abordou por sua iniciativa a confidência que o antigo primeiro-ministro disse que lhe fizera. O testemunho durou 46 minutos e ficou gravado em vídeo e áudio, com o procurador a destacar que tinha obtido a autorização de Relvas porque “mais tarde quem for rever esta inquirição pode... perceber também como é que se expressou fisicamente nas respostas que prestou.”
Miguel Relvas começou por abordar o próprio percurso profissional que interessava para a inquirição, dizendo que tinha saído do Governo e da política em 2013, sendo que na altura alegou a falta de “condições anímicas” devido a uma acumulação de polémicas marcada pela revelação do caso da turbo-licenciatura que conseguira anos antes. A Universidade Lusófona atribuiu-lhe 32 créditos de um total de 36 e, num ano, Relvas conseguiu o curso de Ciência Política e de Relações Internacionais, sobretudo com base na experiência profissional e política. Acossado pelos resultados de uma inspeção mandada depois fazer pelo próprio Governo e pelo ministro da Educação, Nuno Crato, o então ministro Adjunto e dos Assuntos Parlamentares ficou num beco sem saída, demitiu-se e nem sequer depois participou na campanha eleitoral para as legislativas de 2015. “(…) quando eu saí, quem ficou à frente no partido foi o Jorge Moreira Silva, depois saiu para ministro [Ambiente] e o Marco António Costa sai de secretário de Estado de Ação Social e vai para o partido e dirige a campanha de 2015”, lembrou o antigo político.
Ao MP, Miguel Relvas recordou ainda que tinha sido Marco António Costa que lhe apresentara, “em 2009/10”, o especialista de marketing brasileiro André Gustavo. “Conheci-o no Porto, ele era amigo do dr. Luís Filipe Menezes. Entretanto, nós tivemos eleições legislativas em 2011 e eu era o secretário-geral do PSD e precisava de uma equipa para o marketing. Achei interessante algumas das ideias que ele me deu, sobretudo uma coisa muito importante: disse-me que conhecia o professor Lavareda, que é um homem de sondagens [Antônio Lavareda, cientista político e sociólogo brasileiro responsável pelas sondagens diárias que a TVI/CNN Portugal fez durante a campanha para as eleições legislativas de 2024]”.
O antigo ministro entusiasmou-se e continuou a explicação: “É o maior especialista de sondagens do Brasil que eu conhecia. E depois, enfim, perguntei ao Lavareda quem era o André Gustavo e isso ajudou a contratá-lo para fazer a campanha de 2011 (…) Foi uma campanha muito inovadora, até por causa do Lavareda (…), eu gosto muito de sondagens, tenho um certo fascínio por sondagens (…), gosto de as estudar com profundidade. E montámos uma campanha e ele ficou [André Gustavo] cá a trabalhar”.
No testemunho no DCIAP, Relvas elogiou o trabalho de André Gustavo, mas garantiu que depois de sair da política ativa esteve muito tempo sem ter qualquer contacto pessoal com o brasileiro. E especificou que ficou muito surpreendido quando nos media começaram a sair notícias sobre as investigações da Lava Jato, da Odebrecht e de outros pormenores ocorridos em Portugal que acabaram por envolver o brasileiro. “Eu não sabia da relação dele com o António Mexia ou que ele tinha outra vida cá... que ele conhecia o António Mexia, que se encontrava…”, desabafou Relvas referindo-se a uma investigação já antiga da jornalista Cristina Ferreira, no jornal Público, sobre as eventuais ligações do empresário à EDP (que Gustavo desmentiu depois no interrogatório realizado já em 2026, mas que terá confidenciado a Pedro Passos Coelho que, de facto, existiam.)
“Se há pessoa que eu conheço que é rigorosa em todos os limites, até na sua vida pessoal, é o dr. Passos Coelho, mas é mesmo… eu acho que ele ficou ainda mais surpreendido do que eu quando viu essas notícias de que que havia relações dele …”, assegurou Miguel Relvas, com o procurador a perguntar se estava a falar das notícias que ligavam André Gustavo ao então CEO da EDP no tempo em que ainda trabalhava para o PSD: “Sim, da relação dele com o António Mexia, até porque era público e notório que havia um afastamento do dr. Passos Coelho com o António Mexia. Nunca foram pessoas que se dessem, isso foi sempre público e notório (…)”. E Relvas depois acrescentou que ficou estupefacto quando soube de certos factos pela comunicação social: “Eu li as notícias de que ele se encontrava com o Mexia (…), não sei se é verdade, aquilo que eu li é que se encontrava num hotel e tal, sei lá, até fiquei surpreendido que o Mexia fizesse isso. Se é que é verdade, está a perceber?!”
Quinze dias depois, Passos Coelho deu mais umas pistas sobre este tema ao MP, pois também disse que tinha ficado surpreendido com as notícias sobre uma alegada abordagem de André Gustavo ao então presidente-executivo da EDP. Garantiu que nunca tinha sabido de qualquer aproximação para mediar um conflito entre a Odebrecht e a EDP, depois de o procurador Hugo Neto lhe perguntar, mas acrescentou que foi o próprio André Gustavo que, após a notícia, o procurou e lhe deu algumas explicações. “Lembro-me de (…) ter dito que sentiu necessidade de explicar que tinha uma relação com o António Mexia e que tinha tentado convencê-lo a investir numas empresas no Brasil, uma coisa qualquer na parte das eólicas, acho eu. Se não eram eólicas, eram renováveis”, especificou Passos Coelho. E acrescentou: “E tanto quanto me recordo, também me disse que não conseguiu que resultassem esses esforços para o [EDP/António Mexia] levar a investir no Brasil, lá nos projetos que ele entendia que podiam ser interessantes. Segundo ele me disse, não se terão concretizado”.
HN: “E tem a ideia se se tratava de negócios próprios de André Gustavo? Ou André Gustavo estava ali a agir a mando de alguém, como intermediário?”
PPC: “Quer dizer, não percebi, mas subentendi que seriam coisas em que ele pudesse ser consultor, porque nunca entendi que ele fosse investidor ou empresário. Portanto, subentendi, sim, que ele estivesse a mediar qualquer coisa, a assessorar qualquer coisa (…) Sinceramente, eu lamento que ele não tenha informado o PSD na altura de que tinha esse tipo de contactos, não é?! Porque se eu tivesse sabido que ele andava em Portugal a desenvolver outras atividades, talvez não tivesse ficado a colaborar com o PSD nessa altura. Porque são coisas que não são necessariamente incompatíveis, mas é preferível não haver zonas cinzentas. E, portanto, se eu soubesse disso, teria escolhido um outro marqueteiro qualquer, que não tivesse, que não andasse a fazer negócios por conta própria, numa altura em que nós estávamos no governo.”
O procurador regozijou-se com as “informações importantes” que estava a obter de Passos Coelho e o antigo político fez questão de lhe dizer que não tinha por hábito falar de conversas sobre a vida alheia, sobretudo quando lhe eram contadas pelos próprios com base na confiança. Hugo Neto atalhou que compreendia os pruridos, mas justificou que a situação que estavam ali a tratar no processo envolvia suspeitas de crimes. “Por isso é que a mencionei, porque não queria que ficasse omisso, está a ver?! (…) Que o André Gustavo tinha uma relação com o Mexia, eu não o sabia, só soube depois. E soube por ele, não soube por mais ninguém, está a ver?! Foi ele próprio que deve ter achado que me devia dar uma explicação sobre isso, dando-me conta que estivesse descansado, pois ele nunca tinha tido nenhum envolvimento com o governo, nem com coisa nenhuma, eram investimentos que ele procurava fazer no Brasil. Levar a EDP a fazer no Brasil e por aí fora (…), mas que não conseguiu concretizar”.
HN: “Então e ele não disse qual foi a razão concreta, isto é, se António Mexia recusou logo, liminarmente?”
PPC: “Não, não disse. Disse-me apenas que não tinha tido depois seguimento.”
Quando se cruza o conteúdo dos testemunhos de Pedro Passos Coelho e Miguel Relvas no processo da barragem do Baixo Sabor percebe-se que os dois colocaram as mãos no fogo reciprocamente quanto às suspeitas do processo que vinham nas notícias ou mesmo quando o procurador deu a entender ou perguntou diretamente se sabiam ou acreditavam que o outro tivesse recebido algum dinheiro suspeito do Brasil. “E não há nenhuma hipótese, porque pode ter-lhe contado a si e não nos ter contado, haver alguma hipótese de Miguel Relvas seja apontado como o destinatário…”, começou por dizer o procurador do DCIAP, mas com Passos Coelho interrompeu-o de imediato: “Não, não acredito”. Hugo Neto ainda insistiu – “Porque Miguel Relvas desloca-se com…” -, mas foi de novo travado pelo antigo primeiro-ministro: “Ele tem muitos interesses no Brasil e não só. Eu sei porque ele me conta, evidentemente. Mas seria muito surpreendente, não acredito nisso”.
Já Relvas foi menos fleumático que o amigo Passos Coelho. Desabrido, chegou até a rir-se várias vezes quando pensou que o procurador do DCIAP se referia a atos ilegais do amigo e antigo primeiro-ministro: “Oiça, eu conheço o dr. Passos Coelho há 50 anos…”
HN: “Já colocou a hipótese do ex-primeiro ministro…”
Miguel Relvas (MR): “Isso nunca, em circunstância alguma, oiça…”
HN: “Não consegue é afastar toda a gente, como é óbvio, não é?”
MR: “Não, mas ponho as minhas mãos no fogo por ele, conheço Passos Coelho há 50 anos e ele está sempre atento a ver se alguém (…), repare, há casos que estão sempre a acontecer em alguns governos, mas veja que não houve um caso no governo dele. Ele nessas matérias é intransigente, a vida dele fala por si. Eu não digo isto por ser amigo dele, quer dizer, não estou aqui a fazer propaganda, estou aqui a dizer o que eu penso. E acho que é o que o país também pensa, na verdade. Pode ter todos os outros defeitos do mundo, eu conheço a vida dele, sei a vida dele…”
HN: “E já conversou com o dr. Passos Coelho sobre isto?”
MR: “(…) o Passos Coelho tinha mais perfil para ser primeiro-ministro do que para ser líder do PSD, está a perceber?! Agora, eu sei que, quando estamos a falar de pessoas envolvidas em tudo isto, o dr. Passos Coelho está do lado dos outros (ri-se]. É que não há dúvidas. É público e notório, está a perceber?! Muita gente ficou surpreendida com o que ele fez ao grupo [o pedido de ajuda de Ricardo Salgado por causa do BES/GES), mas a mim não me surpreendeu nada, eu sabia que ele iria ter aquela…”
HN: “Quando surgem referências do Brasil, não só quase à coincidência dos valores, como também uma referência expressa, embora seja uma conclusão dos colegas do Brasil, de que pode ser que o dinheiro tenha ido para o PSD, temos que obviamente também de trabalhar essa hipótese.”
MR: “Eu acho que se houve dinheiro não foi para o PSD.”
HN: “O que está referido…”
MR: “Eu fui ver, fui ler. (…) dizia que havia aquele tipo que recebia que era um Príncipe. Quem é que tem perfil para príncipe, quem é a pessoa (ri-se)?! Ou seja, o Príncipe é para um tipo que tem um perfil, quem é que seria (ri-se)?! Não sei… (ri-se bastante)”
HN: “Há muita gente, se calhar que é conhecida por vários nomes, mas…”
MR: “No Brasil aquilo era uma pauta [Excel] que tinha um que era o ministro das Finanças, era o “italiano”, o outro era… [há muitas referências a cognomes curiosos nos documentos da Lava Jato sobre gente corrompida pela empresa, nomes como "Sócio 1", "Avesso", "Babaçu", "Crente" ou "Leleco], eu fui ler, eu leio jornais brasileiros, porque eu trabalho lá e tenho de ler.”
HN: “E o Príncipe, quando viu essa referência pensou, por exemplo, em Marcelo Odebrecht?
MR: “Não, o Marcelo Odebrecht [dono da construtora que foi detido em março de 2016] é que tinha os nomes, era a que ele pagava (ri-se)? Eles diziam que pagavam, sei lá se pagavam ou não…”
HN: O “Príncipe” está associado à barragem do Baixo Sabor, essa investigação inicial ainda se mantém. Depois surgiu a outra hipótese [o PSD]…”
MR: “O André Gustavo não tem ar de Príncipe (ri-se bastante).”
HN: “Não, não sei se foi escolhido o nome em função da aparência do destinatário. A verdade é que o Baixo Sabor foi adjudicado em 2008 e, depois em 2015, surge novamente, com um intervalo de sete anos, a referência a pagamentos a “Príncipe/Baixo Sabor”. Se calhar alguém usou uma coisa antiga para fazer um pagamento de uma coisa nova. É isso que nós estamos a tentar perceber, o sr. já deu aqui o seu contributo (…) e essa também do Marcelo Odebrecht não ser o “Príncipe”, o sr. faz uma observação que me parece fazer algum sentido, porque era o líder da empresa que pagava. Mas se calhar no meio de tantos pagamentos (…) poderia ser um pagamento de si próprio, não sei.”
MR: “Sim, sim. Mas eu não digo isto por ser amigo do dr. Passos Coelho (…), é mesmo aquilo que eu acredito, eu conheço razoavelmente bem a vida dele, sei como é que vive, onde vive, toda a atitude dele perante a vida (...), se alguém lhe fosse falar dalguma coisa dessas, era corrido...
HN: “Rapidamente?”
MR: “… a pontapé.”
“O meu governo nunca esteve à venda, eu nunca estive à venda”
Nas inquirições e mesmo nos interrogatórios do processo da barragem do Baixo Sabor, de forma propositada, o procurador Hugo Neto regressou muitas vezes ao mesmo tema. Com a mesma testemunha ou arguido, as perguntas repetiam-se muitas vezes com ligeiras nuances, fosse no início, no meio ou no fim das sessões mais ou menos longas que aconteceram na sede do DCIAP. O trabalho de casa do investigador parecia ser depois o de ligar o melhor possível todos os pontos em aberto que iam ficando ao longo das respostas. Isso também sucedeu, muitas vezes, na conversa com Pedro Passos Coelho que demorou 1h05 e que, por diversas vezes, voltou a quem na altura parecia ser o principal alvo para o MP: o publicitário brasileiro André Gustavo.
“Algumas notícias que já saíram há alguns anos sobre a hipótese do destinatário [dinheiro da Odebrecht] ser o sr. dr., o PSD, André Gustavo não quis esclarecer isso consigo?”, perguntou Hugo Neto. Pedro Passos Coelho disse que o brasileiro nunca tinha tomado tal iniciativa, o procurador quis saber se Passos Coelho não tinha tido vontade de o questionar e a resposta que obteve foi esta: “(…) está a ver, eu tenho uma certa inibição em perguntar coisas que não se passaram, que não existem. Não lhe ia perguntar: ‘tu deste-me dinheiro ou deste dinheiro ao PSD’, quando eu sei que não deu”.
HN: “A minha pergunta não era essa, mas...”
PPC: “Eu sei que não deu.”
HN: “Está bem, sr. dr., mas a questão é que, entre pessoas que se conhecem e tendo visto uma destas notícias, podia dizer assim...”
PPC: “Eu tentarei responder àquilo que parece que é a sua preocupação. Eu estive com ele há umas semanas, já não me recordo de quando, estive a jantar com ele e vejo que ele está... Aliás, estive com ele até por duas vezes. Ele foi para a neve e depois disse-me que estava com a mulher, com a Débora e com os miúdos, e que gostavam todos de se encontrar comigo, mas depois acabou por aparecer só ele. Para o caso, ele é que tomou a iniciativa de me dizer, porque percebeu que eu podia estar um bocado aborrecido por aparecer o meu nome envolvido numa história com a qual não tenho nada a ver. E eu fiz um desabafo desse género, quer dizer, que não me agradava muito andar nos jornais sempre com referências insinuosas de coisas com as quais não tenho nada a ver. E ele perguntou-me se queria que escrevesse para os jornais e eu disse-lhe que não, ‘tu não escrevas nada, nem digas nada para os jornais, era o que me faltava agora ainda ter de andar nos jornais a alvitrar o que tu achas ou deixas de achar?!’. Ele disse ‘não, mas o que me apetece é escrever que isso é tudo um absurdo, eu tenho um email, uma carta”, não sei, da Procuradora-Geral da República a dizer que não há nenhuma investigação sobre ele.”
HN: “A Procuradoria-Geral da República de Portugal?”
PPC: “Sim, sim, de Portugal. Eu disse-lhe: ‘pedia-te o favor de tu não fazeres nada, e estás quietinho e caladinho e já basta andar com essas coisas nos jornais, não apareças, não digas nada’. E foi este o teor desta matéria, foi o que conversámos, não conversámos mais nada.”
HN: “Muito bem. Portanto, aquilo que André Gustavo lhe transmitiu é que isto não ocorreu, ele não recebeu dinheiro de ninguém no Brasil em 2015…”
PPC: “Ele não me disse que não recebeu dinheiro de ninguém.”
HN: “… a pedido da Odebrecht.”
PPC: “Eu não posso dizer que ele me disse que não recebeu porque ele não me disse tal coisa.”
HN: “Aquilo de ser destinado a si...
PPC: “Isso até seria risível, ele dizer qualquer coisa parecida com isso.”
HN: “A pergunta é se ele, face aquilo que saiu (…), se ele recebeu naquela altura dinheiro, havia a situação anterior pela qual ele foi julgado [no Brasil] e depois há esta [em Portugal] que surge mais tarde.”
PPC: “Ele já me tinha explicado como eu lhe disse, mas confesso que não estou em condições de reproduzir nem sequer a situação anterior que envolvia os aspetos da relação dele lá com essas empresas no Brasil. Só sei que ele mostrou-se muito magoado com os amigos que tinha no Brasil, com as empresas e com isso tudo porque dizia que não tinha feito nada de mais, nada de ilegal e mostrava-se muito agastado por lhe terem criado uma situação em que ele achava que era inocente e que tinha sido envolvido.”
A conversa pouco mais avançou em termos de novidades. Passos Coelho manteve que só se lembrava que André Gustavo lhe dissera que estava muito magoado com o que vivera no Brasil e que nada fora falado sobre as referências que constavam na documentação da Odebrecht sobre passagens e dinheiro associadas a nomes como “Baixo Sabor” e o “Príncipe”. E fechou o assunto: “Não, ele nunca me disse tal coisa, se me tivesse dito tal coisa eu então talvez lhe fizesse alguma pergunta como ‘estiveste envolvido em alguma coisa?; transportaste dinheiro para alguém?; ou fizeste algo que não devias ter feito?’, mas isso não aconteceu. Ele nunca me deu nenhumas explicações e eu entendi que não devia pedir explicações ainda para mais sobre coisas com as quais eu não tenho nada a ver”.
HN: “Certo, muito bem. E falou com mais alguém que tenha dado alguma explicação? Daquilo que já disse hoje, percebe-se que não, mas…”
PPC: “Sou muito amigo do Miguel Relvas, às vezes, até conversamos sobre isso e eu até lhe costumo dizer ‘olha, eu até tenho uma certa curiosidade em saber como é que isto acaba, para saber se alguém andou a receber dinheiro, ainda que não perceba a troco de quê’. Por que raio é que a Odebrecht havia de mandar dinheiro para um tipo qualquer do PSD?! Não faço ideia, é uma coisa que para mim não faz sentido.”
HN: “A hipótese de alguém argumentar ou invocar falsamente que havia uma decisão do PSD para pagar a André Gustavo esse montante (…), alguém do PSD ou alguém ligado a pessoas do PSD ter inventado essa justificação e a Odebrecht ter decidido arriscar para pagar os serviços a André Gustavo, por exemplo?”
PPC: “Mas a troco de quê? Isso não faz sentido.”
HN: “Mas essa hipótese pode-se colocar: pagar uma campanha porque é um esquema clássico, por assim dizer.”
PPC: “Eu não estou muito habituado a essas coisas…”
HN: “Mas tem a noção disso? A Odebrecht fez isso em outros países.”
PPC: “Eu não sei o que é que fez ou deixou de fazer, o que sei é o seguinte: o PSD fez uma campanha, pagou-a. Uma parte do dispêndio que teve foi com o André Gustavo e a equipa dele. Pagou (…)”
HN: “Podia depois ter sido reivindicada [reembolsada]…”
PPC: “Ah, pois, mas por que raio é que a Odebrecht havia de reembolsar o PSD da sua campanha?”
HN: “Na expectativa de que, caso de continuassem no governo, podiam beneficiar a Odebrecht. É a hipótese que estamos também a trabalhar.”
PPC: “Pronto, muito bem (…), então é uma coisa ainda mais surrealista para mim, porque não há nada. O meu governo nunca esteve à venda, eu nunca estive à venda. Nunca recebi nada de ninguém e, portanto, acharia uma grande ingenuidade que alguma empresa brasileira resolvesse dar dinheiros por conta de decisões que um governo futuro viesse a tomar, que eu nem faria ideia de que decisões poderiam ser (…). Acharia muito pouco profissional uma empresa dessas estar a arriscar com base no que lhe diz um tipo qualquer “olha, dá-me cá esse dinheiro que eu arranjo maneira disto e daquilo’. Espero que ele não tenha feito tal coisa, porque essa influência não tinha seguramente.”
A conversa continuou centrada em hipotéticas atitudes do anterior diretor de marketing do PSD, no facto de poder ter sido intermediário da Odebrecht ou alguém a mando da empresa. “Sim, mas intermediário comigo não foi seguramente. Não estou a ver ninguém com a lata para arriscar coisas dessas”, disse Passos Coelho, que estendeu a incredulidade a outros nomes no partido: “Para ser sincero, no PSD ainda menos, quer dizer quem é que no PSD… Matos Rosa nem pensar, seria para mim uma grande novidade, mas por essa razão até, enfim, já vi tantas referências nos jornais à volta disso, e sempre que aparece uma coisa dessas lá vem o engenheiro Sócrates a salivar e dizer ‘então e porque é que não chateiam aqueles gajos’, por isso fico com uma certa curiosidade para saber que conclusões é que chega a investigação, para ver se alguém recebeu coisas que não devia, que eram indevidas ou o que é que se passou e…”
O procurador atalhou dizendo que o objetivo dele era esclarecer tudo, mas que também sabia, até pelo sucedido em outros processos, que às vezes há histórias e suspeitas que perduram no tempo sem uma resposta cabal. Passos Coelho disse que isso não o preocupava e que também não perdia muito tempo a pensar em todo aquele enigma que perdurava no processo da barragem do Baixo Sabor, onde era a própria Odebrecht que indicava nos documentos internos a existência de saídas avultadas de dinheiro, em 2008 e 2015, para Portugal. “Pode um dia alguém dizer-me assim “olha, há aí uma pessoa que abusou da tua confiança e que resolveu andar a fazer coisas que não devia e a prometer coisas que não devia’, mas o mais que pode acontecer é eu ficar triste com isso, não vou passar a vida a olhar para o lado com desconfiança sobre toda a gente porque houve um tipo qualquer que disse uma palermice qualquer. Ou porque há uma coincidência entre um dinheiro que o André Gustavo supostamente recebeu e o que o PSD lhe pagou, porque o PSD lhe pagou”.
HN: “Certo, mas a hipótese que está em causa é esse dinheiro, esse pagamento, depois de ter sido depois…”
PPC: “No PSD não entrou, porque senão ter-se-ia visto nas contas e…”
HN: “Dificilmente seria por aí.”
PPC: “… e muito me espantaria que houvesse alguém que tivesse o topete de receber alguma coisa. Só poderia ser para o secretário-geral, o Matos Rosa, mas não acredito nisso. O eng. Moreira da Silva seguramente não, bem o eng. Moreira da Silva já estava no governo, o Marco António Costa não acredito…”
Com o regresso dos nomes do PSD ao testemunho, o procurador decidiu avançar mais um passo. “É público, isto até já foi confirmado por Miguel Relvas, que quem conhecia o André Gustavo era ele e o Marco António Costa. Tem essa noção?” Passos Coelho hesitou, mas disse que achava que o especialista de marketing brasileiro tinha sido uma descoberta de Marco António Costa quando André Gustavo teria trabalhado numa das antigas campanhas de Luís Filipe Menezes para a presidência da câmara de Vila Nova de Gaia. Mas o procurador pareceu mais interessado em voltar às frequentes notícias sobre as suspeitas da existência de dinheiro corrupto da Odebrecht para o “Príncipe” e/ou o financiamento ilegal do PSD. “Discutiu ou conversou com mais alguém quando estas notícias surgiram, que obviamente o colocam numa posição desconfortável?”, questionou Hugo Neto. “Não, só com o Matos Rosa, não é? Só com o Matos Rosa”, respondeu Passos Coelho.
Hugo Neto quis saber mais pormenores e Passos encarou isso como uma suspeita e tratou de defender o antigo secretário-geral do PSD com argumentos algo caricatos. “Não, não, não, o Matos Rosa nem, quer dizer, todos podemos ter grandes surpresas na vida e eu poderei ter uma enorme surpresa na vida. Para mim, o Matos Rosa não é exatamente a pessoa mais inspirada do mundo, mas é uma pessoa certinha, correta, leal e honesta. Entusiasma-se às vezes um bocadinho e dá um bocado mais do que deve nas campanhas. Deixa a malta gastar um bocadinho mais do que devia, se calhar, mas enfim, eu acho que nós devemos dar uma certa liberdade às pessoas, senão elas são nossas prisioneiras e também não dá certo. Portanto, se um tipo é secretário-geral, não se lhe pode estar sempre a corrigir as decisões que ele toma e...” Hugo Neto deixou as apreciações de lado e só quis saber se Matos Rosa teria adiantado alguma explicação e Passos respondeu-lhe que não.
Bem mais adiante no testemunho, o procurador voltou pela última vez ao tema André Gustavo e a sequência das (velhas) questões levou Passos Coelho a desabafar que já estava um pouco farto dos enigmas e que numa futura conversa que viesse a ter com o antigo diretor de marketing do PSD o iria questionar de uma forma muito direta: “Pode ter a certeza que, a próxima vez que estiver com ele, vou-lhe perguntar: ‘mas tu recebeste algum dinheiro, com vista a alguma coisa’? Se ele se ofender, ofendeu-se”.
O procurador do DCIAP deixou também parte de um desabafo que indiciava para onde estava a ir a investigação: “Pode ser que ele próprio, um dia, também possa ter a oportunidade de esclarecer. Não sei se voltará a Portugal ou não, mas...” Pouco depois, o procurador deu por encerrado o testemunho: “Se quiser acrescentar mais alguma coisa, dou-lhe a oportunidade, senão terminamos por aqui e é só assinar o auto”. Passos disse que não tinha mais nada a acrescentar e Hugo Neto ainda disse que estaria disponível no futuro caso viesse mais algum dado à memória do antigo político. “É pouco provável, não é?!”, respondeu com fleuma Passos Coelho. Eram 17h44 quando acabou o testemunho de 11 de abril de 2025.
Mais de um ano e meio depois, Pedro Passos Coelho, e também Miguel Relvas, disseram à TVI/CNN Portugal que mais nada têm a acrescentar aos testemunhos e especificaram que não voltaram a ser contactados pelo Ministério Público.
CONTINUA NA PRÓXIMA SEGUNDA-FEIRA. CAPÍTULO 2 – “O que te posso dizer é que recebi pelos serviços que fiz no partido”